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"Inspirado em Heidegger, Brincadeira Sustentável (por Renata Bravo) não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser digerida, vivida e incorporada."

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Parte XVI - A abertura econômica, a globalização e o novo capitalismo brasileiro


A industrialização havia transformado profundamente o Brasil.

O país que no início do século XX dependia fortemente das exportações agrícolas tornou-se uma economia urbana, industrializada e integrada a grandes cadeias produtivas.

Mas, a partir das últimas décadas do século XX, uma nova transformação começou a ganhar força.

O mundo estava mudando.

As tecnologias de comunicação avançavam.

O transporte internacional se tornava mais rápido.

O capital circulava com maior velocidade.

Empresas passaram a produzir em diferentes países.

E os mercados nacionais ficaram cada vez mais conectados.

O Brasil entrou em uma nova etapa:

a globalização.

Um mundo economicamente mais integrado

Durante boa parte do século XX, os países protegiam suas economias por meio de tarifas, controles de importação e políticas industriais nacionais.

Essas medidas ajudaram diferentes países a desenvolver suas indústrias.

Mas também podiam reduzir a concorrência e encarecer determinados produtos.

A partir das décadas de 1980 e 1990, ganhou força uma tendência de maior abertura comercial e financeira.

O Brasil também participou desse processo.

A abertura econômica

Nos anos 1990, o país reduziu barreiras à importação e aumentou sua integração com a economia internacional.

Produtos estrangeiros passaram a competir mais diretamente com produtos nacionais.

Empresas brasileiras foram obrigadas a aumentar sua produtividade.

Algumas conseguiram modernizar-se.

Outras perderam espaço.

Algumas desapareceram.

A competição internacional tornou-se uma realidade cotidiana.

A moeda estável muda a economia

A estabilização proporcionada pelo Plano Real, a partir de 1994, teve importância decisiva.

Durante décadas, a inflação elevada dificultava o planejamento.

O dinheiro perdia valor rapidamente.

Contratos precisavam ser constantemente reajustados.

Famílias de menor renda eram particularmente vulneráveis.

Com a estabilização, tornou-se mais possível planejar:

compras + investimentos + salários + financiamentos + empresas.

A estabilidade monetária passou a ser uma das bases da nova economia brasileira.

O consumidor ganha força

Com menor inflação, o mercado consumidor também se transformou.

O acesso a bens duráveis aumentou.

O crédito ganhou importância.

Empresas passaram a disputar consumidores de forma mais intensa.

A competição deixou de ocorrer apenas entre empresas nacionais.

Produtos importados também estavam presentes.

O consumidor passou a ter mais opções.

Mas também passou a depender cada vez mais de uma economia integrada aos fluxos internacionais.

O capital estrangeiro

A abertura econômica aumentou a entrada de capital estrangeiro.

Empresas internacionais passaram a investir no Brasil.

Algumas construíram fábricas.

Outras adquiriram empresas brasileiras.

Outras entraram em setores de serviços, comércio e tecnologia.

O capital estrangeiro trouxe:

investimentos + tecnologia + gestão + acesso a mercados internacionais.

Mas também produziu debates sobre soberania econômica e capacidade de decisão nacional.

A privatização

Durante os anos 1990, o Brasil também passou por um amplo processo de privatizações.

Empresas estatais de diferentes setores foram transferidas para a iniciativa privada.

Os defensores das privatizações argumentavam que a gestão privada poderia aumentar eficiência, reduzir a necessidade de investimentos públicos diretos e ampliar a concorrência.

Os críticos questionavam a perda de controle estatal sobre setores estratégicos e a forma como determinados ativos foram avaliados e transferidos.

Mais uma vez, a discussão não era simplesmente econômica.

Era também política.

A velha pergunta retorna

Qual deve ser o papel do Estado?

Deve possuir empresas?

Deve apenas regulá-las?

Deve investir diretamente?

Deve deixar o mercado organizar a maior parte da economia?

A história brasileira nunca produziu uma resposta definitiva.

E talvez não exista uma única resposta para todos os setores.

Setores estratégicos

Energia, petróleo, mineração, defesa, telecomunicações, infraestrutura e tecnologia possuem características diferentes.

Em alguns setores, a presença estatal pode ser considerada estratégica.

Em outros, a competição privada pode aumentar eficiência e inovação.

A questão central passa a ser:

qual modelo produz melhores resultados para a sociedade em cada situação?

Essa é uma pergunta mais complexa do que simplesmente escolher entre Estado e mercado.

A globalização transforma as empresas

Uma empresa brasileira já não precisa pensar apenas no mercado nacional.

Pode importar componentes.

Exportar produtos.

Captar recursos no exterior.

Abrir filiais em outros países.

Utilizar tecnologia estrangeira.

Competir internacionalmente.

O território nacional continua importante.

Mas a empresa passa a funcionar dentro de uma rede global.

As cadeias produtivas

Um produto aparentemente simples pode envolver dezenas de empresas e vários países.

Uma peça pode ser produzida na Ásia.

Outra na Europa.

O projeto pode ser desenvolvido nos Estados Unidos.

A montagem pode ocorrer no Brasil.

O produto pode ser vendido para consumidores de vários continentes.

Isso cria uma nova realidade:

a produção tornou-se global.

O Brasil diante dessa transformação

O país possui vantagens importantes para participar dessas cadeias.

Mercado consumidor.

Recursos naturais.

Agricultura.

Energia.

Indústria.

Mão de obra.

Infraestrutura em expansão.

Mas também enfrenta dificuldades.

Burocracia.

Custos logísticos.

Sistema tributário complexo.

Baixa produtividade em determinados setores.

Desigualdade educacional.

Deficiências de infraestrutura.

Esses fatores afetam a competitividade.

A questão tributária ganha nova dimensão

No início desta série, a reforma tributária apareceu relacionada à distribuição do financiamento do Estado.

Agora ela assume outra dimensão.

Em uma economia globalizada, o sistema tributário também afeta:

competitividade + investimento + produtividade + exportações + emprego.

Empresas podem decidir onde investir considerando custos, impostos, infraestrutura e segurança jurídica.

A tributação passou a fazer parte da competição internacional.

O trabalho também muda

A globalização modificou o mercado de trabalho.

Algumas atividades industriais foram automatizadas.

Outras foram transferidas para regiões com menores custos.

Novas profissões surgiram.

O setor de serviços cresceu.

A tecnologia passou a exigir novas qualificações.

