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"Inspirado em Heidegger, Brincadeira Sustentável (por Renata Bravo) não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser digerida, vivida e incorporada."

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Parte XIII - Educação, desenvolvimento e a disputa pelo futuro

 

A história econômica brasileira chegou a um ponto em que a terra, o capital, a indústria e a infraestrutura já não eram suficientes para explicar as possibilidades de desenvolvimento.

Um novo elemento havia adquirido importância estratégica:

a educação.

Não apenas como direito social.

Mas como instrumento de transformação econômica.

A industrialização precisava de trabalhadores qualificados.

A ciência precisava de pesquisadores.

A agricultura moderna precisava de conhecimento técnico.

As empresas precisavam de profissionais preparados.

E uma sociedade democrática precisava de cidadãos capazes de participar de suas decisões.

A educação começava, portanto, a ocupar um lugar diferente na história.

Da terra à escola

Durante grande parte da história brasileira, a riqueza estava associada à propriedade da terra.

Depois, a industrialização acrescentou máquinas, fábricas e infraestrutura.

Mas uma máquina pode ser comprada.

Uma estrada pode ser construída.

Uma fábrica pode ser instalada.

O conhecimento necessário para utilizar, aperfeiçoar e criar novas tecnologias precisa ser formado continuamente.

Por isso:

a educação passou a ser uma espécie de infraestrutura invisível da economia.

Sem ela, os investimentos físicos encontram limites.

A escola e a mobilidade social

A educação possui uma característica especial.

Uma estrada pode ligar duas cidades.

Uma usina pode gerar energia.

Uma fábrica pode produzir mercadorias.

Mas uma escola pode modificar a trajetória de uma pessoa inteira.

Uma criança que aprende a ler amplia suas possibilidades.

Uma criança que desenvolve raciocínio matemático pode compreender novas áreas do conhecimento.

Um jovem que recebe formação técnica pode acessar uma profissão qualificada.

Um estudante que chega à universidade pode participar da produção científica.

A educação transforma capacidade humana em possibilidade econômica.

O problema histórico brasileiro

O Brasil avançou economicamente sem conseguir oferecer, durante grande parte de sua história, educação de qualidade para toda a população.

Essa contradição acompanhou a formação nacional.

Uma economia podia crescer.

A produção podia aumentar.

As cidades podiam se modernizar.

Mas milhões de pessoas continuavam tendo acesso limitado à educação.

Isso produzia uma consequência econômica:

o ponto de partida continuava determinando, em grande medida, as oportunidades futuras.

A educação como projeto de desenvolvimento

No século XX, alguns políticos e educadores passaram a defender uma mudança de perspectiva.

A escola não deveria ser apenas um lugar onde a criança aprendia conteúdos básicos.

Deveria ser também espaço de formação humana, cultural e social.

Entre os políticos brasileiros que colocaram a educação no centro de seu projeto estava Leonel Brizola.

Sua trajetória ajuda a compreender uma fase importante da história brasileira.

Brizola e a ideia de escola pública

Brizola nasceu em 1922, no Rio Grande do Sul.

Sua trajetória política esteve ligada ao trabalhismo e a uma visão nacional-desenvolvimentista.

Mais tarde, como governador do Rio de Janeiro, retomou uma ideia que já havia defendido no Rio Grande do Sul:

a construção de uma rede pública de educação em larga escala.

Foi nesse contexto que surgiram os Centros Integrados de Educação Pública, os CIEPs.

A proposta era oferecer uma escola de tempo ampliado, integrando educação, alimentação, atividades culturais e outras formas de atendimento à criança.

A ideia ultrapassava a sala de aula.

A escola deveria fazer parte de uma política mais ampla de proteção e desenvolvimento da infância.

Darcy Ribeiro

O projeto dos CIEPs esteve fortemente associado ao educador e antropólogo Darcy Ribeiro.

Darcy defendia uma concepção de educação pública de tempo integral e entendia que a escola precisava enfrentar desigualdades históricas.

Para ele, não bastava oferecer formalmente uma vaga.

Era necessário criar condições para que a criança permanecesse na escola e tivesse acesso a uma formação mais ampla.

Essa visão aproximava educação e desenvolvimento.

A criança no centro

A ideia era simples em sua essência:

uma criança que passa grande parte do dia em uma escola estruturada pode ter acesso a:

alimentação + educação + cultura + esporte + convivência + acompanhamento.

Isso não elimina as desigualdades econômicas.

Mas pode reduzir algumas diferenças de oportunidade.

E aqui a educação volta a se conectar diretamente com a nossa tese inicial.

Capital humano

A economia moderna passou a utilizar um conceito importante:

capital humano.

Não significa transformar pessoas em mercadorias.

Significa reconhecer que conhecimentos, habilidades e capacidades adquiridas ao longo da vida aumentam a capacidade produtiva de uma sociedade.

Um trabalhador qualificado pode operar máquinas mais complexas.

Um agricultor capacitado pode utilizar tecnologias de precisão.

Um pesquisador pode desenvolver novas soluções.

Um empreendedor preparado pode administrar melhor uma empresa.

A educação aumenta a capacidade de produzir.

Mas educação é mais do que produtividade

Reduzir a educação apenas à economia seria insuficiente.

Educação também produz:

autonomia + cultura + pensamento crítico + participação social + cidadania.

Uma democracia depende de cidadãos capazes de compreender o mundo em que vivem.

Por isso, educação possui simultaneamente uma dimensão:

econômica + social + cultural + política.

Brizola e a educação como prioridade

O projeto político de Brizola colocava a escola pública em posição estratégica.

A ideia era enfrentar a pobreza não apenas depois que ela aparecesse, mas atuar sobre uma de suas raízes:

a desigualdade de oportunidades na infância.

Essa perspectiva ajuda a compreender por que a educação aparece repetidamente na história dos projetos de desenvolvimento.

A escola como investimento de longo prazo

Uma estrada pode ser inaugurada em alguns anos.

Uma hidrelétrica pode começar a produzir energia depois de concluída.

Uma indústria pode entrar em operação.

Mas os resultados de uma política educacional aparecem lentamente.

Uma criança que entra na escola hoje poderá tornar-se profissional qualificado muitos anos depois.

Isso cria uma dificuldade política.

