O Brasil chegou ao século XXI depois de atravessar uma das maiores transformações de sua história.
Já não era o país predominantemente rural do Império.
Também não era o país agrário-exportador da República Velha.
Havia se tornado uma economia urbana, industrial, diversificada e integrada ao mercado internacional.
Mas ainda carregava antigas questões:
desigualdade + concentração patrimonial + diferenças regionais + baixa produtividade + infraestrutura insuficiente.
Ao mesmo tempo, surgiam novas oportunidades.
A estabilidade muda as possibilidades
A estabilização da moeda na década de 1990 criou uma condição fundamental para o desenvolvimento:
previsibilidade.
Famílias passaram a conseguir planejar melhor seus gastos.
Empresas puderam organizar investimentos com maior horizonte.
O crédito começou a se expandir.
A economia entrou em uma nova fase.
Mas o desafio seguinte seria transformar estabilidade em crescimento sustentável.
A abertura econômica
O Brasil também passou a participar mais intensamente da economia global.
Empresas estrangeiras ampliaram sua presença.
Empresas brasileiras começaram a buscar mercados externos.
Produtos importados passaram a competir com maior intensidade no mercado nacional.
Essa abertura trouxe benefícios e dificuldades.
A competição internacional
Empresas que possuíam baixa produtividade passaram a enfrentar maior pressão.
Algumas desapareceram.
Outras modernizaram seus processos.
Outras encontraram novos mercados.
A competição internacional mostrou uma realidade que se tornaria cada vez mais importante:
não basta produzir; é preciso produzir com eficiência.
Produtividade novamente
A palavra retorna.
Produtividade.
Ela esteve presente na agricultura.
Na indústria.
Nos serviços.
E agora aparecia como condição para competir globalmente.
Uma empresa produtiva consegue produzir mais utilizando melhor seus recursos.
Um país produtivo consegue aumentar sua renda sem depender exclusivamente da expansão da quantidade de trabalhadores ou da exploração de novos recursos naturais.
A tecnologia começa a mudar tudo
A internet começou a transformar a economia.
Empresas passaram a utilizar computadores em praticamente todas as atividades.
A comunicação tornou-se mais rápida.
Informações passaram a circular em escala mundial.
O comércio eletrônico começou a surgir.
Novas profissões apareceram.
O conhecimento ganha ainda mais valor
A economia começou a depender cada vez mais de pessoas capazes de:
programar + pesquisar + analisar + criar + administrar + inovar.
O conhecimento deixou de ser apenas instrumento cultural.
Passou a ser também um ativo econômico estratégico.
O Brasil e a nova economia mundial
Ao mesmo tempo, o país encontrou uma oportunidade extraordinária.
A expansão econômica de grandes mercados asiáticos aumentou a demanda mundial por alimentos, energia e matérias-primas.
O Brasil possuía exatamente alguns dos recursos mais procurados.
A nova força do agronegócio
A agricultura brasileira entrou em uma nova etapa.
A produção passou a incorporar:
biotecnologia + mecanização + agricultura de precisão + pesquisa + genética + logística.
O campo tornou-se altamente integrado à ciência.
A pesquisa agrícola
Uma das instituições fundamentais nesse processo foi a Embrapa.
A pesquisa científica aplicada à agricultura ajudou a desenvolver tecnologias adaptadas às condições brasileiras.
Solos.
Clima.
Culturas.
Manejo.
Produção tropical.
A ciência passou a ampliar a capacidade produtiva do território.
A transformação do Cerrado
Uma das maiores transformações agrícolas brasileiras ocorreu no Cerrado.
Regiões que durante muito tempo foram consideradas pouco adequadas para determinadas culturas passaram a ser incorporadas à produção por meio de pesquisa, correção do solo, tecnologia e mecanização.
Isso ampliou enormemente a fronteira agrícola.
O lado positivo
O Brasil tornou-se um dos grandes produtores mundiais de:
soja + milho + café + açúcar + carnes + celulose + diversos outros produtos.
As exportações cresceram.
O país passou a obter grandes volumes de divisas.
Mas surge novamente a questão histórica
A produção de commodities gera riqueza.
Mas precisamos perguntar:
quanto dessa riqueza permanece no território?
quanto valor é agregado no próprio país?
quanto conhecimento é produzido aqui?
quantas cadeias industriais são criadas a partir dessas matérias-primas?
A velha questão do período colonial reaparece em uma economia completamente diferente.
Não somos mais uma economia colonial
É importante não confundir.
O Brasil possui indústria, universidades, empresas nacionais, tecnologia, mercado interno e instituições próprias.
Não existe equivalência entre exportar commodities hoje e a economia colonial.
A questão é outra:
como aumentar o valor econômico produzido dentro do país?
Da matéria-prima ao produto de maior valor
Produzir soja é importante.