O trabalhador passou a competir não apenas com outros trabalhadores de sua cidade ou país.

Em determinadas atividades, passou a competir em escala internacional.

O trabalhador conectado

A internet mudou essa realidade ainda mais.

Um profissional pode trabalhar para uma empresa localizada em outra cidade ou até outro país.

Programadores.

Designers.

Consultores.

Professores.

Tradutores.

Especialistas em tecnologia.

Profissionais criativos.

A localização física deixou de ser uma barreira absoluta para determinadas atividades.

Mas a tecnologia também cria desigualdades

Nem todos conseguem participar dessa nova economia.

Quem possui boa formação e acesso à tecnologia pode encontrar novas oportunidades.

Quem não possui essas condições pode enfrentar dificuldades maiores.

A diferença entre trabalhadores qualificados e pouco qualificados pode aumentar.

Mais uma vez, a educação retorna ao centro da questão.

A revolução digital

Nos anos 2000, a internet começou a transformar profundamente as relações econômicas.

Comércio eletrônico.

Redes sociais.

Serviços digitais.

Bancos eletrônicos.

Plataformas.

Aplicativos.

Economia sob demanda.

A empresa deixou de precisar necessariamente de uma grande estrutura física para alcançar milhões de consumidores.

O celular como instrumento econômico

A popularização dos smartphones acelerou essa transformação.

O telefone deixou de ser apenas um instrumento de comunicação.

Passou a ser:

banco + loja + carteira + escritório + escola + câmera + ferramenta de trabalho + acesso a serviços.

Para milhões de pessoas, o celular tornou-se uma porta de entrada para a economia digital.

O sistema financeiro também mudou

A digitalização transformou bancos e pagamentos.

Transações passaram a ser realizadas em segundos.

Pequenas empresas passaram a receber pagamentos eletrônicos.

Consumidores passaram a utilizar serviços financeiros digitais.

O sistema financeiro tornou-se mais acessível em alguns aspectos.

Mas também passou a depender cada vez mais de tecnologia e dados.

O surgimento das fintechs

Novas empresas financeiras começaram a competir com instituições tradicionais.

Elas utilizaram tecnologia para oferecer:

contas digitais + pagamentos + crédito + investimentos + serviços financeiros.

Isso aumentou a concorrência em partes do mercado.

Também mostrou como tecnologia pode alterar setores que durante décadas pareciam dominados por grandes instituições.

O capital se torna digital

O conceito de capital passou novamente por transformação.

Antes, capital podia ser:

terra + máquinas + fábricas + dinheiro.

Agora também pode incluir:

software + dados + algoritmos + marcas + patentes + plataformas.

Uma empresa pode possuir relativamente poucos ativos físicos e, ainda assim, possuir enorme valor econômico.

Os dados como recurso

Dados passaram a possuir valor estratégico.

Informações sobre consumidores podem ajudar empresas a compreender comportamentos, prever demandas e desenvolver produtos.

Isso cria uma nova forma de poder econômico.

Quem possui grandes quantidades de dados pode desenvolver vantagens competitivas.

Mas também surgem questões:

quem controla os dados?

quem pode utilizá-los?

como proteger a privacidade?

como impedir abusos?

A propriedade intelectual

Patentes, marcas e direitos autorais ganharam importância.

Uma empresa pode não possuir uma grande fábrica.

Mas pode possuir uma tecnologia que outras empresas precisam utilizar.

O valor está no conhecimento protegido.

Isso reforça uma transformação que já identificamos:

a propriedade econômica deixou de ser apenas física.

A agricultura entra definitivamente na era tecnológica

Enquanto a economia urbana se digitalizava, o campo também se transformava.

A agricultura brasileira passou a utilizar:

satélites + GPS + sensores + máquinas automatizadas + biotecnologia + análise de dados.

O produtor pode acompanhar condições do solo e do clima.

Pode calcular produtividade.

Pode utilizar máquinas com precisão.

Pode reduzir desperdícios.

A terra continua essencial.

Mas o conhecimento sobre a terra tornou-se igualmente importante.

O agronegócio

O agronegócio brasileiro tornou-se uma cadeia extremamente complexa.

Não envolve apenas o produtor rural.

Inclui:

sementes + fertilizantes + máquinas + crédito + produção + armazenamento + transporte + processamento + comércio + exportação.

A agricultura moderna tornou-se uma grande rede econômica.

Agricultura familiar e tecnologia

A agricultura familiar também pode participar dessa transformação.

Cooperativas podem compartilhar equipamentos.

Tecnologias digitais podem facilitar a comercialização.

Sistemas de informação podem melhorar o planejamento.

Assistência técnica pode utilizar ferramentas digitais.

O desafio continua sendo garantir acesso.

Tecnologia sem acesso pode aumentar a desigualdade.

Tecnologia acessível pode aumentar produtividade e autonomia.

A indústria brasileira diante da globalização

A indústria enfrentou uma nova realidade.

Não bastava produzir.

Era necessário produzir com qualidade, eficiência e competitividade internacional.

Automação e tecnologia passaram a ser indispensáveis.

Alguns setores avançaram significativamente.

Outros enfrentaram dificuldades.

O processo de desindustrialização passou a ser objeto de intenso debate econômico.

Indústria e valor agregado

A questão não é apenas possuir indústria.

É possuir indústrias capazes de produzir bens de maior valor agregado.

Quanto maior a complexidade tecnológica de um produto, maior pode ser o valor econômico gerado por sua cadeia.

Isso leva novamente à educação.

Para produzir tecnologia, é preciso formar pessoas capazes de desenvolvê-la.

A ciência como política econômica

Ciência deixou definitivamente de ser apenas uma atividade acadêmica.

Ela passou a ser parte da estratégia econômica.

Um país que desenvolve:

biotecnologia + inteligência artificial + novos materiais + energia + medicamentos + tecnologias agrícolas

pode criar novas empresas e novas cadeias produtivas.

Investir em ciência é investir também na capacidade futura de competir.

O Brasil possui uma vantagem particular

O país reúne características que poucos países possuem simultaneamente.

Grande território.

Biodiversidade.

Recursos minerais.

Agricultura.

Água.

Energia renovável.

Mercado interno.

Universidades.

Indústria.

Empresas de grande porte.

Essa combinação oferece enorme potencial.

Mas potencial não é resultado.

É necessário transformar potencial em produtividade.

A questão da infraestrutura

Rodovias.

Ferrovias.

Portos.

Aeroportos.

Energia.

