A história brasileira havia atravessado uma longa sequência de transformações.
Da economia colonial à industrialização.
Da sociedade rural à urbanização.
Do coronelismo à política de massas.
Do Estado Novo ao regime militar.
E, finalmente, da ditadura à redemocratização.
Mas a democracia que retornava encontraria um país economicamente diferente daquele que havia deixado.
O Brasil possuía uma indústria muito maior, grandes empresas, um mercado consumidor expressivo e uma população predominantemente urbana.
Ao mesmo tempo, enfrentava um problema que se tornaria central:
a inflação.
A redemocratização
Em 1985, o regime militar chegou ao fim e teve início uma nova etapa democrática.
Tancredo Neves foi eleito indiretamente presidente, mas não chegou a tomar posse.
Com sua morte, José Sarney assumiu a Presidência.
O país precisava reconstruir suas instituições democráticas e, simultaneamente, enfrentar uma economia extremamente instável.
Uma democracia diante de uma crise econômica
A redemocratização não aconteceu em um cenário de prosperidade.
O Brasil carregava:
inflação elevada + dívida externa + desequilíbrios fiscais + baixo crescimento + dificuldades de investimento.
O desafio era enorme.
Não bastava reconstruir a democracia.
Era necessário reconstruir também a estabilidade econômica.
A Constituição de 1988
Em 1988, o Brasil promulgou uma nova Constituição.
Ela ampliou direitos civis, políticos e sociais e estabeleceu novas bases para o funcionamento do Estado democrático.
A Constituição também consolidou direitos relacionados a:
educação + saúde + trabalho + previdência + assistência social.
O Estado brasileiro passou a assumir responsabilidades sociais ainda mais amplas.
Democracia e direitos sociais
Esse momento é importante para a tese desta série.
A democracia não significa apenas votar.
Também envolve instituições, direitos e garantias.
Mas existe uma questão econômica inevitável:
como financiar os direitos que a sociedade estabelece?
Quanto maior a responsabilidade do Estado, maior também a necessidade de uma economia capaz de gerar recursos suficientes para sustentá-la.
A inflação
Durante os anos 1980 e início dos anos 1990, a inflação tornou-se um dos maiores problemas brasileiros.
Os preços podiam subir rapidamente.
O dinheiro perdia poder de compra.
Famílias precisavam adaptar seus hábitos.
Empresas tinham dificuldade para planejar.
Investimentos de longo prazo ficavam mais difíceis.
A inflação atingia de maneira diferente os grupos sociais.
Quem mais sofre com a inflação?
Famílias com menor renda geralmente possuem menos condições de proteger seu patrimônio.
Quem recebe salário e precisa gastar quase toda a renda para viver sente rapidamente o aumento dos preços.
Quem possui patrimônio financeiro ou ativos que acompanham a inflação pode ter maior capacidade de proteção.
Mais uma vez, a estrutura patrimonial influencia a capacidade de enfrentar uma crise.
A moeda e a confiança
Uma moeda não é apenas um instrumento para comprar produtos.
Ela também representa confiança.
Quando as pessoas deixam de acreditar que seu dinheiro manterá valor, passam a procurar outras formas de proteção.
A economia começa a funcionar de maneira diferente.
Por isso, controlar a inflação é também reconstruir a confiança na própria moeda.
Os planos econômicos
Durante o governo Sarney foram adotados diferentes planos para tentar controlar a inflação.
Entre eles esteve o Plano Cruzado.
Depois vieram outras tentativas.
O problema persistia.
O Brasil ainda não havia encontrado uma solução duradoura.
A eleição de 1989
Em 1989, o Brasil realizou a primeira eleição presidencial direta desde 1960.
Foi um momento histórico.
Milhões de brasileiros voltaram a escolher diretamente o presidente.
Fernando Collor venceu a eleição no segundo turno.
A expectativa era de modernização econômica e combate à inflação.
A abertura econômica
O governo Collor acelerou a abertura da economia brasileira à concorrência internacional.
Produtos importados passaram a encontrar maior espaço no mercado nacional.
A ideia era estimular a competição e modernizar a indústria.
A exposição à concorrência externa poderia pressionar empresas brasileiras a aumentar produtividade.
A competição como instrumento econômico
Aqui aparece novamente um princípio importante do capitalismo.
A concorrência pode estimular:
eficiência + inovação + redução de custos + melhoria da qualidade.
Mas a abertura econômica também pode produzir dificuldades.
Empresas menos preparadas podem perder mercado.
Setores inteiros podem enfrentar forte concorrência externa.
A transição precisa considerar produtividade e capacidade de adaptação.
O confisco da poupança
Em 1990, o governo Collor adotou um plano econômico que incluiu o bloqueio de recursos financeiros de milhões de brasileiros.
A medida provocou forte impacto social e econômico.
A tentativa de combater a inflação, porém, não resolveu o problema de maneira permanente.
A crise política
O governo Collor também enfrentou uma grave crise política.
Denúncias de corrupção levaram à abertura de um processo de impeachment.
Em 1992, Collor deixou a Presidência.
Itamar Franco assumiu.
O país entrava novamente em uma fase de transição.
Itamar Franco
O governo Itamar teve uma característica importante.
Em vez de buscar apenas mais um choque econômico, começou a construir uma estratégia diferente para enfrentar a inflação.
Essa estratégia daria origem ao Plano Real.
Fernando Henrique Cardoso
Fernando Henrique Cardoso assumiu o Ministério da Fazenda e coordenou a equipe responsável pela formulação do novo programa econômico.
A estratégia foi diferente dos planos anteriores.
Em vez de simplesmente congelar preços, procurou atacar os mecanismos que alimentavam a inflação e reconstruir a confiança na moeda.
O Plano Real
Em 1994, o Brasil implantou o Plano Real.
