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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Parte XVII - A inteligência artificial e a nova transformação do trabalho


A história econômica brasileira chegou a uma nova fronteira.

Depois da terra, das fábricas, das máquinas, da energia, das finanças e da informática, outro elemento passou a ocupar posição estratégica:

a inteligência artificial.

Ela não surgiu isoladamente.

É resultado de uma longa trajetória de acumulação de conhecimento.

A industrialização criou máquinas capazes de substituir parte do esforço físico.

A informática passou a processar informações em velocidade cada vez maior.

A internet conectou pessoas, empresas e mercados.

A computação em nuvem ampliou a capacidade de armazenamento e processamento.

Agora, a inteligência artificial começa a atuar sobre atividades que antes dependiam diretamente da capacidade humana de analisar informações, reconhecer padrões, produzir textos, imagens, códigos e tomar determinadas decisões.

A transformação, portanto, não é apenas tecnológica.

É também econômica, educacional e social.

Da máquina que substitui o braço à máquina que auxilia a mente

Durante a Revolução Industrial, uma das grandes mudanças foi a substituição de determinadas formas de trabalho manual por máquinas.

Uma máquina podia produzir mais rapidamente do que um trabalhador isolado.

Mas ainda precisava ser operada por pessoas.

Com a informática, outra etapa começou.

Computadores passaram a realizar cálculos, armazenar informações e executar tarefas repetitivas.

A inteligência artificial acrescenta uma nova dimensão.

Sistemas podem identificar padrões em grandes volumes de dados e executar tarefas que anteriormente exigiam determinadas capacidades cognitivas humanas.

A diferença é significativa.

A máquina deixa de atuar apenas sobre a força física.

Passa a atuar também sobre informação e conhecimento.

O conhecimento como capital

No início desta série, vimos como a terra representava uma das principais bases da riqueza.

Depois, o capital industrial ganhou importância.

Máquinas, fábricas e infraestrutura passaram a determinar a capacidade produtiva.

Posteriormente, conhecimento, tecnologia e propriedade intelectual ganharam espaço.

Agora, a inteligência artificial pode ampliar ainda mais o valor econômico do conhecimento.

Uma empresa que possui bons dados, capacidade computacional, profissionais qualificados e tecnologia pode produzir em escala muito maior.

Isso cria uma nova forma de concentração econômica.

Quem possui a tecnologia?

Essa pergunta é fundamental.

A inteligência artificial exige infraestrutura.

São necessários:

computadores + chips + energia + centros de processamento + dados + software + pesquisadores + capital.

Portanto, embora a ferramenta possa parecer acessível ao usuário final, sua estrutura econômica é altamente sofisticada.

Poucas empresas e países possuem capacidade de desenvolver os sistemas mais avançados em escala global.

Surge novamente uma questão que acompanha toda a história econômica:

quem controla os instrumentos de produção possui maior capacidade de influenciar a economia.

A diferença é que o instrumento agora pode ser digital.

A nova infraestrutura

Durante o século XX, países construíram estradas, ferrovias, portos, hidrelétricas e redes de telecomunicações.

No século XXI, uma nova infraestrutura passou a ser indispensável:

internet + centros de dados + redes de comunicação + computação + energia.

Sem essa infraestrutura, a economia digital não consegue funcionar adequadamente.

A infraestrutura física continua necessária.

Mas passou a existir uma infraestrutura digital sobre ela.

Energia e inteligência artificial

Existe uma relação direta entre tecnologia e energia.

Centros de processamento consomem eletricidade.

Quanto maior a capacidade computacional necessária, maior a importância de uma matriz energética confiável.

Isso recoloca o Brasil diante de uma vantagem estratégica.

O país possui grande potencial hidrelétrico, solar, eólico e de biomassa.

Mas possuir energia não basta.

É necessário transformar essa vantagem em infraestrutura, competitividade e capacidade tecnológica.

O Brasil diante da nova revolução

O Brasil possui características que podem favorecer sua participação nessa transformação.

Grande mercado consumidor.

Universidades.

Centros de pesquisa.

Empresas de tecnologia.

Agricultura altamente tecnificada.

Indústria diversificada.

Sistema financeiro desenvolvido.