Internet.

Saneamento.

Infraestrutura digital.

Tudo isso influencia a capacidade de uma economia competir.

Uma empresa pode possuir tecnologia avançada.

Mas, se não conseguir transportar seus produtos com eficiência, perderá competitividade.

O território continua importante

A globalização não eliminou a geografia.

Pelo contrário.

A localização continua influenciando custos e oportunidades.

Portos próximos às áreas produtoras podem reduzir custos.

Ferrovias podem ampliar competitividade.

Energia barata pode atrair indústrias.

Internet de qualidade pode atrair empresas de tecnologia.

A geografia continua sendo uma dimensão econômica fundamental.

A velha terra encontra o novo capital

Chegamos novamente ao ponto de partida.

A terra continua sendo um ativo.

Mas seu valor depende cada vez mais de:

infraestrutura + tecnologia + conhecimento + acesso ao mercado.

Uma propriedade rural próxima a uma boa infraestrutura possui condições diferentes de outra isolada.

Uma terra produtiva com tecnologia pode gerar muito mais valor.

O recurso natural permanece.

Mas o conhecimento transforma sua capacidade econômica.

A nova desigualdade

As desigualdades do século XXI não estão apenas relacionadas à renda.

Também envolvem:

acesso à educação + acesso à tecnologia + acesso ao crédito + acesso à infraestrutura + acesso a mercados.

Duas pessoas podem possuir a mesma capacidade de trabalho, mas oportunidades muito diferentes.

A distância entre elas pode começar antes mesmo de entrarem no mercado de trabalho.

O patrimônio novamente

Quem consegue acumular patrimônio possui maior capacidade de enfrentar crises.

Pode investir.

Pode empreender.

Pode financiar educação.

Pode ajudar os filhos.

Pode adquirir novos ativos.

O patrimônio produz segurança e também novas oportunidades.

Por isso, a discussão sobre mobilidade social não pode olhar apenas para salários.

Precisa olhar também para a capacidade de construir patrimônio.

Uma nova classe de empreendedores

A economia digital criou novas possibilidades.

Pequenos negócios podem alcançar mercados nacionais.

Empresas podem nascer com investimentos relativamente menores.

Profissionais podem trabalhar de maneira independente.

Criadores podem transformar conhecimento em produtos.

Mas a competição também aumentou.

A facilidade de entrar em determinado mercado pode significar facilidade semelhante para novos concorrentes.

O Estado continua necessário

A globalização não eliminou o Estado.

Ao contrário.

O Estado continua responsável por:

leis + segurança + infraestrutura + educação + regulação + políticas públicas + defesa + justiça.

A diferença é que agora precisa atuar em um ambiente muito mais conectado internacionalmente.

A soberania também mudou

No passado, soberania estava fortemente associada ao controle territorial.

Hoje, também envolve capacidade tecnológica.

Um país pode possuir território e recursos naturais, mas depender de tecnologias essenciais produzidas no exterior.

Isso cria vulnerabilidades.

Soberania contemporânea envolve também:

energia + alimentos + tecnologia + ciência + infraestrutura + capacidade industrial.

A pandemia mostrou essa vulnerabilidade

A pandemia de COVID-19 expôs a dependência de cadeias produtivas internacionais.

Produtos médicos.

Equipamentos.

Componentes industriais.

Medicamentos.

Vacinas.

A crise mostrou que eficiência econômica e segurança estratégica nem sempre são exatamente a mesma coisa.

Um país precisa participar do comércio internacional.

Mas também precisa possuir determinadas capacidades essenciais.

A nova ideia de segurança econômica

Segurança econômica passou a significar mais do que reservas financeiras.

Significa possuir capacidade de produzir ou garantir acesso a recursos fundamentais.

alimentos + energia + medicamentos + tecnologia + infraestrutura.

Essa discussão ganhou importância em vários países.

O Brasil também precisa enfrentá-la.

O equilíbrio

O desafio não é abandonar a globalização.

O comércio internacional trouxe benefícios enormes.

Exportações geram renda.

Importações permitem acesso a tecnologias.

Investimentos estrangeiros podem ampliar produção.

Empresas brasileiras podem conquistar mercados externos.

A questão é participar da globalização com capacidade própria.

O Brasil que queremos construir

Depois de séculos de transformação, o país possui condições para combinar:

mercado interno forte + exportações + indústria + agricultura + ciência + tecnologia + energia + educação.

Nenhum desses elementos precisa necessariamente excluir os outros.

O verdadeiro desafio está na complementaridade.

A grande mudança histórica

Na Colônia, a riqueza estava fortemente relacionada à terra e ao trabalho.

No século XIX, o comércio e o capital começaram a ganhar novas dimensões.

No século XX, indústria, energia e infraestrutura passaram ao centro.

No final do século XX, finanças e globalização ganharam força.

No século XXI:

tecnologia, dados, conhecimento e inovação passaram a ocupar posição estratégica.

Mas a pergunta original continua

Quem controla os meios de produção possui maior capacidade de influenciar a economia.

Só que os meios de produção mudaram.

Hoje precisamos perguntar:

quem controla a tecnologia?

quem possui acesso ao conhecimento?

quem controla dados e infraestrutura digital?

quem possui capital para inovar?

quem consegue transformar conhecimento em propriedade e patrimônio?

Essas perguntas são a continuação natural daquelas feitas no início desta série.

A história não se repete

O Brasil contemporâneo não é uma continuação literal do Brasil colonial.

Seria um erro histórico afirmar isso.

A escravidão acabou.

A economia se industrializou.

A sociedade se urbanizou.

A democracia foi reconstruída.

A educação se expandiu.

A tecnologia transformou a produção.

O país se integrou ao mundo.

Mas algumas questões estruturais continuam relevantes:

concentração de patrimônio, desigualdade de oportunidades, acesso ao capital, educação, infraestrutura e poder econômico.

As formas mudaram.

As perguntas permaneceram.

A próxima fronteira

E agora chegamos a uma transformação ainda mais recente.

A economia digital está sendo atravessada por uma tecnologia capaz de alterar novamente a relação entre conhecimento, trabalho e produção:

a inteligência artificial.

Ela pode modificar empresas.

Profissões.

Educação.

Agricultura.

Indústria.

Serviços.

Pesquisa.

Comunicação.

E até a maneira como o próprio conhecimento é produzido.

Se a Revolução Industrial substituiu parte do trabalho físico por máquinas, a revolução da inteligência artificial começa a atingir também tarefas cognitivas.

