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"Inspirado em Heidegger, Brincadeira Sustentável (por Renata Bravo) não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser digerida, vivida e incorporada."

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Parte XLVI - Conhecimento, tecnologia e o novo poder econômico

 A história brasileira chegou a um ponto em que os antigos instrumentos de poder econômico continuam existindo, mas já não são suficientes para explicar a economia contemporânea.

A terra continua produzindo riqueza.

O capital continua financiando empresas.

A indústria continua sendo essencial.

A energia continua sustentando a produção.

Mas uma nova força atravessa todas elas:

o conhecimento.

Do patrimônio físico ao patrimônio intelectual

Durante grande parte da história, a riqueza podia ser visualizada.

Era possível olhar para uma fazenda.

Para uma fábrica.

Para uma ferrovia.

Para um navio.

Para uma mina.

Hoje, parte importante do patrimônio de uma empresa pode não ser visível.

Pode estar em:

patentes + softwares + marcas + algoritmos + bancos de dados + pesquisas + conhecimento técnico.

A riqueza tornou-se também intelectual.

O conhecimento como meio de produção

Essa transformação é profunda.

Uma máquina produz determinado bem.

Mas alguém precisou desenvolver a máquina.

Um software organiza uma empresa.

Mas alguém precisou criá-lo.

Uma nova variedade agrícola aumenta a produtividade.

Mas alguém precisou desenvolver a tecnologia.

Por trás da produção existe conhecimento acumulado.

A ciência entra definitivamente na economia

No passado, ciência e produção podiam parecer campos relativamente separados.

Hoje, essa separação é cada vez menor.

Pesquisa científica pode gerar:

medicamentos + sementes + materiais + equipamentos + energia + sistemas digitais.

A universidade pode produzir conhecimento que posteriormente se transforma em atividade econômica.

O Brasil já possui uma base científica

O país construiu ao longo das últimas décadas universidades, institutos de pesquisa e empresas capazes de produzir conhecimento em áreas estratégicas.

Agricultura.

Medicina.

Energia.

Engenharia.

Biotecnologia.

Aeronáutica.

Tecnologia da informação.

Um exemplo emblemático

A experiência brasileira na indústria aeronáutica demonstra como conhecimento acumulado pode transformar-se em capacidade industrial.

A criação da Embraer representou muito mais do que a fabricação de aviões.

Envolveu:

engenharia + formação de profissionais + pesquisa + indústria + mercado internacional.

Da escola à indústria

Esse exemplo mostra uma cadeia fundamental:

educação → pesquisa → tecnologia → empresa → produto → mercado.

Quando essa cadeia funciona, o conhecimento transforma-se em riqueza.

Quando a cadeia não funciona

O problema surge quando o país forma pesquisadores, mas não consegue transformar suficientemente suas pesquisas em produtos, empresas e tecnologias competitivas.

Nesse caso, existe conhecimento, mas pouco valor econômico é capturado internamente.

A importância das patentes

Uma patente protege determinada invenção durante um período.

Ela permite que o conhecimento produzido por uma empresa ou instituição tenha valor econômico.

Isso mostra como a propriedade também mudou.

No passado, a propriedade estava fortemente associada à terra.

Hoje, pode estar associada também à propriedade intelectual.

Uma nova forma de concentração

A concentração econômica pode acontecer quando poucas empresas controlam tecnologias essenciais.

Pode ocorrer em setores como:

computação + plataformas digitais + sistemas operacionais + semicondutores + inteligência artificial.

Os dados

Existe ainda um novo ativo econômico:

dados.

Informações sobre consumidores, mercados e comportamentos podem ser utilizadas para desenvolver produtos, publicidade, logística e serviços.

Dados, quando tratados adequadamente e dentro das regras legais, podem gerar enorme valor econômico.

Mas dados não são apenas mercadoria

Existe uma diferença importante.

Dados também envolvem direitos individuais, privacidade e segurança.

Por isso, a economia digital exige novas formas de regulação.