Matriz energética com forte presença de fontes renováveis.

Mas existem obstáculos.

Formação educacional desigual.

Infraestrutura digital desigual.

Baixa intensidade de pesquisa em determinados setores.

Dependência de componentes tecnológicos importados.

E dificuldade de transformar conhecimento científico em produtos e empresas de grande escala.

A educação muda novamente de papel

Em uma economia baseada na força física, era possível entrar em determinadas atividades com pouca escolarização.

Na economia industrial, tornou-se necessário dominar máquinas e processos.

Na economia digital, tornou-se necessário dominar informação e tecnologia.

Na economia da inteligência artificial, a capacidade de aprender continuamente pode se tornar ainda mais importante.

A educação não pode preparar uma pessoa apenas para uma profissão.

Precisa prepará-la para uma realidade em constante transformação.

A escola diante da inteligência artificial

A escola não perde importância diante da inteligência artificial.

Sua função pode, inclusive, tornar-se ainda mais importante.

Se uma máquina consegue fornecer respostas rapidamente, a educação precisa ensinar o estudante a:

formular perguntas + avaliar informações + reconhecer erros + interpretar contextos + argumentar + criar.

O conhecimento não pode ser reduzido à memorização de respostas.

A capacidade de pensar passa a ser ainda mais valiosa.

Informação não é conhecimento

Essa distinção será fundamental.

A inteligência artificial pode produzir informações.

Mas informação não é necessariamente conhecimento.

Conhecimento exige:

contexto + interpretação + experiência + análise + responsabilidade.

Uma ferramenta pode produzir uma resposta aparentemente correta e ainda assim estar errada.

Por isso, quanto maior a capacidade das máquinas de produzir conteúdo, maior a necessidade humana de desenvolver senso crítico.

O trabalhador diante da IA

A discussão sobre inteligência artificial costuma começar com uma pergunta:

quantos empregos serão eliminados?

A pergunta é importante.

Mas talvez seja insuficiente.

Historicamente, novas tecnologias também criaram novas atividades.

A máquina de escrever modificou o trabalho administrativo.

O computador eliminou algumas funções e criou outras.

A internet transformou profissões inteiras.

A inteligência artificial provavelmente seguirá caminho semelhante.

Algumas tarefas serão automatizadas.

Outras serão transformadas.

Novas profissões surgirão.

E muitas ocupações passarão a utilizar IA como ferramenta.

O trabalho humano não desaparece automaticamente

Uma tecnologia pode executar uma tarefa sem necessariamente substituir toda a profissão.

Um médico pode utilizar inteligência artificial para analisar informações.

Um professor pode utilizá-la para preparar materiais.

Um agricultor pode utilizá-la para analisar dados de produção.

Um engenheiro pode utilizá-la para simular projetos.

Um advogado pode utilizá-la para organizar documentos.

O trabalho pode mudar sem desaparecer.

A questão será descobrir quais capacidades humanas permanecem indispensáveis.

Criatividade e julgamento

Entre essas capacidades estão:

criatividade + julgamento + responsabilidade + empatia + capacidade de negociação + compreensão social.

Uma máquina pode produzir inúmeras possibilidades.

Mas alguém precisa decidir qual delas é adequada.

Esse processo envolve valores.

E valores não podem ser tratados apenas como cálculos.

A agricultura do futuro

No campo, a inteligência artificial poderá ampliar uma transformação que já começou.

Sensores podem acompanhar condições do solo.

Satélites podem monitorar áreas agrícolas.

Sistemas podem identificar pragas.

Máquinas podem ajustar a aplicação de insumos.

Algoritmos podem analisar clima e produtividade.

A agricultura poderá tornar-se cada vez mais precisa.

Isso pode reduzir desperdícios e aumentar produtividade.

Mas existe uma condição:

o produtor precisa ter acesso à tecnologia.

O pequeno produtor

Essa questão é especialmente importante para a agricultura familiar.

Se somente grandes propriedades tiverem acesso às tecnologias mais avançadas, a inovação poderá aumentar diferenças existentes.

Mas se cooperativas, assistência técnica, políticas de crédito e serviços compartilhados ampliarem esse acesso, a tecnologia poderá funcionar de maneira diferente.