Isso nos coloca diante de uma nova pergunta:

o que acontecerá quando o conhecimento, que se tornou um dos principais meios de produção do século XXI, puder ser parcialmente ampliado e executado por máquinas?

Essa será a próxima etapa desta história.

Continua.

Parte XV - O Estado, a indústria e a construção de um projeto nacional

 

A história brasileira havia chegado a um ponto de transformação profunda.

A economia ainda carregava marcas de seu passado agrário e exportador, mas as cidades cresciam, a indústria avançava, o mercado interno se ampliava e novas formas de trabalho e de organização social surgiam.

O país precisava enfrentar uma questão que se tornaria central ao longo do século XX:

como transformar crescimento econômico em desenvolvimento nacional?

Essa pergunta colocou o Estado no centro do debate.

Não porque o Estado pudesse substituir toda a economia privada, mas porque determinados projetos exigiam investimentos, planejamento e capacidade de coordenação que ultrapassavam as possibilidades de indivíduos ou empresas isoladamente.

Do Estado que administra ao Estado que desenvolve

Durante o período colonial e parte do Império, o Estado estava profundamente ligado à organização política e à arrecadação, enquanto grande parte da atividade econômica permanecia concentrada na agricultura e no comércio.

Com a industrialização, essa relação começou a mudar.

O Estado passou a precisar construir:

estradas + ferrovias + portos + energia + comunicações + educação + instituições financeiras.

A infraestrutura passou a ser condição para a própria expansão do mercado.

Barão de Mauá havia antecipado essa questão

No século XIX, a trajetória do Barão de Mauá já havia mostrado que o capital privado podia participar ativamente da modernização brasileira.

Ferrovias, navegação, bancos, iluminação e outras iniciativas estavam relacionadas a uma visão de país mais integrado e industrializado.

Mas o Brasil ainda não possuía as condições institucionais e econômicas necessárias para sustentar uma industrialização ampla.

O país continuava profundamente dependente da economia agroexportadora e do trabalho escravizado.

A modernização encontrava limites estruturais.

A Abolição muda a sociedade

A abolição da escravidão, em 1888, modificou profundamente as relações sociais.

Mas a liberdade jurídica não veio acompanhada de uma grande política nacional de integração econômica da população recém-liberta.

A República herdou, portanto, uma sociedade marcada por enormes desigualdades.

Ao mesmo tempo, a economia começava a se transformar.

O café continuava importante.

As cidades cresciam.

As ferrovias avançavam.

A imigração aumentava.

As primeiras indústrias se multiplicavam.

O capitalismo brasileiro começava a adquirir características mais urbanas e industriais.

A Primeira República

Entre 1889 e 1930, o Brasil viveu a chamada Primeira República.

Foi um período de forte influência das oligarquias estaduais e de uma economia ainda profundamente vinculada à agricultura de exportação.

O café ocupava posição central.

Mas a industrialização já estava em movimento.

São Paulo crescia rapidamente.

O proletariado urbano aumentava.

Novas organizações políticas e sindicais apareciam.

A sociedade estava mudando mais rapidamente do que suas estruturas políticas.

A crise de 1929

A crise econômica mundial de 1929 atingiu fortemente o modelo agroexportador brasileiro.

A queda dos preços internacionais do café demonstrou um problema estrutural:

uma economia excessivamente dependente de um número limitado de produtos exportados fica vulnerável às oscilações do mercado internacional.

A crise acelerou uma transformação que já estava em andamento.

O mercado interno passou a ganhar importância.

A industrialização tornou-se mais necessária.

1930: uma mudança de direção

A Revolução de 1930 levou Getúlio Vargas ao poder.

A partir daí, o Estado brasileiro passou por uma profunda transformação.

O governo passou a atuar de maneira mais direta na organização econômica e social.

A industrialização passou a ser tratada como parte de um projeto nacional.

O Brasil começava a construir uma nova relação entre:

Estado + indústria + trabalho + capital.

Getúlio Vargas

Vargas é uma das figuras mais complexas da história brasileira.

Sua trajetória não pode ser reduzida a uma única interpretação.

Foi responsável por importantes medidas de industrialização e legislação trabalhista.

Ao mesmo tempo, governou em períodos autoritários e, durante o Estado Novo, concentrou poderes e restringiu liberdades políticas.

Essas duas dimensões precisam ser analisadas simultaneamente.

A história não precisa transformar personagens complexos em heróis ou vilões absolutos.

A criação de instituições econômicas

Durante a Era Vargas, o Estado passou a construir instrumentos para aumentar sua capacidade de intervenção econômica.

Foram criadas instituições e empresas estratégicas.

O objetivo era reduzir algumas vulnerabilidades do país e criar bases para a industrialização.

Entre os setores considerados fundamentais estavam:

siderurgia + mineração + energia + petróleo + transportes.

O desenvolvimento industrial exigia uma infraestrutura que ainda era insuficiente.

A Companhia Siderúrgica Nacional

A criação da Companhia Siderúrgica Nacional, na década de 1940, foi um marco.

A siderurgia era considerada estratégica porque praticamente toda industrialização moderna dependia do aço.

Máquinas.

Ferrovias.

Construção.

Automóveis.

Equipamentos.

Infraestrutura.

Sem indústria de base, a industrialização dependeria excessivamente da importação de produtos fundamentais.

A siderurgia representava, portanto, mais do que uma fábrica.

Representava capacidade industrial nacional.

A questão do petróleo

O petróleo também passou a ocupar lugar central.

O debate não era apenas sobre combustível.

Petróleo significava:

energia + transporte + indústria + segurança econômica + soberania estratégica.

Em 1953, já no segundo governo Vargas, foi criada a Petrobras.

A empresa se tornaria posteriormente uma das maiores companhias de energia do mundo.

O Estado como indutor

A experiência brasileira passou a mostrar uma característica importante:

O Estado não precisava necessariamente produzir tudo.

Poderia criar condições para que outras empresas produzissem.

Poderia investir em infraestrutura.

Financiar projetos.

Criar instituições.

Regular mercados.

Formar trabalhadores.

Estimular setores estratégicos.

Essa função é conhecida como Estado indutor do desenvolvimento.

Capital privado e capital público

O desenvolvimento brasileiro passou a combinar diferentes formas de capital.

Capital privado nacional.

Capital estrangeiro.

Capital estatal.

Cada um possuía funções diferentes.

O capital privado podia empreender e assumir riscos.

