Se a industrialização havia criado novas empresas, novas cidades e uma nova classe trabalhadora, faltava compreender como essas transformações modificaram a própria relação entre Estado, capital e trabalho.
É nesse ponto que Getúlio Vargas ocupa lugar central na história brasileira.
Sua trajetória foi marcada por diferentes períodos, mudanças políticas e contradições. Por isso, não pode ser compreendida por uma única definição.
Vargas foi, ao mesmo tempo, líder político, construtor de instituições, defensor da industrialização, organizador das relações trabalhistas e protagonista de períodos autoritários e democráticos.
Sua importância para esta história está principalmente na transformação da estrutura econômica e social do país.
A Revolução de 1930
Em 1930, Getúlio Vargas chegou ao poder após um movimento político que encerrou a Primeira República.
O Brasil ainda era fortemente influenciado pelas elites agrárias.
Mas a sociedade já estava mudando.
As cidades cresciam.
A indústria avançava.
O mercado interno aumentava.
Novos grupos sociais buscavam espaço político.
A Revolução de 1930 representou também uma ruptura com a antiga predominância das oligarquias estaduais na condução da política nacional.
O Brasil depois de 1930
O novo governo começou a ampliar a centralização do Estado.
A União passou a exercer maior influência sobre diferentes áreas da economia e da administração pública.
Isso alterou o equilíbrio de poder existente durante a Primeira República.
O Brasil começava a construir um Estado nacional mais centralizado.
O trabalho entra no centro da política
Uma das maiores mudanças foi a incorporação da questão trabalhista à política de Estado.
A industrialização havia criado um número crescente de trabalhadores urbanos.
Esses trabalhadores precisavam de regras para:
jornada + salários + férias + proteção social + relações sindicais.
A questão trabalhista deixava de ser apenas um assunto entre patrões e empregados.
Passava a ser também uma questão de Estado.
A legislação trabalhista
Durante a Era Vargas, diversas medidas trabalhistas foram criadas ou consolidadas.
Em 1943, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) reuniu e sistematizou normas trabalhistas.
A legislação criou um conjunto de direitos que se tornaria parte fundamental da relação entre trabalhadores, empresas e Estado.
Isso representou uma transformação profunda.
Mas havia uma contradição
A legislação trabalhista não surgiu dentro de uma democracia liberal plena.
O Estado Novo, instaurado em 1937, foi um regime autoritário.
Houve censura.
Perseguição política.
Restrição de liberdades.
Centralização do poder.
Portanto, a história da legislação social brasileira possui uma contradição que não deve ser escondida:
direitos trabalhistas foram ampliados durante um período de forte autoritarismo político.
Direitos sociais e liberdade política
Essa experiência demonstra que direitos sociais e liberdade política são dimensões diferentes.
Uma sociedade precisa das duas.
Proteção ao trabalhador não substitui democracia.
Democracia também não elimina automaticamente desigualdades econômicas.
O desafio é construir ambas simultaneamente.
O trabalhador como cidadão
A legislação trabalhista ajudou a transformar a posição do trabalhador urbano.
Ele passou a ser reconhecido não apenas como alguém que vende sua força de trabalho.
Passou a possuir direitos definidos por lei.
A relação entre trabalhador e empresa passou a estar submetida a uma estrutura jurídica mais ampla.
Isso modificou o próprio conceito de cidadania social.
O sindicato
O sindicalismo também ganhou nova importância.
Mas o modelo sindical construído durante o período Vargas possuía forte presença e controle do Estado.
Essa característica seria objeto de debates durante décadas.
A organização dos trabalhadores cresceu.
Mas sua autonomia diante do Estado era limitada.
O salário
O salário mínimo também passou a fazer parte dessa nova estrutura.
A ideia era estabelecer um piso de remuneração capaz de atender necessidades básicas do trabalhador.
O conceito representava uma mudança importante:
o trabalho não deveria ser tratado apenas como uma mercadoria submetida exclusivamente à negociação individual.
A industrialização como projeto nacional
Mas Vargas não tratou apenas de trabalho.
A industrialização passou a ser vista como uma estratégia de desenvolvimento nacional.
O Brasil precisava produzir internamente bens que dependia de importar.
Precisava criar indústria de base.
Precisava desenvolver energia.
Precisava formar mão de obra.
Precisava construir infraestrutura.
A Companhia Siderúrgica Nacional
A criação da Companhia Siderúrgica Nacional foi um dos grandes marcos dessa estratégia.