Governos trabalham com ciclos relativamente curtos.

Educação exige décadas.

Por isso, projetos educacionais precisam possuir continuidade.

A continuidade como desafio

Um país pode construir milhares de escolas.

Mas, se não houver professores preparados, gestão eficiente, manutenção, materiais e acompanhamento pedagógico, o investimento físico não será suficiente.

A qualidade da educação depende de um sistema.

escola + professor + gestão + currículo + infraestrutura + família + comunidade.

Não existe uma única solução.

A relação com a economia

A indústria brasileira precisava de trabalhadores.

A agricultura moderna precisava de técnicos.

As empresas de tecnologia precisavam de profissionais.

A expansão dos serviços exigia novas competências.

O Brasil entrava progressivamente em uma economia baseada no conhecimento.

E isso fazia da educação uma questão econômica estratégica.

O ensino técnico

A formação técnica possui importância especial.

Nem todos seguirão a universidade.

Uma economia precisa de:

técnicos + engenheiros + agricultores especializados + profissionais de saúde + programadores + eletricistas + mecânicos + gestores + pesquisadores + empreendedores.

Valorizar diferentes caminhos profissionais significa ampliar as possibilidades de participação econômica.

Educação e indústria

A industrialização brasileira mostrou uma relação direta entre escola e produção.

Quanto mais complexa a indústria, maior a necessidade de trabalhadores qualificados.

A indústria automobilística, por exemplo, depende de uma cadeia enorme de profissionais.

Projeto.

Engenharia.

Produção.

Logística.

Manutenção.

Tecnologia.

Gestão.

Vendas.

A indústria moderna é uma rede de conhecimento.

Educação e agricultura

O mesmo acontece no campo.

O agricultor contemporâneo precisa compreender:

solo.

clima.

sementes.

máquinas.

mercados.

financiamento.

logística.

tecnologia.

legislação ambiental.

Gestão.

A imagem do agricultor como alguém que depende apenas do trabalho físico já não corresponde à realidade de grande parte da agricultura moderna.

O campo também se tornou uma economia do conhecimento.

Educação e empreendedorismo

O empreendedorismo também depende de conhecimento.

Abrir uma empresa não significa apenas ter uma boa ideia.

É necessário conhecer:

custos + mercado + tributação + gestão + crédito + tecnologia + legislação.

Quanto maior a capacidade de planejamento, maior a possibilidade de sobrevivência do negócio.

Por isso, educação financeira e formação empreendedora podem ampliar oportunidades.

A escola pública e a igualdade de oportunidades

Aqui encontramos uma das questões mais delicadas.

Se uma criança de família rica pode estudar em uma escola de excelente qualidade, aprender idiomas, utilizar tecnologia e participar de atividades culturais, enquanto outra criança não possui sequer condições adequadas de permanência na escola, ambas poderão possuir os mesmos direitos formais, mas não terão as mesmas oportunidades concretas.

A escola pública pode funcionar como um dos mecanismos capazes de reduzir essa diferença.

Não para tornar todos iguais.

Mas para ampliar as possibilidades de cada indivíduo.

O patrimônio invisível

Existe ainda outro tipo de patrimônio.

Não aparece no registro de imóveis.

Não está em uma conta bancária.

Não pode ser vendido diretamente.

É o conhecimento.

Uma pessoa pode perder um emprego.

Pode mudar de cidade.

Pode começar novamente.

Mas o conhecimento adquirido acompanha sua trajetória.

Por isso, educação pode ser compreendida como uma forma de patrimônio pessoal.

Da propriedade herdada ao conhecimento adquirido

Aqui ocorre uma mudança profunda em relação ao Brasil colonial.

No passado, nascer em uma família proprietária significava receber um patrimônio material que poderia determinar boa parte da trajetória de uma pessoa.

Na sociedade contemporânea, o conhecimento adquirido também pode modificar o ponto de partida.

Não elimina a importância do patrimônio familiar.

Mas cria uma possibilidade adicional de mobilidade.

Uma pessoa pode construir parte de sua própria capacidade econômica.

Mas o conhecimento também pode se concentrar

Existe, entretanto, uma nova contradição.

Se o acesso à educação de qualidade é desigual, o conhecimento também pode se transformar em mecanismo de concentração.

As melhores oportunidades podem ficar restritas a quem possui melhores condições econômicas.

Por isso, a economia do conhecimento não elimina automaticamente a desigualdade.

Ela pode até ampliá-la se o acesso ao conhecimento avançado permanecer concentrado.

A nova questão agrária

A história da terra nos ensinou que a concentração de um meio de produção pode produzir desigualdade.

Na economia contemporânea, algo semelhante pode ocorrer com o conhecimento.

Não significa comparar terra e conhecimento como se fossem a mesma coisa.

São recursos completamente diferentes.

Mas existe uma analogia estrutural:

quem possui acesso privilegiado a um recurso estratégico possui maior capacidade de produzir riqueza.

Essa é uma das grandes questões do século XXI.

O papel do Estado

Mais uma vez, surge a discussão sobre o Estado.

Deve o Estado financiar educação pública?

Sim.

Mas isso não significa que a iniciativa privada não tenha papel.

Escolas privadas, universidades, empresas, fundações, institutos e organizações sociais também participam do ecossistema educacional.

O desafio está em construir um sistema no qual:

o Estado garanta direitos e condições básicas + a sociedade produza inovação + instituições diferentes possam colaborar.

O desenvolvimento regional

A educação também possui uma dimensão territorial.

Uma região que possui boas escolas, universidades, centros de pesquisa e formação profissional tende a atrair empresas e investimentos.

Uma região sem educação de qualidade pode perder população qualificada.

Isso cria um ciclo:

educação → qualificação → empresas → empregos → renda → novos investimentos.

Mas também pode ocorrer o contrário:

baixa educação → baixa qualificação → poucos investimentos → poucos empregos qualificados → saída de talentos.

O Brasil e suas diferenças regionais

O país possui dimensões continentais.

As condições educacionais e econômicas variam significativamente entre regiões.

Por isso, uma política nacional precisa reconhecer diferenças locais.

A escola da Amazônia enfrenta desafios diferentes da escola de uma grande metrópole.

Uma escola rural possui necessidades diferentes de uma escola urbana.