A nova moeda trouxe uma mudança profunda.
A inflação começou a cair de maneira consistente.
A estabilidade monetária modificou o cotidiano dos brasileiros.
O significado da estabilidade
A estabilidade da moeda possui efeitos que vão muito além da economia financeira.
Uma família pode planejar melhor.
Uma empresa pode calcular custos.
Um trabalhador pode saber quanto seu salário realmente vale.
Um empreendedor pode tomar decisões de longo prazo.
Um investidor pode avaliar projetos com maior segurança.
A previsibilidade passa a ter valor econômico.
O fim da inflação como imposto invisível
A inflação elevada funcionava, na prática, como uma forma de corrosão do poder de compra.
Quem não conseguia proteger seu dinheiro perdia.
A estabilidade reduziu essa transferência silenciosa de poder econômico.
O trabalhador passou a ter maior capacidade de preservar sua renda.
A nova economia brasileira
Depois da estabilização, outras questões passaram a ganhar importância.
Não bastava mais controlar a inflação.
Era necessário discutir:
crescimento + produtividade + emprego + investimento + infraestrutura + educação + competitividade.
O país entrava em uma nova fase.
Privatizações e reforma do Estado
Durante os anos 1990, o Brasil também passou por um processo de privatizações.
Empresas de diferentes setores foram transferidas para a iniciativa privada.
Os defensores argumentavam que a privatização poderia:
aumentar eficiência + reduzir custos + atrair investimentos + melhorar serviços.
Os críticos questionavam:
preços + concentração econômica + controle de setores estratégicos + capacidade de regulação do Estado.
Mais uma vez, a discussão não era simplesmente Estado contra mercado.
Era sobre qual deveria ser o papel de cada um.
O Estado muda de função
O Estado brasileiro não desapareceu da economia.
Sua função começou a mudar.
Em determinados setores, deixou de atuar diretamente como proprietário e passou a atuar mais como:
regulador + fiscalizador + planejador + formulador de políticas públicas.
Essa transformação seria fundamental para a economia brasileira contemporânea.
A abertura e a globalização
Durante os anos 1990, o Brasil aprofundou sua integração com a economia mundial.
Empresas brasileiras passaram a enfrentar maior concorrência internacional.
Ao mesmo tempo, investimentos estrangeiros aumentaram.
Tecnologias e produtos circulavam mais rapidamente.
A globalização modificou o ambiente competitivo.
O Mercosul
A integração regional também ganhou importância.
Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai criaram o Mercosul em 1991.
A ideia era ampliar o comércio e a integração econômica entre os países.
O mercado brasileiro passou a fazer parte de uma dinâmica regional mais ampla.
A nova classe média consumidora
A estabilidade econômica também alterou hábitos de consumo.
Famílias que antes tinham dificuldade para planejar passaram a ter maior previsibilidade.
O acesso ao crédito cresceu.
O mercado consumidor se expandiu.
A economia brasileira tornou-se cada vez mais baseada em uma grande sociedade urbana de consumo.
Mas estabilidade não significa igualdade
Essa distinção é fundamental.
Controlar a inflação não elimina automaticamente:
pobreza + desigualdade patrimonial + desigualdade educacional + desigualdade regional.
A estabilidade cria condições para o desenvolvimento.
Mas não garante, sozinha, que seus benefícios sejam igualmente distribuídos.
A questão do patrimônio permanece
Mesmo em uma economia estável, famílias partem de pontos diferentes.
Uma possui imóvel.
Outra paga aluguel.
Uma possui poupança.
Outra vive sem reserva.
Uma possui acesso ao crédito.
Outra enfrenta juros elevados ou sequer consegue financiamento.
A estabilidade monetária melhora as condições gerais.
Mas a estrutura patrimonial continua influenciando as oportunidades.
A economia brasileira entra no século XXI
Ao final dos anos 1990, o Brasil já era muito diferente daquele país colonial descrito no início desta série.
Era urbano.
Industrial.
Financeiro.
Tecnológico.
Globalizado.
Democrático.
Mas algumas questões históricas continuavam presentes.
terra + patrimônio + educação + capital + poder.
A diferença é que agora esses elementos estavam inseridos em uma economia muito mais complexa.
A nova pergunta
Depois de estabilizar a moeda, o Brasil precisava enfrentar outro desafio:
como transformar estabilidade em desenvolvimento sustentável?
Como aumentar a produtividade?
Como melhorar a educação?
Como ampliar infraestrutura?
Como reduzir desigualdades?
Como criar oportunidades?
Como integrar regiões?
Como aumentar a capacidade tecnológica?
Como transformar crescimento econômico em patrimônio para mais famílias?
A história entra no século XXI
A resposta a essas perguntas será construída em uma nova conjuntura.
O Brasil entrará no século XXI com:
internet + globalização + novas tecnologias + expansão do crédito + novas políticas sociais + commodities em alta + crescimento da China + transformação do mercado de trabalho.
A economia mundial também estará mudando.
E essa mudança criará novas oportunidades para o Brasil.
Mas também novas dependências.
A próxima transformação
O país que durante séculos exportou produtos agrícolas agora encontrará uma nova potência compradora.
A China.
A demanda chinesa transformará profundamente as exportações brasileiras de:
soja + minério de ferro + petróleo + carnes + celulose.
O agronegócio ganhará ainda mais importância.
As cidades continuarão crescendo.
A internet modificará o comércio.
O sistema financeiro se digitalizará.
E uma nova discussão surgirá:
o Brasil conseguirá transformar sua força exportadora em desenvolvimento tecnológico e aumento de produtividade?
Essa pergunta nos levará ao Brasil do século XXI — e à transformação da relação entre agronegócio, indústria, China, commodities, tecnologia, trabalho e capital.
Continua.
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