O capital estrangeiro podia trazer tecnologia e recursos.

O Estado podia investir em setores estratégicos e infraestrutura.

A questão central era como combinar esses elementos.

O conflito ideológico

Essa combinação também produziu conflitos.

Havia aqueles que defendiam maior abertura ao capital estrangeiro.

Outros defendiam maior controle nacional sobre setores estratégicos.

Alguns defendiam maior participação do Estado.

Outros defendiam maior liberdade para a iniciativa privada.

Essas divergências não desapareceram.

Continuam presentes no debate econômico brasileiro.

A democracia entra na equação

Depois do Estado Novo, o Brasil voltou à democracia.

O debate econômico passou a acontecer também dentro das instituições democráticas.

Partidos políticos.

Congresso.

Imprensa.

Sindicatos.

Empresários.

Movimentos sociais.

Universidades.

A disputa sobre o modelo de desenvolvimento tornou-se uma disputa política nacional.

Juscelino Kubitschek

Em 1956, Juscelino Kubitschek assumiu a Presidência.

Seu governo adotou uma estratégia de aceleração do desenvolvimento conhecida principalmente pelo Plano de Metas.

A ideia era avançar rapidamente em áreas consideradas essenciais.

Energia.

Transporte.

Alimentação.

Indústria de base.

Educação.

E havia um objetivo simbólico e territorial:

construir Brasília.

Cinquenta anos em cinco

O lema de Juscelino sintetizava a intenção de acelerar a transformação econômica.

O país deveria crescer rapidamente.

A indústria automobilística foi ampliada.

Rodovias foram construídas.

A produção de energia cresceu.

Novos investimentos chegaram.

A urbanização acelerou.

O Brasil entrou definitivamente em uma etapa de industrialização mais complexa.

Brasília

A construção de Brasília não foi apenas uma obra arquitetônica.

Representava uma concepção geopolítica.

Transferir a capital para o interior pretendia estimular a integração territorial e deslocar parte da dinâmica nacional para além do litoral.

A nova capital tornou-se símbolo da modernização brasileira.

Mas também revelou os enormes desafios de construir infraestrutura em um território continental.

O automóvel e a nova economia

A indústria automobilística tornou-se um dos símbolos do período.

Mas sua importância ultrapassava os automóveis.

Uma montadora mobiliza uma enorme cadeia produtiva:

aço + borracha + vidro + componentes + máquinas + logística + engenharia + serviços.

A industrialização cria redes.

Uma indústria pode gerar atividade econômica em dezenas ou centenas de empresas relacionadas.

A urbanização

Com a industrialização, milhões de brasileiros passaram a migrar para as cidades.

A cidade tornou-se o centro da vida econômica.

Mas a urbanização foi mais rápida do que a capacidade de oferecer infraestrutura adequada.

Surgiram problemas de:

habitação + transporte + saneamento + saúde + educação + emprego.

O desenvolvimento econômico produzia novas oportunidades, mas também novos desafios.

O trabalhador urbano

A industrialização também ampliou a importância do trabalhador urbano.

O trabalhador passou a ser peça fundamental da economia industrial e, simultaneamente, consumidor do mercado interno.

Isso criou uma relação importante:

mais emprego industrial → mais renda → mais consumo → mais produção.

O mercado interno tornou-se uma força econômica cada vez mais relevante.

O limite do crescimento

Mas o crescimento acelerado também produziu desequilíbrios.

A inflação aumentou.

A dívida pública cresceu.

As desigualdades permaneceram.

O desenvolvimento regional continuou desigual.

A industrialização não resolveu automaticamente os problemas sociais.

Mais uma vez, a história demonstrava:

crescimento econômico e desenvolvimento social não são sinônimos.

O Brasil moderno começa a tomar forma

Ao final dos anos 1950, o país já era muito diferente daquele Brasil predominantemente agrário do início do século.

A indústria possuía maior importância.

As cidades cresciam.

A infraestrutura se expandia.

O Estado possuía maior capacidade de planejamento.

O mercado interno era maior.

A sociedade estava mais complexa.

Mas as antigas estruturas não haviam desaparecido.

A concentração também mudou

Antes, a concentração de poder econômico estava muito associada à terra.

Agora também estava associada a:

indústrias + bancos + grandes empresas + infraestrutura + contratos + tecnologia.

A elite econômica brasileira havia se diversificado.

O poder deixava de ser predominantemente rural.

Tornava-se também empresarial e urbano.

E a questão agrária?

Enquanto o Brasil se industrializava, a estrutura fundiária continuava concentrada.

Esse contraste criava uma tensão.

De um lado:

industrialização + urbanização + modernização.

De outro:

concentração da terra + pobreza rural + conflitos agrários.

A questão agrária não desapareceu com a industrialização.

Ela ganhou novas dimensões.

O campo também precisava se modernizar

A agricultura começou a incorporar máquinas, fertilizantes, novas técnicas e tecnologias.

Mas a modernização não ocorreu igualmente em todas as propriedades.

Grandes produtores tinham maior capacidade de investir.

Pequenos agricultores frequentemente enfrentavam dificuldades de acesso a crédito, assistência técnica e mercados.

A produtividade podia aumentar sem que os benefícios fossem distribuídos da mesma maneira.

A educação volta ao centro

E aqui retomamos o capítulo anterior.

A industrialização precisava de trabalhadores qualificados.

A modernização agrícola precisava de conhecimento.

O Estado precisava formar técnicos.

A economia precisava de engenheiros.

As cidades precisavam de professores, médicos e profissionais especializados.

A expansão econômica colocava a educação novamente diante de uma questão:

quem terá condições de participar da nova economia?

Brizola e o desenvolvimento humano

É nesse contexto que a trajetória de Brizola ganha novo significado.

Seu projeto educacional não surgiu isoladamente.

Fazia parte de uma visão segundo a qual desenvolvimento nacional não deveria significar apenas construir estradas, fábricas e usinas.

Era necessário também construir capacidade humana.

Essa diferença é fundamental.

Uma nação pode possuir infraestrutura moderna.

Mas, se não possuir pessoas preparadas para utilizá-la, administrá-la e aperfeiçoá-la, sua capacidade de desenvolvimento ficará limitada.

O Estado desenvolvimentista

Entre as décadas de 1930 e 1970, consolidou-se no Brasil uma forte tradição desenvolvimentista.

Ela defendia, em diferentes versões:

industrialização + infraestrutura + planejamento + mercado interno + Estado ativo.