A educação precisa combinar princípios nacionais com soluções adequadas às realidades locais.

A cultura também educa

Existe ainda uma dimensão frequentemente esquecida.

A criança não aprende apenas dentro da sala de aula.

Aprende com:

a família + a comunidade + a natureza + a cultura + a arte + o brincar.

A formação humana é mais ampla do que o currículo formal.

Por isso, políticas de educação e cultura podem se complementar.

O brincar como parte da formação

O brincar desenvolve criatividade, linguagem, negociação, imaginação e resolução de problemas.

Uma criança que constrói uma brincadeira também está aprendendo a criar regras.

Quando brinca em grupo, aprende a negociar.

Quando constrói um objeto, experimenta materiais.

Quando explora a natureza, desenvolve percepção.

O brincar pode ser entendido como uma das formas pelas quais a criança constrói conhecimento sobre o mundo.

Educação para uma economia diferente

Se o futuro exige criatividade, colaboração, capacidade de resolver problemas e adaptação, a educação não pode preparar apenas para repetir procedimentos.

Precisa também preparar para:

pensar + criar + investigar + colaborar + adaptar-se.

Essa mudança é especialmente importante diante da inteligência artificial.

Máquinas podem executar determinadas tarefas repetitivas.

O diferencial humano poderá estar cada vez mais relacionado à capacidade de formular perguntas, compreender contextos, criar soluções e tomar decisões responsáveis.

A questão volta ao início

Começamos esta série falando sobre terra, capital e meios de produção.

Agora podemos acrescentar uma nova dimensão:

a capacidade de produzir conhecimento.

Porque quem possui conhecimento pode criar novas tecnologias.

Quem cria tecnologias pode aumentar produtividade.

Quem aumenta produtividade pode gerar riqueza.

Quem gera riqueza pode acumular patrimônio.

E quem acumula patrimônio possui maior capacidade de investir novamente.

Forma-se um ciclo.

O ciclo da oportunidade

Uma sociedade pode tentar quebrar esse ciclo da concentração criando outro:

educação → qualificação → trabalho produtivo → renda → patrimônio → investimento → novas oportunidades.

Esse segundo ciclo é fundamental para uma sociedade que deseja ampliar a mobilidade social.

Não significa eliminar a propriedade privada.

Significa aumentar a quantidade de pessoas capazes de construir patrimônio.

Brizola, portanto, entra na nossa história por uma razão específica

Não apenas por sua trajetória política.

Nem apenas pelas disputas ideológicas que protagonizou.

Ele representa uma determinada visão de desenvolvimento:

a educação pública como instrumento estratégico de transformação social.

Essa visão pode ser discutida, criticada ou aperfeiçoada.

Mas pertence a uma tradição importante do pensamento brasileiro que compreende que desenvolvimento não depende somente de estradas, fábricas, energia e capital.

Depende também de pessoas preparadas para utilizar e ampliar tudo isso.

E existe uma outra dimensão

A história brasileira também produziu personagens cuja relação com o poder não nasceu da propriedade, da indústria ou do Estado.

Alguns surgiram da exclusão.

Outros da resistência.

Outros da cultura popular.

Outros da luta política.

É nesse ponto que uma comparação histórica precisa ser feita com cuidado.

Lampião e Brizola pertencem a mundos completamente diferentes.

Um foi um personagem do sertão nordestino marcado pela violência, pelo cangaço e pelas condições sociais de seu tempo.

O outro foi um político do século XX, inserido nas instituições e nas disputas democráticas.

Não existe equivalência histórica entre eles.

Mas ambos podem ser estudados como personagens que, em contextos completamente distintos, expressaram conflitos relacionados a poder, território, autoridade, desigualdade e resistência.

E essa comparação nos levará a outro capítulo da história brasileira:

o sertão, o coronelismo, o cangaço e as formas de poder que existiram fora dos grandes centros urbanos.

Porque, para compreender completamente a formação das elites e das desigualdades brasileiras, ainda precisamos olhar para aqueles que viveram longe dos palácios, das fábricas e dos grandes centros financeiros.

Continua.

Parte XII - Terra, capital, trabalho e poder: a longa formação das elites brasileiras

 

Depois de percorrer a formação econômica do Brasil, chegamos a uma questão mais profunda.

Se a economia mudou tantas vezes, por que determinadas desigualdades e formas de concentração continuam aparecendo?

A resposta não está em uma única instituição, em um único grupo social ou em um único período histórico.

Ela está na formação gradual das estruturas de poder.

Para compreender o Brasil contemporâneo, é necessário voltar novamente ao passado — mas agora olhando não apenas para a economia, e sim para quem acumulou patrimônio, quem controlou os meios de produção e quem conseguiu transformar riqueza em influência política.

A terra como ponto de partida

Na sociedade colonial, a terra era um dos principais instrumentos de riqueza.

As grandes propriedades estavam ligadas à produção para o mercado externo e à utilização de trabalho escravizado.

A propriedade rural não significava apenas patrimônio.

Significava capacidade produtiva.

Controle sobre trabalhadores.

Influência local.

Acesso a redes comerciais.

E, muitas vezes, proximidade com o poder político.

Assim, a concentração da terra produziu uma concentração que ultrapassava a dimensão econômica.

Mas a elite brasileira não permaneceu rural

Esse ponto é fundamental.

A elite econômica brasileira se transformou junto com a economia.

Quando o comércio ganhou importância, comerciantes enriqueceram.

Quando o café se expandiu, cafeicultores acumularam capital.

Quando a industrialização avançou, surgiram empresários industriais.

Quando o sistema financeiro cresceu, bancos e instituições financeiras ganharam influência.

Quando a economia se tornou tecnológica, novas empresas passaram a concentrar capital e conhecimento.

Portanto, não existe uma única elite econômica brasileira permanente.

Existem elites que se transformam conforme os instrumentos de produção de riqueza também se transformam.

O café e a formação de capital

No século XIX, o café tornou-se um dos principais motores da economia brasileira.

A riqueza gerada pelas exportações permitiu acumulação de capital.

Parte desses recursos foi utilizada para ampliar a própria produção agrícola.

Mas outra parte começou a financiar atividades urbanas.

Comércio.

Ferrovias.

Bancos.

Indústrias.