Mas também pode ser importante desenvolver tecnologias, equipamentos, processamento, logística e produtos derivados.
Produzir petróleo é importante.
Mas desenvolver engenharia, equipamentos, petroquímica e conhecimento tecnológico pode gerar ainda mais valor.
A importância das cadeias produtivas
Uma economia forte não depende apenas do produto final.
Depende da cadeia inteira.
Quanto maior a capacidade de produzir localmente:
máquinas + equipamentos + tecnologia + serviços especializados + pesquisa,
maior tende a ser a retenção de valor econômico.
O comércio exterior
As exportações são fundamentais para um país de grande dimensão.
Elas geram divisas.
Permitem importar máquinas e tecnologias.
Ampliam mercados para empresas.
Aumentam a capacidade de inserção internacional.
Mas exportar não significa abandonar o mercado interno.
O mercado brasileiro
O Brasil possui uma característica rara:
um enorme mercado consumidor interno.
Isso permite que empresas tenham escala mesmo antes de conquistar mercados internacionais.
O mercado interno pode funcionar como uma plataforma para a expansão empresarial.
A expansão do consumo
Nos primeiros anos do século XXI, uma parcela significativa da população brasileira passou a ter maior acesso ao consumo.
Crédito.
Emprego.
Aumento da renda.
Programas sociais.
Valorização do salário mínimo.
Esses fatores contribuíram, em diferentes momentos, para ampliar o mercado consumidor.
Mas consumo não é patrimônio
Essa distinção é essencial para a tese.
Uma família pode conseguir comprar mais.
Mas isso não significa necessariamente que tenha acumulado patrimônio.
Pode consumir mais sem possuir:
casa própria + poupança + empresa + investimentos.
Renda e patrimônio
A renda determina parte da capacidade de consumo.
O patrimônio determina também a capacidade de enfrentar crises e transmitir segurança econômica para a próxima geração.
Por isso, a discussão sobre desenvolvimento precisa considerar os dois.
A expansão do crédito
O crédito tornou-se uma ferramenta importante para ampliar o consumo e financiar investimentos.
Mas, novamente:
crédito pode antecipar capacidade de consumo, mas precisa ser acompanhado de renda e planejamento.
Quando o endividamento cresce muito, o efeito pode se inverter.
A inclusão econômica
A ampliação do acesso ao consumo representou uma mudança importante.
Milhões de brasileiros passaram a participar de maneira mais intensa do mercado.
Mas participar do consumo não significa necessariamente participar da propriedade dos meios de produção.
Essa diferença continua fundamental.
O empreendedorismo
O século XXI também ampliou a possibilidade de pequenos negócios.
Uma pessoa poderia começar uma empresa com recursos relativamente menores do que no passado.
A internet reduziu algumas barreiras de entrada.
Uma pequena empresa poderia alcançar consumidores de outras cidades e até de outros países.
Mas a tecnologia não elimina todas as desigualdades
Grandes empresas continuam possuindo vantagens.
Possuem:
capital + dados + infraestrutura + marcas + equipes especializadas.
A tecnologia pode democratizar algumas oportunidades e, simultaneamente, concentrar outras.
As plataformas digitais
Empresas digitais podem conectar milhões de consumidores e trabalhadores.
Isso cria novos mercados.
Mas também levanta novas questões:
quem controla a plataforma?
quem controla os dados?
como o trabalho é remunerado?
como garantir concorrência?
O trabalho também muda
O trabalhador do século XXI pode ser:
empregado tradicional;
autônomo;
empreendedor;
prestador de serviços;
profissional remoto;
trabalhador de plataforma.
As relações econômicas ficaram mais complexas.
A educação torna-se decisiva
Quanto mais complexa a economia, maior a importância da qualificação.
Uma pessoa com educação de qualidade possui maior possibilidade de transitar entre diferentes atividades.
Uma pessoa sem formação adequada pode ficar limitada aos empregos de menor produtividade e remuneração.
A desigualdade também muda de forma
No passado, a desigualdade estava fortemente associada à terra.
Depois, passou a envolver também:
salário + patrimônio + educação + acesso ao crédito.
Agora acrescenta-se:
tecnologia + informação + capacidade digital.
Uma nova divisão econômica
Podemos imaginar duas pessoas vivendo na mesma cidade.
Ambas possuem acesso à internet.
Mas uma possui:
educação de qualidade;
computador;
inglês;
qualificação profissional;
capital para investir;
rede de contatos.
A outra possui apenas um celular e conexão limitada.
Formalmente, ambas estão conectadas.
Economicamente, não possuem as mesmas oportunidades.
A desigualdade digital
A tecnologia pode reduzir distâncias geográficas.
Mas também pode criar novas diferenças entre aqueles que conseguem utilizá-la produtivamente e aqueles que apenas consomem conteúdo.