O aço era fundamental para a construção de máquinas, equipamentos, veículos e infraestrutura.
Uma indústria de base permitiria desenvolver outras indústrias.
Era uma lógica de encadeamento produtivo.
Volta Redonda
A instalação da siderúrgica em Volta Redonda transformou a região.
Uma grande indústria não cria apenas empregos dentro de suas instalações.
Ela cria demanda por:
transporte;
serviços;
comércio;
moradia;
fornecedores;
formação profissional.
A indústria passa a reorganizar o território.
O Estado como indutor
Essa experiência consolidou uma característica que permaneceria no desenvolvimento brasileiro:
o Estado como indutor da industrialização.
Isso não significava necessariamente eliminar a iniciativa privada.
Significava criar estruturas que o setor privado, sozinho, poderia ter dificuldade para financiar ou organizar.
A industrialização e o capital privado
Ao lado das empresas estatais, cresceu também o setor privado.
Indústrias nacionais se expandiram.
Empresas estrangeiras começaram a ocupar espaço.
O mercado consumidor aumentou.
A economia brasileira passou a combinar:
Estado + empresas nacionais + capital estrangeiro + trabalhadores + mercado interno.
O petróleo
Outro tema estratégico foi o petróleo.
A discussão sobre sua exploração envolveu questões de soberania, investimento e desenvolvimento industrial.
Em 1953, ainda durante o segundo governo Vargas, foi criada a Petrobras.
A empresa se tornaria um dos símbolos da estratégia brasileira de desenvolvimento energético.
Petróleo não é apenas combustível
A importância do petróleo ultrapassa os postos de combustíveis.
Ele participa de uma enorme cadeia produtiva.
Combustíveis.
Petroquímica.
Plásticos.
Fertilizantes.
Produtos químicos.
Transportes.
Indústria.
Controlar tecnologia e capacidade de exploração significava ampliar a autonomia econômica do país.
O segundo governo Vargas
Em 1951, Vargas voltou ao poder, desta vez eleito pelo voto.
A experiência foi diferente da primeira fase.
O país já era mais urbano.
A industrialização havia avançado.
Os trabalhadores possuíam maior organização.
O debate sobre desenvolvimento nacional estava mais amadurecido.
O nacional-desenvolvimentismo
A ideia de desenvolvimento nacional ganhou força.
O Estado deveria estimular setores estratégicos.
A indústria deveria crescer.
O país deveria reduzir determinadas dependências externas.
A infraestrutura precisava acompanhar a expansão econômica.
Essa visão influenciaria governos posteriores.
Vargas e seus críticos
Vargas também enfrentou forte oposição.
Havia críticas ao seu modelo econômico.
Críticas políticas.
Críticas ao intervencionismo estatal.
Críticas à relação com os sindicatos.
Críticas de setores empresariais.
A disputa política tornou-se intensa.
A crise de 1954
Em 1954, o ambiente político chegou a um ponto extremo.
A crise terminou com o suicídio de Vargas.
Sua morte provocou enorme comoção nacional.
Mas, para esta série, o mais importante é observar o legado econômico e institucional deixado por seu período.
O que mudou com Vargas
O Brasil que saiu da Era Vargas já não era o mesmo.
O Estado havia adquirido maior capacidade de intervenção.
A legislação trabalhista estava consolidada.
A indústria de base havia avançado.
O petróleo havia adquirido importância estratégica.
A classe trabalhadora urbana havia conquistado um novo espaço institucional.
O desenvolvimento nacional havia se tornado um projeto político explícito.
Mas a questão agrária permanecia
Enquanto a cidade se industrializava, o campo continuava enfrentando antigas questões.
Concentração fundiária.
Trabalho rural.
Baixa produtividade em determinadas regiões.
Falta de infraestrutura.
Dificuldade de acesso à terra.
Desigualdade regional.
A modernização industrial não havia resolvido a questão agrária.
Duas velocidades
O Brasil passou a viver em duas velocidades.
De um lado:
indústria + urbanização + tecnologia + grandes empresas.
De outro:
pobreza rural + concentração fundiária + baixa infraestrutura em muitas regiões.
Essa diferença ajudaria a alimentar conflitos políticos nas décadas seguintes.
O Nordeste
O Nordeste ocupava posição especial nesse debate.
A região carregava heranças históricas de concentração fundiária, pobreza, secas recorrentes e desigualdade.