Serviços.

Infraestrutura.

O café, portanto, não produziu apenas riqueza rural.

Também contribuiu para a formação de capital que ajudaria a financiar a modernização econômica.

Barão de Mauá e a mudança de perspectiva

É nesse contexto que surge uma figura importante para compreender a transição brasileira:

Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá.

Mauá representa uma tentativa de acelerar a modernização econômica por meio de investimentos privados, indústria, bancos, transporte e infraestrutura.

Sua trajetória demonstra que o Brasil do século XIX já possuía agentes econômicos interessados em ir além da economia predominantemente agrária.

O país começava a experimentar outra possibilidade:

capital privado investindo na modernização da infraestrutura e da produção.

O conflito entre modelos

A trajetória de Mauá também revela uma questão que atravessaria a história brasileira.

Que tipo de economia o país deveria construir?

Uma economia predominantemente agroexportadora?

Uma economia industrial?

Uma economia baseada em grandes investimentos estatais?

Uma economia impulsionada pelo capital privado?

Na prática, o Brasil acabou combinando diferentes modelos em diferentes períodos.

E essa combinação continua até hoje.

O Império e a modernização

O período imperial não pode ser compreendido apenas pela existência da escravidão e da grande propriedade.

Foi também um período de transformação.

Expansão ferroviária.

Modernização dos portos.

Crescimento urbano.

Expansão do comércio.

Desenvolvimento de instituições financeiras.

Ampliação das atividades industriais.

O Brasil ainda era profundamente agrário, mas já apresentava elementos de uma economia capitalista mais complexa.

A Guerra do Paraguai e o Estado brasileiro

A Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870, também teve consequências econômicas e políticas.

O conflito exigiu enorme mobilização de recursos.

Fortaleceu o Exército.

Aumentou despesas públicas.

Produziu mudanças na relação entre militares e governo imperial.

Nas décadas seguintes, os militares teriam participação cada vez maior na vida política.

A formação do Estado brasileiro não ocorreu apenas por decisões econômicas.

Também foi influenciada por conflitos, instituições e disputas pelo poder.

A crise do Império

Na segunda metade do século XIX, várias forças começaram a pressionar a estrutura imperial.

O movimento abolicionista crescia.

Setores militares estavam insatisfeitos.

Novos grupos econômicos ganhavam importância.

As relações entre Igreja e Estado enfrentavam conflitos.

A escravidão estava cada vez mais incompatível com as transformações econômicas e políticas do mundo.

Em 1888, veio a Abolição.

No ano seguinte, a Monarquia chegou ao fim.

A República não começou do zero

A Proclamação da República, em 1889, não eliminou as estruturas econômicas herdadas do Império.

A grande propriedade continuou existindo.

As elites econômicas continuaram influentes.

A economia exportadora continuou importante.

O café continuou sendo fundamental.

A mudança política foi profunda.

Mas a estrutura econômica passou por transformação gradual.

Essa é uma das características mais importantes da história brasileira:

mudanças políticas podem ocorrer mais rapidamente do que mudanças econômicas e sociais.

O coronelismo

Na Primeira República, essa realidade ficou evidente através do coronelismo.

O coronelismo não era simplesmente a continuação literal do sistema colonial.

Era um fenômeno republicano.

Mas utilizava redes de poder local construídas em uma sociedade onde a propriedade rural, o controle econômico e a dependência social tinham grande peso.

O coronel podia influenciar eleições.

Controlar relações locais.

Intermediar acesso a autoridades.

Organizar apoio político.

A economia transformava-se em poder político.

A industrialização muda novamente o equilíbrio

A partir do século XX, principalmente após a década de 1930, o Brasil começou a acelerar sua industrialização.

O poder econômico passou a se deslocar parcialmente do campo para as cidades.

Novos empresários surgiram.

O trabalhador urbano ganhou importância.

Sindicatos cresceram.

O Estado passou a intervir mais diretamente na economia.

A questão social entrou definitivamente na agenda nacional.

Getúlio Vargas

É impossível compreender essa transformação sem mencionar Getúlio Vargas.

Seu governo representou uma mudança profunda na relação entre Estado, trabalho e economia.

A industrialização passou a ser tratada como projeto nacional.

O Estado assumiu papel mais ativo.

Empresas estatais foram criadas.

A legislação trabalhista foi ampliada.

O mercado interno ganhou importância.

A economia brasileira começou a deixar para trás, de forma mais acelerada, sua dependência exclusiva da exportação agrícola.

A legislação trabalhista

A legislação trabalhista trouxe direitos importantes para os trabalhadores urbanos.

Jornada de trabalho.

Férias.

Proteção trabalhista.

Organização sindical dentro de um modelo fortemente regulado pelo Estado.

A criação da CLT, em 1943, consolidou parte importante dessa estrutura.

Mas também criou uma divisão histórica.

O trabalhador urbano formal passou a ter uma proteção muito maior do que grande parte dos trabalhadores rurais e informais.

Essa diferença teria consequências durante décadas.

O trabalhador entra no centro da economia

A industrialização criou uma nova relação de forças.

Antes, a discussão econômica estava fortemente concentrada na terra e na exportação.

Agora era necessário discutir:

salário + emprego + direitos + produtividade + indústria + mercado interno.

O trabalhador passou a ser simultaneamente:

força produtiva + consumidor + cidadão.

Isso modificou profundamente a política brasileira.

O Estado como construtor

A industrialização também mostrou que determinados investimentos exigiam volumes de capital muito grandes.

Energia.

Siderurgia.

Petróleo.

Transportes.

Telecomunicações.

Infraestrutura.

Em diversos casos, o Estado passou a participar diretamente.

Foi assim que surgiram empresas e instituições estratégicas para o desenvolvimento nacional.

A ideia era utilizar o Estado para criar as condições que permitiriam o crescimento da economia privada.

Petrobras

Em 1953, foi criada a Petrobras.

A empresa tornou-se símbolo da estratégia brasileira de controle e desenvolvimento da indústria do petróleo.

Décadas depois, sua capacidade tecnológica seria fundamental para a exploração do pré-sal.

Aqui aparece uma continuidade interessante:

uma decisão institucional tomada no século XX criou capacidades tecnológicas que seriam utilizadas no século XXI.