O desafio passa a ser transformar acesso digital em capacidade econômica.
O Brasil diante do mundo
No século XXI, o país também ganhou maior importância internacional.
Participou de grupos e instituições multilaterais.
Ampliou relações comerciais.
Fortaleceu vínculos com países emergentes.
A economia brasileira tornou-se parte importante das cadeias globais de alimentos, energia e matérias-primas.
Mas ainda existe vulnerabilidade
Quando grande parte das exportações depende de commodities, os preços internacionais podem afetar fortemente as receitas externas.
Se os preços sobem, o país ganha.
Se caem, a situação pode se deteriorar.
Diversificação continua sendo uma questão estratégica.
A indústria diante de um novo mundo
A indústria brasileira passou a enfrentar concorrentes cada vez mais tecnológicos.
China.
Estados Unidos.
Europa.
Coreia do Sul.
Japão.
Outros países asiáticos.
A competição passou a ocorrer não apenas por preço.
Mas também por:
tecnologia + qualidade + escala + inovação.
O desafio tecnológico
A questão central deixou de ser apenas industrializar.
Agora é:
inovar.
Criar novos produtos.
Desenvolver novas tecnologias.
Registrar patentes.
Formar pesquisadores.
Aproximar universidades e empresas.
A universidade
As universidades brasileiras passaram a desempenhar papel cada vez mais importante na pesquisa científica.
Mas existe uma dificuldade histórica:
transformar conhecimento acadêmico em produtos, empresas e tecnologias comercialmente competitivas.
A ponte entre ciência e mercado
Uma economia inovadora precisa aproximar:
universidade + empresa + governo + sociedade.
A pesquisa precisa encontrar caminhos para chegar à produção.
A empresa precisa encontrar conhecimento para resolver problemas.
O Estado pode financiar etapas de maior risco.
O Brasil possui capacidade
O país não parte do zero.
Possui pesquisadores.
Universidades.
Empresas.
Centros tecnológicos.
Instituições de pesquisa.
Mas precisa transformar essa capacidade em maior produtividade e inovação.
A grande mudança
Se a primeira parte desta série começou perguntando quem controla a terra, o capital e os meios de produção, agora a pergunta precisa ser ampliada.
No século XXI:
quem controla a tecnologia e o conhecimento também possui capacidade de influenciar a produção.
A nova forma de patrimônio
Uma empresa de tecnologia pode possuir poucos bens físicos e, ainda assim, valer bilhões.
Seu patrimônio pode estar em:
software + marca + dados + patentes + conhecimento + usuários.
Isso seria difícil de imaginar no Brasil do Império.
Da fazenda à plataforma
A transformação é extraordinária.
No século XIX, uma grande propriedade rural podia representar enorme concentração econômica.
No século XX, uma indústria podia representar essa concentração.
No século XXI, uma plataforma digital pode conectar milhões de pessoas e concentrar enorme poder econômico.
A forma mudou.
A questão estrutural permanece:
quem controla os instrumentos da produção?
Mas existe uma diferença fundamental
Hoje, conhecimento pode ser compartilhado.
Uma pessoa pode aprender pela internet.
Uma pequena empresa pode acessar ferramentas digitais.
Um agricultor pode utilizar informações meteorológicas.
Um estudante pode acessar bibliotecas internacionais.
A tecnologia criou possibilidades de democratização que não existiam em períodos anteriores.
O futuro dependerá do acesso
Por isso, a questão central do século XXI talvez seja:
como transformar conhecimento e tecnologia em instrumentos de mobilidade social?
Se forem acessíveis, podem ampliar oportunidades.
Se ficarem concentrados, podem produzir novas formas de desigualdade.
A longa trajetória
A história que começamos com a terra agora chegou a um ponto muito diferente.
A terra continua importante.
O capital continua importante.
O trabalho continua importante.
A indústria continua importante.
A energia continua importante.
Mas agora existe outro elemento indispensável:
conhecimento.
E a próxima grande transformação
O Brasil entrou no século XXI com novas oportunidades, mas também com novos desafios.
A economia global mudou.
A China tornou-se uma grande potência econômica.
As cadeias produtivas foram reorganizadas.
A tecnologia avançou rapidamente.
O agronegócio ganhou escala.
A economia digital surgiu.
E o país precisaria enfrentar novamente uma questão antiga:
como transformar crescimento econômico em desenvolvimento duradouro?
A resposta nos levará à próxima etapa da história brasileira:
a década de 2010, a crise econômica, a mudança política e a discussão sobre os limites do modelo de desenvolvimento.
Porque, mais uma vez, o Brasil descobriria que crescer, distribuir, investir e manter estabilidade são desafios diferentes e precisam ser conciliados.
Continua.
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