Não havia uma única forma de desenvolvimentismo.

Existiam diferentes correntes e diferentes projetos.

Mas havia uma preocupação comum:

como acelerar a transformação econômica de um país ainda marcado pelo subdesenvolvimento?

O golpe de 1964

Em 1964, o Brasil entrou em um regime militar que duraria até 1985.

A mudança política interrompeu o processo democrático.

Mas o projeto de modernização econômica não foi abandonado.

Ao contrário.

O Estado ampliou ainda mais sua capacidade de planejamento e investimento.

Grandes obras e grandes empresas estatais ganharam importância.

O chamado Milagre Econômico

Entre o final dos anos 1960 e início dos anos 1970, o Brasil apresentou taxas elevadas de crescimento econômico.

A indústria expandiu.

A infraestrutura cresceu.

O consumo aumentou.

Grandes projetos foram realizados.

Mas o crescimento ocorreu sob um regime autoritário e não eliminou desigualdades.

Essa experiência novamente demonstra que:

um país pode crescer rapidamente sem distribuir igualmente os frutos desse crescimento.

A crise do petróleo

Na década de 1970, a crise internacional do petróleo alterou profundamente o cenário.

O preço do petróleo subiu.

Os custos aumentaram.

O Brasil dependia fortemente de petróleo importado.

A vulnerabilidade energética tornou-se evidente.

O país precisava encontrar alternativas.

Energia como questão estratégica

A partir daí, a política energética ganhou importância ainda maior.

Hidrelétricas.

Petróleo.

Etanol.

Energia nuclear.

Posteriormente:

solar + eólica + biomassa.

A energia passou a ser compreendida não apenas como insumo econômico, mas como elemento de segurança nacional e competitividade.

O fim do ciclo desenvolvimentista

A crise da dívida externa nos anos 1980 marcou o fim de uma etapa.

O Estado brasileiro possuía grandes investimentos e empresas, mas também acumulava desequilíbrios financeiros.

A inflação tornou-se um problema central.

O país entrou em uma fase de dificuldades econômicas.

A industrialização havia avançado enormemente.

Mas o modelo precisava ser reorganizado.

A redemocratização

Em 1985, o Brasil voltou ao governo civil.

Em 1988, uma nova Constituição reorganizou direitos, instituições e responsabilidades do Estado.

O país entrava em outra etapa.

O debate econômico passou a incluir novas questões:

estabilidade monetária + responsabilidade fiscal + abertura econômica + privatizações + proteção social + competitividade.

O Plano Real

Na década de 1990, a estabilização da moeda modificou profundamente a economia brasileira.

A inflação, que durante anos corroera salários e dificultara o planejamento das famílias e empresas, foi controlada.

A estabilidade monetária criou novas condições para consumo, investimento e planejamento.

A economia brasileira entrava definitivamente em uma fase mais integrada ao mercado global.

O novo capitalismo brasileiro

A partir daí, a estrutura econômica brasileira tornou-se ainda mais diversificada.

Grandes empresas nacionais passaram a atuar internacionalmente.

Bancos se modernizaram.

Empresas estrangeiras ampliaram sua presença.

O setor de serviços cresceu.

A tecnologia começou a ganhar espaço.

O agronegócio tornou-se cada vez mais sofisticado.

O Brasil passou a combinar:

agricultura moderna + indústria + serviços + finanças + tecnologia.

E chegamos novamente à pergunta inicial

Quem controla a terra, o capital e os meios de produção possui maior capacidade de influenciar a economia.

Mas agora precisamos acrescentar:

quem controla conhecimento, tecnologia, infraestrutura e informação também possui enorme capacidade de influência.

O poder econômico brasileiro deixou de ser predominantemente fundiário.

Tornou-se múltiplo.

A grande transformação

Podemos agora visualizar uma longa sequência histórica:

Sesmarias → grandes propriedades → economia escravista → café → capital comercial → industrialização → Estado desenvolvimentista → urbanização → globalização → economia tecnológica.

Não houve uma ruptura absoluta entre cada etapa.

Houve transformação.

Cada período herdou elementos do anterior e acrescentou novos.

A pergunta que permanece

O Brasil conseguiu se industrializar.

Urbanizou-se.

Construiu infraestrutura.

Criou grandes empresas.

Desenvolveu ciência.

Ampliou a educação.

Estabilizou sua moeda.

Integra-se cada vez mais à economia mundial.

Mas ainda enfrenta uma questão que acompanha nossa história desde a formação da propriedade da terra:

como transformar crescimento econômico em oportunidade amplamente acessível?

Essa pergunta nos conduz ao próximo momento.

Porque depois da construção do Estado desenvolvimentista e da industrialização, o Brasil entraria em uma nova era:

a globalização, a abertura econômica, a revolução tecnológica e a transformação do próprio conceito de capital.

E, nessa nova etapa, a disputa deixaria de acontecer apenas em torno da terra e das fábricas.

Passaria também a acontecer em torno de mercados financeiros, tecnologia, dados, inovação e conhecimento.

Continua.

Parte XIV - O sertão, o coronelismo e o poder fora dos grandes centros

 

A história brasileira não aconteceu apenas nas capitais, nos palácios, nas fábricas e nos grandes centros econômicos.

Durante séculos, uma parte fundamental da formação do país ocorreu em regiões distantes dos principais centros de decisão.

O sertão nordestino é um desses espaços.

Ali, as relações entre terra, trabalho, autoridade, pobreza, violência e poder assumiram características próprias.

Para compreender essa realidade, é necessário voltar ao período em que a República brasileira ainda era predominantemente rural.

Um Brasil profundamente desigual

No final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, o Brasil já havia abolido a escravidão e proclamado a República.

Mas a modernização política não significava que as condições de vida fossem iguais em todo o território.

Grande parte da população rural continuava vivendo com poucos recursos.

O acesso à educação era limitado.

As distâncias eram enormes.

As instituições do Estado tinham presença desigual.

E, em muitas regiões, as relações locais dependiam fortemente dos grandes proprietários.

É nesse ambiente que o coronelismo ganhou força.

O poder do coronel

O coronel era uma figura de poder local, geralmente associada às elites rurais.

Sua influência podia envolver:

terra + trabalho + crédito + proteção + relações políticas + controle eleitoral.

O poder não vinha apenas da propriedade.

Vinha também da capacidade de estabelecer relações de dependência.

Em regiões onde o Estado estava pouco presente, o grande proprietário podia funcionar como intermediário entre a população e as autoridades.