Isso demonstra como políticas de desenvolvimento podem produzir efeitos muito além do período em que são criadas.

Juscelino Kubitschek

Nos anos 1950, Juscelino Kubitschek acelerou o processo de industrialização.

Seu governo ficou associado ao Plano de Metas e ao objetivo de desenvolver:

energia + transporte + indústria + alimentação + educação.

A construção de Brasília simbolizou essa visão de integração territorial e modernização.

O Estado investia em infraestrutura.

O capital estrangeiro participava da industrialização.

Empresas nacionais cresciam.

O mercado interno se expandia.

O Brasil entrava definitivamente na sociedade industrial.

A indústria cria novas elites

Com a industrialização, a elite econômica brasileira tornou-se ainda mais diversificada.

Empresários industriais.

Banqueiros.

Comerciantes.

Construtores.

Investidores.

Executivos.

Produtores rurais modernizados.

O poder econômico deixou de estar concentrado apenas na propriedade rural.

Essa transformação é fundamental para compreender o Brasil contemporâneo.

Do coronel ao empresário

O antigo poder rural não desapareceu de uma vez.

Mas passou a conviver com novas formas de poder.

O empresário industrial.

O banqueiro.

O grande comerciante.

O proprietário urbano.

O investidor.

O dirigente empresarial.

O profissional altamente qualificado.

O poder econômico tornou-se mais urbano e diversificado.

A ditadura e o crescimento econômico

Depois de 1964, o Brasil entrou em um período de regime militar.

O Estado ampliou sua capacidade de planejamento e investimento.

Grandes projetos foram executados.

Rodovias.

Hidrelétricas.

Telecomunicações.

Indústrias de base.

Infraestrutura.

Durante parte desse período, o país apresentou forte crescimento econômico, especialmente no chamado Milagre Econômico.

Mas o crescimento não eliminou as desigualdades.

Ao contrário, diferentes grupos foram beneficiados de maneiras muito distintas.

Crescimento e concentração

Essa experiência mostra novamente que:

crescimento econômico não significa automaticamente distribuição equilibrada da riqueza.

É possível aumentar o tamanho da economia e, ao mesmo tempo, manter grandes diferenças de renda e patrimônio.

Essa distinção é essencial.

Um país pode ficar mais rico sem que todos fiquem ricos na mesma proporção.

A redemocratização

Com a redemocratização, o Brasil precisou reconstruir suas instituições políticas e reorganizar sua economia.

A Constituição de 1988 estabeleceu novos direitos e uma nova relação entre Estado e sociedade.

Depois vieram a estabilização monetária, a abertura econômica, as privatizações e a integração crescente ao mercado internacional.

O país entrava em uma nova etapa.

As novas elites econômicas

No século XXI, o poder econômico tornou-se ainda mais diversificado.

Grandes produtores rurais.

Empresas industriais.

Bancos.

Fundos de investimento.

Empresas de tecnologia.

Plataformas digitais.

Grandes redes varejistas.

Empresas de energia.

Mineradoras.

Empresas de infraestrutura.

O Brasil passou a possuir uma estrutura econômica muito mais complexa do que aquela existente no período colonial.

Mas a lógica da concentração permanece

A forma mudou.

A lógica permanece parcialmente reconhecível.

Quem possui recursos produtivos possui maior capacidade de investir.

Quem possui capital pode obter crédito com mais facilidade.

Quem possui conhecimento pode acessar empregos mais qualificados.

Quem possui patrimônio pode enfrentar crises com maior segurança.

Quem possui grandes organizações possui maior capacidade de influenciar mercados.

Por isso, a questão da concentração econômica continua relevante.

A diferença fundamental

Mas existe uma diferença que não pode ser ignorada.

Hoje, existem muito mais caminhos para construir patrimônio do que no Brasil colonial.

Uma pessoa pode abrir uma empresa.

Comprar uma casa financiada.

Investir no mercado financeiro.

Criar uma tecnologia.

Prestar serviços.

Produzir conteúdo.

Vender pela internet.

Trabalhar para empresas internacionais.

A mobilidade econômica é maior.

Mas ela não é automática.

A origem ainda importa

O ponto de partida continua influenciando as possibilidades.

Quem nasce em uma família com patrimônio possui vantagens.

Quem recebe educação de qualidade possui vantagens.

Quem possui redes profissionais possui vantagens.

Quem tem acesso a crédito possui vantagens.

Quem vive em uma região com infraestrutura possui vantagens.

A sociedade moderna ampliou as oportunidades, mas não eliminou as diferenças de origem.

Da herança à oportunidade

Talvez seja justamente aqui que esteja uma das grandes mudanças históricas.

No mundo feudal, a posição social era fortemente determinada pelo nascimento.

O capitalismo rompeu parte dessa estrutura.

No mundo moderno, o nascimento continua influenciando oportunidades, mas não determina completamente o destino.

Uma pessoa pode mudar sua condição por meio de:

educação + trabalho + empreendedorismo + inovação + investimento.

A questão é ampliar o número de pessoas que conseguem percorrer esse caminho.

A grande síntese desta etapa

A história das elites econômicas brasileiras não é simplesmente a história de um grupo que permaneceu no poder durante séculos.

É a história da transformação dos próprios instrumentos de poder.

Terra.

Depois:

comércio.

Depois:

capital industrial.

Depois:

capital financeiro.

Depois:

tecnologia.

E agora:

conhecimento, dados e inovação.

As elites mudam porque a economia muda.

Mas a capacidade de transformar riqueza em influência continua sendo uma característica importante das sociedades.

E é aqui que a história encontra uma nova figura

No Brasil do século XX, a disputa pelo desenvolvimento também produziu personagens que não pertenciam necessariamente às elites econômicas tradicionais.

Líderes políticos passaram a defender projetos diferentes de industrialização, educação, distribuição de oportunidades, nacionalismo econômico e desenvolvimento regional.

Entre eles, um personagem se destaca por sua trajetória política e por uma ideia que atravessou décadas:

Leonel Brizola.

Sua história nos leva a uma questão que ainda não exploramos profundamente:

a educação pode ser tratada como uma infraestrutura estratégica de desenvolvimento?

E, se a resposta for sim:

o que acontece quando um projeto político coloca a educação no centro da transformação social?