Uma pequena propriedade não precisa possuir individualmente todas as máquinas e sistemas.

Pode ter acesso a eles por meio de organizações coletivas e serviços especializados.

A inteligência artificial e o empreendedor

A tecnologia também pode reduzir algumas barreiras de entrada.

Uma pequena empresa pode utilizar ferramentas digitais para:

criar campanhas + analisar mercados + organizar documentos + atender clientes + desenvolver produtos + automatizar tarefas.

Isso não elimina a necessidade de capital.

Mas pode reduzir determinados custos de operação.

O conhecimento tecnológico passa a funcionar como uma espécie de multiplicador de produtividade.

O risco da concentração

Existe, entretanto, outro lado.

Se poucas empresas controlarem:

dados + modelos de inteligência artificial + infraestrutura + capacidade computacional,

elas poderão acumular enorme poder econômico.

Isso pode produzir uma concentração diferente daquela observada no passado.

Não será necessariamente concentração de terra.

Nem apenas concentração de fábricas.

Será concentração de capacidade tecnológica.

Da propriedade da terra à propriedade do conhecimento

Podemos visualizar novamente a trajetória:

terra → fábrica → capital financeiro → tecnologia → dados → inteligência artificial.

Cada etapa não elimina completamente a anterior.

A terra continua importante.

As fábricas continuam existindo.

O capital financeiro continua essencial.

Mas novos instrumentos de produção são acrescentados.

Essa é uma das características do capitalismo:

ele transforma continuamente os meios pelos quais a riqueza é produzida.

O capitalismo muda sem desaparecer

Essa observação é importante para a tese desta série.

O capitalismo brasileiro do século XXI não é igual ao capitalismo mercantil da época colonial.

Não é igual ao capitalismo agrário do Império.

Não é igual ao capitalismo industrial do século XX.

As instituições, tecnologias, mercados e relações de trabalho mudaram.

Mas permanece a lógica fundamental da propriedade, do investimento, da produção e da acumulação.

O sistema se transforma para incorporar novos meios de produção.

A questão da propriedade intelectual

No passado, uma grande propriedade rural podia representar patrimônio transmitido entre gerações.

Depois, uma fábrica ou empresa podia cumprir função semelhante.

Hoje, uma tecnologia, uma patente, uma marca ou uma plataforma digital também pode representar enorme patrimônio.

Isso muda a própria ideia de riqueza.

Uma empresa pode valer bilhões sem possuir grandes extensões de terra.

Seu principal patrimônio pode estar em:

software + marca + dados + tecnologia + propriedade intelectual + rede de usuários.

O patrimônio invisível

Essa é uma das grandes diferenças do século XXI.

Uma parte crescente do patrimônio pode ser invisível.

Não está necessariamente em um imóvel.

Não está necessariamente em uma máquina.

Pode estar em um código.

Em uma patente.

Em uma marca.

Em uma base de dados.

Em um algoritmo.

Em uma plataforma.

Isso torna a concentração econômica mais difícil de perceber.

A questão democrática

Quanto maior a importância da tecnologia na economia, maior a necessidade de discutir seu impacto sobre a democracia.

Quem controla plataformas pode influenciar informações.

Quem controla dados pode compreender comportamentos.

Quem controla tecnologias estratégicas pode possuir vantagens econômicas e geopolíticas.

Por isso, a discussão tecnológica também é uma discussão sobre poder.

Soberania tecnológica

No século XIX, soberania econômica estava relacionada ao controle de recursos e infraestrutura.

No século XX, energia e indústria passaram a ocupar posição estratégica.

No século XXI, acrescentamos:

chips + software + dados + inteligência artificial + infraestrutura digital.

Um país que depende completamente de tecnologias essenciais produzidas no exterior pode ficar vulnerável.

Por isso, soberania tecnológica começa a fazer parte da estratégia nacional.

O papel do Estado muda novamente

O Estado não precisa desenvolver sozinho todas as tecnologias.

Mas pode:

financiar pesquisa + formar profissionais + criar infraestrutura + estimular empresas + regular mercados + proteger direitos.

Mais uma vez, aparece a ideia de Estado indutor.

Não necessariamente como proprietário de toda a economia.

Mas como criador das condições para que a economia desenvolva capacidades estratégicas.