A legislação precisa acompanhar a tecnologia

A tecnologia muda rapidamente.

As instituições precisam acompanhar essas transformações.

É necessário estabelecer regras para:

concorrência + proteção de dados + segurança digital + direitos do consumidor + inovação.

O desafio regulatório

Se a regulação for excessivamente pesada, pode dificultar a inovação.

Se for insuficiente, pode permitir abusos de mercado.

O desafio está em encontrar equilíbrio.

O Estado diante da inteligência artificial

A inteligência artificial amplia ainda mais essa discussão.

Sistemas capazes de processar grandes quantidades de informação podem aumentar a produtividade de empresas e trabalhadores.

Mas também podem substituir determinadas tarefas.

O trabalho não desaparece simplesmente

A história econômica demonstra que novas tecnologias frequentemente eliminam determinadas atividades enquanto criam outras.

A mecanização reduziu algumas tarefas agrícolas.

A indústria substituiu determinados trabalhos manuais.

A informática transformou atividades administrativas.

A inteligência artificial fará algo semelhante em muitas áreas.

A questão será a adaptação

O trabalhador que conseguir aprender novas ferramentas poderá aumentar sua produtividade.

Por isso, educação continuada será cada vez mais importante.

A formação profissional não poderá terminar no início da vida adulta.

A escola do futuro

A escola precisará ensinar mais do que memorização.

Precisará desenvolver:

raciocínio + criatividade + comunicação + ciência + tecnologia + capacidade de resolver problemas.

O conhecimento disponível é enorme.

O diferencial será saber utilizá-lo.

A infância também entra nessa discussão

A formação para uma economia tecnológica começa muito antes da entrada no mercado de trabalho.

Brincar.

Criar.

Experimentar.

Construir.

Resolver problemas.

Trabalhar em grupo.

Observar a natureza.

Tudo isso contribui para o desenvolvimento de capacidades humanas importantes.

A tecnologia não substitui a experiência humana

Existe uma conclusão importante.

Quanto mais tecnologia existe, mais valor podem adquirir algumas capacidades essencialmente humanas:

criatividade + empatia + julgamento + cooperação + responsabilidade.

A tecnologia amplia possibilidades.

Mas precisa ser orientada por pessoas.

Conhecimento e liberdade

Voltamos novamente à questão apresentada na primeira parte.

O capitalismo liberal valorizou a liberdade individual.

Mas liberdade econômica depende de condições concretas.

No século XXI, uma dessas condições é o acesso ao conhecimento.

Quem não conhece não consegue escolher da mesma maneira

Uma pessoa que não possui informação suficiente pode ter dificuldade para:

empreender + investir + escolher uma profissão + utilizar tecnologia + compreender contratos.

O conhecimento amplia a capacidade de decisão.

Educação como democratização do poder

Por isso, educação não deve ser vista apenas como preparação para conseguir emprego.

Ela também amplia autonomia.

Uma sociedade educada possui maior capacidade de participar das decisões econômicas e políticas.

Do trabalhador ao empreendedor

A tecnologia também reduziu algumas barreiras para empreender.

Hoje uma pessoa pode:

criar uma loja virtual;

prestar serviços remotamente;

produzir conteúdo;

desenvolver aplicativos;

vender produtos para outras regiões.

Mas acesso à tecnologia não elimina a necessidade de capital, conhecimento e infraestrutura.

O crédito continua importante

Mesmo na economia digital, o capital continua sendo necessário.

Uma empresa precisa investir.

Um produtor precisa comprar equipamentos.

Uma família precisa financiar uma casa.

Um estudante pode precisar de recursos para formação.

Portanto, a velha questão do acesso ao capital permanece.

Terra, capital e conhecimento

Podemos agora ampliar a equação inicial:

terra + capital + trabalho + conhecimento.

Esses quatro elementos continuam profundamente relacionados.

A propriedade do futuro

Talvez uma das grandes questões econômicas das próximas décadas seja descobrir como ampliar o acesso ao patrimônio em suas diferentes formas.