É a partir dessa pergunta que podemos avançar para o próximo capítulo.

Continua.

Parte XI - A economia do conhecimento e o novo desafio brasileiro

  

Chegamos ao ponto em que a história econômica brasileira encontra uma transformação que pode ser tão profunda quanto a industrialização.

Durante séculos, a riqueza esteve fortemente associada à terra.

Depois, ao comércio.

Mais tarde, à indústria, às máquinas, à energia e à infraestrutura.

Hoje, um novo elemento ocupa posição cada vez mais importante:

o conhecimento.

Não significa que a terra, o capital ou a indústria tenham perdido importância.

Significa que a capacidade de combinar esses recursos com ciência, tecnologia e inovação passou a determinar uma parcela crescente do valor produzido.

A economia mudou de escala

Uma empresa do século XIX precisava estar fisicamente próxima de seus fornecedores e consumidores.

Uma indústria do século XX precisava de energia, estradas, máquinas e trabalhadores.

Uma empresa do século XXI pode operar em vários países ao mesmo tempo.

Pode desenvolver um produto em um país, fabricar componentes em outro, utilizar tecnologia criada em um terceiro e vender para consumidores do mundo inteiro.

As fronteiras econômicas tornaram-se mais flexíveis.

O capital passou a circular com enorme velocidade.

A informação passou a circular quase instantaneamente.

E a competição tornou-se global.

O novo meio de produção

Se a terra foi um dos principais meios de produção do Brasil agrário e as máquinas foram fundamentais para a industrialização, o conhecimento tornou-se um dos principais ativos da economia contemporânea.

Uma fórmula.

Um software.

Uma patente.

Uma tecnologia agrícola.

Um processo industrial.

Uma descoberta científica.

Um sistema de inteligência artificial.

Uma marca.

Uma plataforma digital.

Tudo isso pode possuir enorme valor econômico.

A riqueza pode estar em algo que não ocupa espaço físico.

A propriedade também mudou

Essa transformação modifica novamente o conceito de propriedade.

No passado, possuir uma grande extensão de terra significava controlar um recurso limitado.

Depois, possuir uma fábrica significava controlar máquinas, instalações e capacidade produtiva.

Hoje, uma empresa pode possuir ativos intangíveis cujo valor supera em muito seus bens físicos.

Isso cria uma nova pergunta:

quem possui o conhecimento que permite produzir?

E outra ainda mais importante:

quem possui condições para produzir conhecimento?

Universidades e centros de pesquisa

A ciência passou a fazer parte da infraestrutura econômica de um país.

Universidades formam profissionais.

Institutos de pesquisa desenvolvem tecnologias.

Laboratórios criam novos produtos.

Empresas transformam conhecimento em soluções comerciais.

O Estado financia parte importante da pesquisa básica.

A iniciativa privada transforma parte desse conhecimento em produtos e serviços.

Novamente aparece uma relação que já encontramos várias vezes nesta história:

Estado + iniciativa privada + conhecimento + investimento.

O Brasil possui capacidade científica

O Brasil não começa essa nova etapa do zero.

Possui universidades importantes.

Institutos de pesquisa.

Empresas de tecnologia.

Centros de inovação.

Pesquisadores.

Empresas agrícolas altamente tecnificadas.

Indústrias capazes de desenvolver produtos complexos.

A Petrobras desenvolveu tecnologias fundamentais para a exploração em águas profundas.

A Embrapa transformou a agricultura tropical.

Instituições públicas e privadas produziram conhecimento em diferentes áreas.

Portanto, o desafio brasileiro não é simplesmente criar conhecimento.

É também transformar conhecimento em escala econômica.

Da pesquisa ao mercado

Existe uma diferença importante entre descobrir e produzir.

Uma universidade pode desenvolver uma tecnologia.

Mas alguém precisa transformar essa tecnologia em produto.

É necessário investimento.

Gestão.

Infraestrutura.

Propriedade intelectual.

Capacidade industrial.

Acesso ao mercado.

Empreendedorismo.

Esse caminho é conhecido como transferência de tecnologia.

Quando ele funciona, o conhecimento produzido em laboratórios pode gerar:

empresas + empregos + produtividade + exportações + arrecadação + novos investimentos.

A produtividade volta ao centro

É aqui que encontramos uma das questões mais importantes para o Brasil.

O país possui uma economia grande.

Possui recursos naturais abundantes.

Possui população numerosa.

Possui mercado interno.

Mas ainda enfrenta dificuldades para aumentar a produtividade de maneira consistente em toda a economia.

Produtividade significa produzir mais valor utilizando melhor:

trabalho + capital + tecnologia + energia + conhecimento.

Não se trata simplesmente de trabalhar mais.

Trata-se de produzir melhor.

Educação novamente

Por isso, a discussão iniciada anteriormente com Brizola retorna ao centro da nossa história.

Educação não é apenas política social.

É política econômica.

Uma população mais educada possui maior capacidade de:

aprender novas tecnologias;

adaptar-se a mudanças;

criar empresas;

desenvolver pesquisas;

aumentar a produtividade;

ocupar empregos qualificados.

A educação transforma o indivíduo em parte ativa da economia do conhecimento.

A primeira infância também entra nessa equação

Existe ainda uma dimensão anterior à formação profissional.

A capacidade de aprender começa muito antes da universidade.

A infância é o período em que se desenvolvem linguagem, criatividade, sociabilidade, curiosidade, autonomia e diversas capacidades cognitivas.

Por isso, investir na infância não é apenas uma questão de proteção social.

Também é investimento de longo prazo em capital humano.

Uma sociedade que cuida de suas crianças está construindo parte de sua futura capacidade produtiva.

O desafio da inclusão tecnológica

Mas a tecnologia não pode se transformar em um novo mecanismo de exclusão.

Se apenas uma parcela da população possui:

internet de qualidade + computadores + formação digital + educação científica + acesso a ferramentas de inteligência artificial,

as desigualdades podem se aprofundar.

Por isso, inclusão digital precisa ser acompanhada de inclusão educacional.

Ter acesso à tecnologia não basta.

É necessário saber utilizá-la.

A inteligência artificial

A inteligência artificial acrescenta uma nova camada a essa transformação.

Máquinas já conseguem realizar tarefas que antes dependiam exclusivamente do trabalho humano.