A política dos municípios

A política brasileira da Primeira República era profundamente marcada pelas estruturas locais.

O município era um espaço fundamental de disputa.

Quem controlava as relações econômicas locais podia possuir influência sobre:

eleições;

nomeações;

autoridades;

contratos;

acesso a serviços;

relações comerciais.

A política nacional dependia, em grande medida, dessas redes locais.

O sertão

O sertão apresentava condições ainda mais difíceis.

Grandes distâncias.

Secas periódicas.

Infraestrutura limitada.

Baixa presença do Estado.

Pobreza.

Concentração fundiária.

Conflitos entre famílias e grupos locais.

A sobrevivência dependia muitas vezes de redes de parentesco, trabalho, proteção e solidariedade.

A violência também fazia parte desse cenário.

A seca e a vulnerabilidade

A seca não pode ser tratada como causa única dos problemas sociais do sertão.

Mas agravava situações de pobreza e insegurança.

Quando faltava água e a produção agrícola era prejudicada, famílias inteiras podiam perder suas fontes de renda.

A migração aumentava.

A dependência dos grandes proprietários podia crescer.

A disputa por recursos tornava-se ainda mais difícil.

Isso demonstra como clima, economia e estrutura social podem se combinar.

O sertão não era um espaço sem economia

É importante evitar outra simplificação.

O sertão não era simplesmente uma região de pobreza.

Existiam atividades econômicas.

Criação de gado.

Agricultura.

Comércio.

Feiras.

Produção artesanal.

Rotas comerciais.

Pequenas cidades.

Grandes propriedades.

O problema estava na desigualdade das condições econômicas e na fragilidade das instituições em determinadas regiões.

A violência como instrumento de poder

Em algumas áreas, conflitos privados podiam assumir proporções muito grandes.

Disputas entre famílias.

Questões de honra.

Conflitos por terra.

Dívidas.

Rivalidades políticas.

Vinganças.

A ausência ou fragilidade da presença estatal podia fazer com que determinados conflitos fossem resolvidos pela força.

Surgiam então as chamadas vinganças privadas e guerras de famílias.

O poder local podia possuir também uma dimensão armada.

O cangaço

É nesse contexto que aparece o fenômeno do cangaço.

O cangaço não pode ser explicado por uma única causa.

Não foi simplesmente uma revolta social.

Também não foi apenas criminalidade comum.

Foi um fenômeno complexo, que envolveu violência, conflitos locais, relações de proteção, pobreza, disputas políticas e circunstâncias específicas do sertão nordestino.

Diferentes grupos de cangaceiros tiveram trajetórias distintas.

Lampião

Entre os personagens mais conhecidos desse universo está Virgulino Ferreira da Silva, Lampião.

Nascido em 1898, Lampião entrou para o cangaço na década de 1920 e tornou-se seu personagem mais famoso.

Sua trajetória ocorreu em um sertão marcado por conflitos, desigualdades e disputas entre grupos locais.

Lampião morreu em 1938, na Grota do Angico, em Sergipe.

Sua história posteriormente adquiriu dimensões que ultrapassaram a própria realidade do cangaço.

O personagem histórico e o personagem da memória

Lampião tornou-se personagem de literatura, cinema, música, cordel e cultura popular.

Por isso, é necessário separar duas coisas:

o Lampião histórico

e

o Lampião construído pela memória cultural.

O primeiro esteve envolvido em crimes, saques, sequestros e mortes.

O segundo passou a representar, para diferentes grupos, imagens diversas:

rebelde;

justiceiro;

bandido;

símbolo do sertão;

personagem mítico.

Nenhuma dessas imagens isoladamente explica sua trajetória.

Lampião não era um revolucionário moderno

Também é importante evitar uma interpretação anacrônica.

Lampião não pode ser colocado simplesmente como um líder revolucionário no sentido político contemporâneo.

Seu grupo não apresentou um projeto nacional de transformação econômica ou de reorganização institucional do Brasil.

O cangaço operava dentro de uma realidade muito específica.

Sua lógica estava ligada a sobrevivência, vingança, poder, proteção, violência e relações locais.

A relação com os coronéis

Outro aspecto importante é que o cangaço não existia completamente separado das estruturas políticas locais.

Em determinados momentos e lugares, grupos de cangaceiros estabeleceram relações com coronéis, autoridades e outros grupos de poder.

Essas relações podiam envolver proteção, informações, armas, dinheiro ou interesses políticos.

Isso revela uma contradição importante:

o mesmo ambiente que produzia violência também podia produzir alianças entre diferentes formas de poder.

O poder não estava apenas no Estado

Essa realidade ajuda a compreender uma característica da formação brasileira.

Em determinadas regiões, o poder efetivo não estava concentrado exclusivamente nas instituições oficiais.

Podia estar distribuído entre:

Estado + grandes proprietários + famílias locais + grupos armados + comerciantes + lideranças políticas.

A autoridade formal e a autoridade real nem sempre coincidiam completamente.

O território como instrumento de poder

Mais uma vez, a terra aparece.

Quem conhecia o território possuía uma vantagem.

Quem controlava propriedades possuía recursos.

Quem controlava caminhos podia controlar deslocamentos.

Quem tinha acesso a água e alimentos possuía influência.

Quem possuía armas tinha capacidade de impor decisões.

No sertão, território e poder estavam profundamente relacionados.

O contraste com o Brasil urbano

Enquanto o sertão vivia essas relações, as grandes cidades brasileiras passavam por transformações completamente diferentes.

São Paulo crescia com a industrialização.

O Rio de Janeiro modernizava sua estrutura urbana.

Ferrovias ampliavam a integração territorial.

Novas fábricas surgiam.

O mercado consumidor crescia.

O Brasil começava a se transformar em uma sociedade urbana e industrial.

Mas essas duas realidades coexistiam.

Dois Brasis?

Seria exagerado dizer que existiam simplesmente “dois Brasis”.

O país era muito mais complexo.

Existiam cidades industriais.

Regiões agrícolas.

Áreas de mineração.

Portos comerciais.

Pequenos municípios.

Comunidades rurais.

Grandes propriedades.

Territórios indígenas.

Amazônia.

Sertão.

Sul agrícola.

Cada região possuía estruturas econômicas diferentes.

Essa diversidade é uma das características fundamentais da formação brasileira.

A integração territorial

O grande desafio passou a ser integrar essas diferentes regiões.

Estradas.