Patrimônio pode ser:

terra + imóvel + empresa + ações + conhecimento + propriedade intelectual.

Não se trata de igualdade absoluta

Uma sociedade economicamente dinâmica não precisa necessariamente possuir patrimônios iguais.

O ponto é outro:

existem caminhos reais para que pessoas de diferentes origens possam construir patrimônio?

Mobilidade social

A mobilidade social acontece quando uma pessoa consegue melhorar sua posição econômica ao longo da vida.

Isso pode ocorrer por meio de:

educação + trabalho + empreendedorismo + investimento + inovação.

Mas a mobilidade é mais difícil quando as condições de partida são extremamente desiguais.

O ponto de partida

Uma criança que nasce em uma família com patrimônio possui determinadas vantagens.

Outra que nasce sem patrimônio começa de uma posição diferente.

Essa diferença não significa que o resultado esteja previamente determinado.

Mas significa que as oportunidades não são idênticas.

A grande função das instituições

É nesse ponto que instituições públicas e privadas podem desempenhar papel importante.

Educação pública de qualidade.

Crédito.

Infraestrutura.

Segurança jurídica.

Concorrência.

Proteção social.

Mercados funcionais.

Tudo isso pode ampliar as possibilidades de mobilidade.

Concorrência

A concorrência também é uma forma de democratização econômica.

Quando poucas empresas dominam um mercado, novos concorrentes podem encontrar dificuldades para entrar.

Quando existe competição, empresas precisam buscar:

menores custos + melhor qualidade + inovação.

O consumidor ganha

Uma economia competitiva tende a oferecer maior variedade de produtos e serviços.

Por isso, política de concorrência não é apenas uma questão empresarial.

Também é uma questão do consumidor.

O pequeno contra o grande?

A questão não precisa ser apresentada dessa forma.

Uma economia saudável pode possuir:

microempresas + pequenas empresas + médias empresas + grandes empresas + multinacionais.

Cada uma pode desempenhar funções diferentes.

A grande empresa

Grandes empresas possuem capacidade de investir em:

pesquisa + infraestrutura + exportação + tecnologia.

Podem competir internacionalmente.

A pequena empresa

Pequenas empresas podem possuir maior flexibilidade.

Podem conhecer melhor mercados locais.

Podem criar produtos especializados.

Podem gerar empregos em municípios menores.

As cooperativas

Existe ainda uma terceira possibilidade.

Cooperativas permitem que produtores e trabalhadores organizem recursos coletivamente.

Na agricultura, podem aumentar a capacidade de negociação de pequenos e médios produtores.

O campo também entra na economia do conhecimento

A agricultura moderna já utiliza:

satélites + sensores + drones + inteligência artificial + previsão climática + genética + automação.

O agricultor do século XXI pode depender tanto de conhecimento quanto de terra.

A terra continua importante

Isso não significa que a terra perdeu importância.

Ao contrário.

A terra continua sendo base da produção agrícola.

Mas sua produtividade depende cada vez mais de conhecimento.

Uma nova relação

Podemos dizer:

no passado, possuir terra era uma das principais vantagens econômicas;

hoje, saber utilizar a terra de maneira produtiva tornou-se igualmente importante.

A mesma lógica vale para a indústria

Uma fábrica não é competitiva apenas porque possui máquinas.

Precisa saber:

operar + administrar + inovar + vender + financiar + adaptar.

A capacidade humana de utilizar os recursos tornou-se tão importante quanto os próprios recursos.

O Brasil diante desse desafio

O país possui recursos naturais extraordinários.

Possui território.

Possui população.

Possui mercado.

Possui universidades.

Possui empresas.

Possui capacidade agrícola e energética.

O desafio é conectar tudo isso.

A grande conexão

A história brasileira pode ser compreendida como uma sucessão de tentativas de transformar recursos em riqueza.

A terra virou agricultura.

A agricultura gerou exportações.

As exportações financiaram parte da infraestrutura.