Analisar grandes volumes de dados.

Reconhecer padrões.

Produzir textos.

Criar imagens.

Auxiliar em diagnósticos.

Automatizar processos.

O impacto será amplo.

Algumas profissões serão transformadas.

Outras surgirão.

Muitas atividades passarão a exigir novas competências.

O problema não será apenas tecnológico.

Será educacional e econômico.

O trabalhador diante da automação

A história já passou por transformações semelhantes.

A mecanização agrícola reduziu a necessidade de determinados trabalhos manuais.

A industrialização substituiu algumas atividades artesanais.

A automação industrial modificou profissões.

A informática transformou escritórios.

Agora a inteligência artificial começa a transformar atividades intelectuais.

Em cada uma dessas etapas, o desafio foi semelhante:

como permitir que o trabalhador acompanhe a transformação tecnológica?

Educação permanente e qualificação tornam-se cada vez mais importantes.

Pequenos negócios e novas oportunidades

A tecnologia também pode reduzir algumas barreiras de entrada.

Uma pequena empresa pode vender pela internet.

Um artesão pode alcançar consumidores de outras regiões.

Um produtor rural pode utilizar ferramentas digitais para acompanhar preços e mercados.

Um profissional pode prestar serviços para empresas de outros países.

Uma pequena startup pode desenvolver uma solução para um problema específico e alcançar milhões de usuários.

Isso representa uma ruptura importante em relação ao passado.

Nem toda oportunidade econômica depende mais de possuir grandes extensões de terra ou grandes instalações físicas.

Mas o capital continua importante

Seria um erro concluir que a tecnologia eliminou a importância do capital.

Para transformar uma ideia em empresa, ainda são necessários:

investimento + infraestrutura + equipamentos + trabalhadores + crédito + mercado.

A tecnologia pode reduzir algumas barreiras.

Mas não elimina todas.

Por isso, o acesso ao capital continua sendo uma questão central.

Crédito e empreendedorismo

O crédito pode permitir que uma pessoa transforme uma ideia em atividade produtiva.

Mas o sistema financeiro precisa avaliar risco.

Taxas de juros elevadas podem dificultar investimentos.

Burocracia pode aumentar custos.

Insegurança jurídica pode reduzir a disposição para investir.

Por isso, um ambiente econômico favorável precisa combinar:

crédito + segurança jurídica + concorrência + educação financeira + estabilidade.

A propriedade privada no século XXI

A propriedade privada continua sendo um dos fundamentos da economia brasileira.

Mas ela assumiu novas formas.

Uma família pode possuir:

uma casa;

um terreno;

uma empresa;

ações;

uma propriedade rural;

equipamentos;

uma marca;

uma patente;

direitos autorais;

ativos financeiros.

O patrimônio tornou-se diversificado.

Isso amplia as possibilidades de acumulação, mas também cria novas formas de concentração.

A concentração tecnológica

No mundo digital, algumas empresas podem alcançar escala gigantesca.

Uma plataforma pode atender milhões ou bilhões de pessoas.

Isso cria vantagens econômicas extraordinárias.

Quanto maior a rede, maior pode ser seu valor.

Quanto maior o volume de dados, maior pode ser a capacidade de aperfeiçoar determinados serviços.

Surgem, então, novos desafios regulatórios:

como estimular inovação sem permitir abusos de poder econômico?

como proteger concorrência sem impedir o crescimento de empresas eficientes?

como proteger dados sem bloquear a inovação?

São questões que não existiam quando a principal preocupação econômica era a propriedade da terra.

O Brasil diante da competição internacional

A economia mundial tornou-se extremamente competitiva.

Países disputam investimentos.

Tecnologias.

Empresas.

Talentos.

Mercados.

O Brasil possui vantagens importantes.

Grande território.

Recursos naturais.

Energia.

Agricultura.

Mercado interno.

Posição geográfica.

Capacidade científica.

Mas precisa transformar essas vantagens em produtividade.

Ter recursos não é suficiente.

É necessário agregar valor.

Da exportação de commodities à agregação de valor

O Brasil continuará exportando produtos agrícolas e minerais.

Isso não é um problema em si.

Pelo contrário.

As commodities são importantes para a economia nacional.

A questão é evitar que a economia dependa exclusivamente delas.

O desafio é construir cadeias de maior valor agregado.

Em vez de apenas exportar matéria-prima, desenvolver também:

processamento + tecnologia + indústria + serviços + conhecimento.

O café pode gerar uma cadeia de alimentos, marcas e tecnologia.

A agricultura pode gerar biotecnologia.

O petróleo pode estimular engenharia e equipamentos.

A mineração pode desenvolver materiais avançados.

A biodiversidade pode estimular pesquisas farmacêuticas e biotecnológicas.

O recurso natural pode ser o ponto de partida.

Não precisa ser o ponto final.

A Amazônia e o conhecimento

A Amazônia representa talvez um dos maiores exemplos dessa possibilidade.

A floresta possui enorme biodiversidade.

Mas seu valor não precisa estar apenas na exploração direta de recursos.

Existe outro caminho:

pesquisa + biotecnologia + conhecimento tradicional + conservação + inovação.

A floresta pode gerar conhecimento sem precisar ser destruída.

Isso representa uma mudança de paradigma.

Produzir riqueza não precisa significar necessariamente consumir o patrimônio natural.

Energia e futuro

O Brasil também possui vantagens na transição energética.

Energia hidrelétrica.

Biocombustíveis.

Energia solar.

Energia eólica.

Biomassa.

Petróleo e gás.

O país possui uma matriz energética diversificada e grande potencial para ampliar fontes renováveis.

Mas a transição energética também exigirá investimentos, tecnologia e infraestrutura.

Mais uma vez:

recurso natural + conhecimento + capital + infraestrutura.

A questão ambiental torna-se econômica

A mudança climática acrescenta uma nova variável.

Secas.

Enchentes.

Ondas de calor.

Alterações no regime de chuvas.

Eventos extremos.

Tudo isso pode afetar agricultura, energia, infraestrutura e cidades.

Portanto, sustentabilidade não pode ser tratada como questão separada da economia.

Ela passou a ser parte da própria segurança econômica.

O campo do futuro

A agricultura brasileira também está entrando em uma nova etapa.