Ao mesmo tempo, possuía enorme riqueza cultural e potencial econômico.
A questão nordestina passaria a ocupar lugar cada vez mais importante no debate sobre desenvolvimento nacional.
O surgimento de novas lideranças
Nesse ambiente surgiriam lideranças políticas com propostas diferentes para enfrentar as desigualdades regionais.
Algumas defenderiam maior presença do Estado.
Outras enfatizariam reforma agrária.
Outras priorizariam industrialização e infraestrutura.
Outras defenderiam maior liberdade econômica.
O Brasil entraria em uma fase de intensa disputa sobre qual modelo de desenvolvimento deveria seguir.
Juscelino Kubitschek
Após a morte de Vargas, o país caminharia para uma nova etapa.
Em 1956, Juscelino Kubitschek assumiu a Presidência.
Seu projeto tinha uma característica marcante:
acelerar a transformação econômica.
Seu lema ficou associado à ideia de realizar o desenvolvimento em ritmo extraordinário.
O Plano de Metas
O governo Juscelino adotou um amplo programa de investimentos conhecido como Plano de Metas.
Energia.
Transporte.
Indústria.
Alimentação.
Educação.
A ideia era criar infraestrutura suficiente para acelerar o crescimento.
A indústria automobilística
A indústria automobilística ganhou enorme impulso.
Empresas estrangeiras instalaram fábricas no Brasil.
Ao redor delas surgiu uma cadeia de fornecedores.
Peças.
Pneus.
Vidros.
Motores.
Serviços.
Transporte.
A indústria tornou-se cada vez mais integrada.
Brasília
A construção de Brasília tornou-se o símbolo máximo do projeto de modernização de Juscelino.
A nova capital representava uma tentativa de interiorização e integração nacional.
Era também uma demonstração da capacidade do Estado de mobilizar recursos para realizar grandes projetos.
O preço do desenvolvimento
O crescimento acelerado, porém, teve custos.
A inflação aumentou.
A dívida pública e externa tornou-se preocupação.
O país precisava financiar grandes investimentos.
Mais uma vez apareceu uma questão que acompanharia o Brasil por décadas:
como crescer rapidamente sem perder estabilidade econômica?
O Brasil depois de Juscelino
Ao final de seu governo, o país estava muito mais industrializado.
Mas as desigualdades permaneciam.
A questão agrária continuava sem solução ampla.
As desigualdades regionais continuavam.
A inflação era um problema.
E a política brasileira caminhava para uma nova fase de grande tensão.
A década de 1960
O início dos anos 1960 foi marcado por intensa polarização.
A sociedade discutia:
reformas de base + reforma agrária + desenvolvimento + inflação + papel do Estado + participação popular.
A questão econômica estava diretamente ligada à questão política.
João Goulart
João Goulart assumiu a Presidência em 1961.
Ligado historicamente ao trabalhismo, defendia reformas que buscavam alterar estruturas econômicas e sociais.
Entre elas estava a reforma agrária.
O debate tornou-se cada vez mais intenso.
A reforma agrária volta ao centro
Agora podemos compreender melhor por que a reforma agrária não era apenas uma discussão sobre terra.
Ela envolvia:
propriedade + produção + trabalho + crédito + desenvolvimento regional + poder político.
Alterar a estrutura fundiária significaria modificar relações econômicas estabelecidas havia séculos.
E chegamos a um ponto decisivo
A partir daqui, a história brasileira entrará em uma fase na qual reforma agrária, trabalhismo, desenvolvimento, Guerra Fria, democracia e autoritarismo se cruzarão.
É também nesse contexto que aparecerão personagens políticos que marcaram profundamente o século XX brasileiro.
Entre eles, Leonel Brizola.
E será necessário compreender Brizola não apenas como personagem político, mas como parte de uma tradição histórica que vinha sendo construída desde o trabalhismo de Vargas.
Só então será possível entender por que sua trajetória se relaciona com temas como:
terra + educação + indústria + energia + soberania nacional + trabalho + desenvolvimento regional.
E também poderemos voltar à pergunta que surgiu anteriormente nesta série:
por que figuras tão diferentes, como Lampião e Brizola, podem produzir comparações na memória política e cultural brasileira sem que isso signifique que tenham sido personagens semelhantes em suas ideias, objetivos ou contextos históricos?
Essa comparação só fará sentido depois de compreendermos o Brasil que produziu Brizola.
Continua.
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