A infraestrutura favoreceu a indústria.

A indústria exigiu energia.

A energia sustentou a modernização.

A modernização exigiu ciência.

A ciência produziu tecnologia.

E agora a tecnologia exige ainda mais conhecimento.

O ciclo continua

Nada desapareceu.

Tudo se acumulou.

Esse talvez seja o ponto mais importante da nossa trajetória.

O Brasil do século XXI não deixou de ser agrícola.

Não deixou de ser industrial.

Não deixou de ser energético.

Não deixou de depender do capital.

Ele passou a reunir todas essas dimensões.

O novo desafio brasileiro

A questão agora é fazer com que essa complexidade se transforme em vantagem.

Não basta possuir recursos.

É preciso conectá-los.

Agricultura precisa de ciência.

Indústria precisa de energia.

Energia precisa de tecnologia.

Tecnologia precisa de educação.

Educação precisa de infraestrutura.

Infraestrutura precisa de investimento.

Investimento precisa de estabilidade.

E tudo isso precisa funcionar dentro de instituições capazes de garantir confiança.

A história chega novamente à política

Quando os instrumentos econômicos se tornam mais complexos, as decisões políticas também se tornam mais complexas.

O Estado precisa decidir onde investir.

Empresas precisam decidir onde produzir.

Famílias precisam decidir onde trabalhar e estudar.

E a sociedade precisa decidir quais prioridades deseja financiar.

Desenvolvimento é uma escolha coletivaNão existe desenvolvimento puramente automático.

Mercados produzem sinais.

Empresas tomam decisões.

Indivíduos fazem escolhas.

Mas infraestrutura, educação, ciência e instituições dependem também de decisões coletivas.

A pergunta que fica

Depois de séculos de transformação, a pergunta inicial ganhou uma dimensão nova.

Não basta perguntar:

quem possui a terra?

Nem apenas:

quem possui o capital?

É preciso perguntar:

quem possui conhecimento, tecnologia e capacidade de transformar recursos em valor?

Porque, no século XXI, essa capacidade pode determinar quem participa da economia do futuro.

E o Brasil terá de escolher

Pode utilizar seus recursos naturais apenas como fonte de exportação.

Ou pode transformá-los em base para uma economia de maior valor agregado.

Pode formar consumidores.

Ou pode formar também produtores, pesquisadores, empreendedores e inventores.

Pode importar tecnologia.

Ou pode desenvolver tecnologia própria em áreas estratégicas.

Pode permanecer dependente de ciclos externos.

Ou pode construir maior capacidade de decisão.

A próxima fronteira

A história econômica brasileira começou com a disputa pela terra.

Passou pela disputa pelo capital.

Depois pela industrialização.

Pela energia.

Pela infraestrutura.

Agora chega à disputa pelo conhecimento.

E essa disputa não acontece apenas entre indivíduos.

Acontece entre empresas.

Entre regiões.

Entre países.

Entre diferentes modelos de desenvolvimento.

O conhecimento como patrimônio nacional

Um país que educa sua população amplia sua capacidade produtiva.

Um país que pesquisa amplia sua autonomia tecnológica.

Um país que transforma pesquisa em empresas amplia sua capacidade econômica.

Um país que consegue fazer isso em escala amplia sua soberania.

Por isso, educação, ciência e tecnologia também são instrumentos de soberania nacional.

A história não terminou

A longa trajetória brasileira continua aberta.

As estruturas do passado ainda existem.

Mas novas forças foram acrescentadas.

Terra.

Capital.

Trabalho.

Energia.

Indústria.

Tecnologia.

Conhecimento.

E, acima de todas elas, permanece a questão que atravessou séculos:

quem terá condições de participar da produção da riqueza e transformar essa participação em autonomia, patrimônio e liberdade?

Essa pergunta nos leva à próxima etapa.

Porque, quando conhecimento e tecnologia passam a ocupar posição central na economia, surge uma nova disputa:

quem controlará as tecnologias estratégicas que definirão o futuro?

Continua.

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