Sensores.

Satélites.

Drones.

Inteligência artificial.

Biotecnologia.

Agricultura de precisão.

Novas técnicas de irrigação.

Melhoramento genético.

Essas ferramentas podem aumentar a produtividade e reduzir desperdícios.

O agricultor do futuro dependerá cada vez menos apenas da extensão da terra.

Dependerá também da capacidade de administrar informação.

O pequeno produtor também pode participar

A tecnologia não precisa ser exclusiva das grandes propriedades.

Cooperativas podem compartilhar equipamentos.

Sistemas digitais podem ampliar acesso a mercados.

Assistência técnica pode utilizar ferramentas remotas.

Pequenos produtores podem organizar compras e vendas coletivamente.

O desafio é criar condições para que a inovação chegue também aos produtores de menor escala.

Assim, a tecnologia pode funcionar como instrumento de inclusão produtiva.

A reforma das oportunidades

Aqui chegamos novamente à questão que apareceu no início desta série.

A grande transformação brasileira não precisa ser entendida apenas como uma disputa entre:

capitalismo e socialismo.

Pode ser compreendida como uma busca por um sistema no qual:

liberdade econômica + propriedade + mercado + educação + produtividade + inovação + proteção social + democracia

possam coexistir.

A questão é criar condições para que um número maior de pessoas tenha capacidade de participar da economia.

Do direito à oportunidade

A igualdade perante a lei é indispensável.

Mas ela não elimina automaticamente as diferenças de ponto de partida.

Por isso, uma sociedade democrática precisa pensar também em oportunidades concretas.

Uma criança precisa ter acesso à educação.

Um trabalhador precisa ter possibilidade de qualificação.

Um empreendedor precisa encontrar crédito e ambiente favorável.

Um agricultor precisa ter infraestrutura e acesso ao mercado.

Uma empresa precisa poder competir.

Um pesquisador precisa encontrar condições para transformar conhecimento em inovação.

Esse conjunto forma uma verdadeira infraestrutura de oportunidades.

A grande síntese

Depois de percorrer séculos da história brasileira, podemos enxergar uma transformação contínua.

No começo:

terra.

Depois:

terra + trabalho.

Mais tarde:

terra + capital comercial.

Depois:

capital + indústria.

Em seguida:

indústria + energia + infraestrutura.

Depois:

tecnologia + ciência.

Agora:

conhecimento + inovação + dados + inteligência artificial.

Cada etapa acrescentou novos instrumentos de produção.

Nenhuma eliminou completamente os anteriores.

O que permaneceu

A terra continua sendo patrimônio.

O capital continua financiando investimentos.

O trabalho continua produzindo.

A indústria continua necessária.

A energia continua fundamental.

O Estado continua importante.

O mercado continua sendo um mecanismo central de organização econômica.

A diferença é que todos esses elementos estão cada vez mais conectados.

A questão do poder

E aqui voltamos ao ponto de partida.

Quem controla recursos estratégicos possui maior capacidade de influência.

No Brasil colonial, isso significava principalmente controlar a terra e o trabalho.

Na economia industrial, significava controlar capital, fábricas, bancos e infraestrutura.

Hoje, significa também controlar:

tecnologia + dados + conhecimento + propriedade intelectual + redes de produção.

O poder econômico mudou de forma.

A verdadeira continuidade

Por isso, não podemos afirmar que o Brasil permaneceu igual desde a Colônia.

Seria historicamente incorreto.

O Brasil mudou profundamente.

Mas também não podemos ignorar as continuidades.

A concentração patrimonial.

As desigualdades regionais.

A diferença de acesso à educação.

A desigualdade de acesso ao capital.

A relação entre riqueza e influência.

Essas estruturas atravessaram diferentes períodos e assumiram novas formas.

E o futuro?

O Brasil possui condições excepcionais para participar da economia do futuro.

Mas nenhuma vantagem é automática.

Território precisa de infraestrutura.

Recursos naturais precisam de tecnologia.

Tecnologia precisa de conhecimento.

Conhecimento precisa de educação.

Empresas precisam de capital.

Capital precisa de segurança.

Mercados precisam de concorrência.

Democracia precisa de instituições.

E desenvolvimento precisa alcançar as pessoas.

Talvez essa seja a principal conclusão de toda a nossa trajetória.

Não existe desenvolvimento sustentado apenas pela riqueza que um país possui.

Existe desenvolvimento quando uma sociedade consegue transformar seus recursos em:

produtividade, conhecimento, patrimônio, oportunidades e qualidade de vida.

E talvez a grande fronteira brasileira esteja justamente aí.

Não em abandonar aquilo que o país já possui.

Mas em agregar conhecimento ao que já possui.

Transformar terra em produção sustentável.

Transformar recursos naturais em tecnologia.

Transformar ciência em inovação.

Transformar educação em oportunidade.

Transformar trabalho em patrimônio.

Transformar patrimônio em autonomia.

E transformar crescimento econômico em desenvolvimento.

A pergunta que fica

Depois de séculos de transformações, a pergunta inicial permanece, mas agora ganhou uma dimensão muito maior:

quem terá acesso aos instrumentos capazes de produzir riqueza no Brasil do futuro?

A resposta dependerá de escolhas feitas hoje.

Escolhas sobre educação.

Ciência.

Tecnologia.

Infraestrutura.

Tributação.

Crédito.

Propriedade.

Meio ambiente.

Empreendedorismo.

Agricultura.

Indústria.

Energia.

E, principalmente, sobre a capacidade de construir oportunidades.

Porque a história brasileira mostra que riqueza e desenvolvimento não são exatamente a mesma coisa.

Riqueza pode existir concentrada.

Desenvolvimento exige capacidade de ampliar oportunidades.

E talvez seja essa a grande passagem que o Brasil ainda precisa completar:

da economia da sobrevivência para a economia da oportunidade;
da concentração de possibilidades para a ampliação do acesso;
da dependência tecnológica para a capacidade de inovar;
do crescimento para o desenvolvimento.

A história não terminou.

Ela apenas mudou de instrumento.

A terra continua.
O capital continua.
O trabalho continua.
O poder continua.

Mas agora existe um novo elemento no centro da disputa:

o conhecimento.

Continua.

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