Universidades e empresas

Uma das grandes dificuldades brasileiras é aproximar:

universidade + ciência + empresa + mercado.

Produzir conhecimento científico é fundamental.

Mas também é necessário transformar parte desse conhecimento em:

tecnologias + produtos + empresas + empregos + exportações.

Essa conexão pode aumentar a capacidade de inovação do país.

A nova corrida internacional

Países passaram a disputar não apenas mercados.

Disputam também:

talentos + pesquisadores + chips + energia + centros de dados + empresas de tecnologia.

A inteligência artificial tornou-se uma questão geopolítica.

As maiores economias querem garantir capacidade própria.

O Brasil precisará decidir como participar dessa transformação.

A oportunidade brasileira

O país não precisa necessariamente competir em todas as áreas.

Pode identificar setores nos quais possui vantagens.

Agricultura.

Energia.

Biodiversidade.

Saúde.

Mineração.

Indústria.

Serviços financeiros.

Clima.

Logística.

A inteligência artificial pode ser aplicada a esses setores para aumentar produtividade e criar novas soluções.

Conhecimento aplicado ao território

Essa pode ser uma das maiores oportunidades brasileiras.

O país possui problemas complexos.

Território continental.

Desigualdades regionais.

Diversidade climática.

Grandes cidades.

Áreas rurais extensas.

Florestas.

Litoral.

Recursos hídricos.

Esses desafios também podem gerar oportunidades para inovação.

A questão ambiental

A tecnologia poderá contribuir para monitorar florestas, prever eventos climáticos, melhorar o uso da água e aumentar a eficiência agrícola.

Mas também pode aumentar o consumo de energia e recursos.

Mais uma vez, desenvolvimento e sustentabilidade precisam caminhar juntos.

A tecnologia não é automaticamente sustentável.

Depende de como é utilizada.

A nova desigualdade pode começar na infância

Existe aqui uma ligação importante com educação.

Uma criança que cresce com acesso à leitura, ciência, tecnologia, arte, natureza e estímulos intelectuais possui condições diferentes daquela que cresce sem acesso a esses recursos.

Isso não significa determinar o futuro de cada indivíduo.

Significa reconhecer que oportunidades são construídas desde cedo.

A educação pode funcionar como uma das principais formas de democratizar o acesso ao novo capital:

o conhecimento.

A grande transformação da nossa tese

No início desta série, perguntamos:

quem controla a terra, o capital e os meios de produção?

Agora precisamos ampliar a pergunta:

quem controla os meios de produzir conhecimento, tecnologia e inovação?

Essa é a questão econômica do século XXI.

O futuro não está determinado

A inteligência artificial não define sozinha o futuro.

As escolhas políticas, econômicas e sociais continuarão sendo humanas.

Podemos utilizar tecnologia para concentrar ainda mais riqueza.

Ou podemos utilizá-la para ampliar produtividade e oportunidades.

Podemos criar dependência tecnológica.

Ou desenvolver capacidade nacional.

Podemos substituir trabalhadores sem criar novas oportunidades.

Ou utilizar a tecnologia para aumentar a produtividade e qualificar o trabalho.

A tecnologia abre possibilidades.

A sociedade decide como utilizá-las.

A história chega novamente ao ponto de partida

A pergunta inicial era sobre propriedade.

Primeiro, a propriedade da terra.

Depois, a propriedade das fábricas e do capital.

Mais tarde, a propriedade intelectual e tecnológica.

Agora, a propriedade e o controle dos dados, da infraestrutura digital e da inteligência artificial.

A forma mudou.

O problema econômico permanece:

como garantir que a transformação dos meios de produção também amplie as oportunidades de participação?

Essa pergunta nos conduz à próxima etapa.

Porque existe uma transformação que atravessa todas as anteriores:

a formação do ser humano.

Se a economia do futuro depender cada vez mais de conhecimento, tecnologia e capacidade de adaptação, a educação deixará de ser apenas uma política social.

Ela se tornará uma das principais infraestruturas econômicas do país.

E é justamente aí que a nossa história volta à infância, à escola, à ciência e à capacidade de formar as pessoas que irão construir o próximo ciclo brasileiro.

Continua.

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