Ferrovias.

Energia.

Comunicações.

Mercados.

Educação.

Serviços públicos.

Quanto mais o território fosse integrado, menor seria a dependência de estruturas exclusivamente locais.

A modernização econômica também era uma forma de ampliar a presença do Estado e do mercado.

A mudança do poder

Ao longo do século XX, a urbanização e a industrialização modificaram profundamente essa realidade.

O poder econômico começou a se concentrar também nas cidades.

Bancos ganharam importância.

Indústrias cresceram.

Sindicatos se organizaram.

Partidos políticos se fortaleceram.

O Estado ampliou sua presença.

O coronelismo tradicional começou a perder espaço.

Mas não desapareceu tudo

As antigas relações de poder não simplesmente desapareceram.

Muitas foram transformadas.

Algumas famílias tradicionais continuaram influentes.

Redes políticas locais permaneceram.

A propriedade rural continuou importante.

Novas elites surgiram.

O Brasil mudou, mas não apagou completamente suas estruturas anteriores.

O fim do cangaço

A morte de Lampião, em 1938, ocorreu durante o Estado Novo de Getúlio Vargas.

O governo Vargas havia ampliado a capacidade do Estado e buscava fortalecer o controle territorial.

As forças policiais intensificaram o combate aos grupos de cangaceiros.

Após a morte de Lampião, Maria Bonita e vários integrantes do grupo, o cangaço perdeu parte importante de sua força.

Outros grupos ainda existiram por algum tempo.

Mas o fenômeno entrou em declínio.

A modernização chega ao sertão

O desaparecimento do cangaço não significou o fim dos problemas do sertão.

Persistiam:

pobreza;

concentração fundiária;

baixa escolarização;

dificuldades de acesso à água;

infraestrutura insuficiente;

desigualdade econômica.

A diferença é que o Estado e a economia nacional começaram gradualmente a integrar essas regiões de maneira mais intensa.

O papel das políticas públicas

Ao longo do século XX, políticas de infraestrutura, açudagem, irrigação, educação, saúde, crédito rural e integração regional começaram a modificar partes do Nordeste.

Os resultados foram diferentes conforme as regiões.

Mas uma mudança importante ocorreu:

o desenvolvimento passou a ser pensado também como integração territorial.

Da violência à política

Existe aqui uma passagem importante.

Quando o Estado é frágil e as oportunidades econômicas são extremamente desiguais, conflitos podem assumir formas violentas.

Quando instituições se fortalecem, educação se amplia e oportunidades econômicas crescem, parte desses conflitos pode migrar para outros espaços:

a política + os sindicatos + as associações + os partidos + os movimentos sociais.

A sociedade passa a disputar poder por meios institucionais.

É nesse ponto que Brizola retorna

A trajetória de Leonel Brizola pertence a outro Brasil.

Não ao Brasil do cangaço.

Não ao Brasil das vinganças entre famílias.

Não ao Brasil das disputas armadas do sertão.

Brizola atuou dentro da política institucional e construiu sua trajetória por meio de eleições, partidos, governos e debates públicos.

A comparação com Lampião, portanto, deve ser feita com extremo cuidado.

Lampião e Brizola: uma semelhança possível

Se existe alguma semelhança histórica entre os dois, ela não está em suas ações, ideologias ou métodos.

Está em um aspecto mais abstrato:

ambos se tornaram símbolos de disputas relacionadas ao poder e à resistência dentro de contextos de forte conflito social.

Mas os caminhos foram radicalmente diferentes.

Lampião atuou no universo do cangaço e da violência armada.

Brizola atuou na política institucional.

Lampião pertence ao sertão das primeiras décadas do século XX.

Brizola pertence ao Brasil industrial, urbano e político da segunda metade do século XX.

Confundir os dois seria apagar justamente as diferenças que tornam a história interessante.

A verdadeira conexão histórica

A conexão mais importante está no processo de transformação do Brasil.

Do poder local baseado na terra e nas armas, o país caminhou progressivamente para instituições mais complexas:

Estado + eleições + partidos + sindicatos + empresas + imprensa + universidades + movimentos sociais.

A disputa pelo poder não desapareceu.

Mudaram os instrumentos.

Da violência à representação

Essa transformação é uma das grandes passagens da história brasileira.

Em sociedades com instituições frágeis, o poder pode depender fortemente da força.

Em sociedades institucionalizadas, o poder passa a ser disputado por:

votos + leis + partidos + opinião pública + organizações + capital + conhecimento.

Isso não significa que a violência desapareça.

Significa que ela deixa de ser o principal instrumento legítimo de disputa política.

A modernização incompleta

O Brasil chegou ao século XXI com instituições muito mais complexas do que aquelas existentes no início da República.

Mas ainda possui desigualdades históricas.

Ainda existem diferenças enormes de patrimônio.

Ainda existem regiões com infraestrutura insuficiente.

Ainda existem dificuldades de acesso à educação e ao crédito.

Ainda existem disputas pela terra.

Ainda existem relações de dependência política em diferentes níveis.

A modernização foi profunda.

Mas não foi completa.

A pergunta volta novamente

Se no passado o poder dependia fortemente da terra, das relações locais e, em determinados contextos, da força, quais são hoje os instrumentos de poder?

A resposta nos leva novamente ao caminho que percorremos:

capital + empresas + instituições + tecnologia + informação + conhecimento + capacidade de organização.

O poder mudou de forma.

O sertão também mudou

O sertão contemporâneo não pode ser confundido com o sertão de Lampião.

Hoje existem universidades.

Institutos federais.

Agricultura irrigada.

Empresas.

Tecnologia.

Energia solar.

Novas cadeias produtivas.

Cidades em expansão.

Profissionais altamente qualificados.

Empreendedores.

O Nordeste também possui polos tecnológicos e industriais.

A região mudou profundamente.

A história não deve aprisionar o território

Essa talvez seja uma das maiores lições.

Uma região não precisa permanecer definida pelas dificuldades de seu passado.

O sertão não é condenado à pobreza.

O campo não é condenado ao atraso.

A periferia não é condenada à exclusão.

A história cria condições.

Mas políticas, instituições, conhecimento, infraestrutura e iniciativa humana podem transformá-las.

Do território à oportunidade

Voltamos, novamente, ao conceito que atravessa toda esta série.

Oportunidade.

Quando existe acesso a educação, infraestrutura, crédito, tecnologia e mercados, o território pode transformar sua própria realidade.

O que antes era distância pode tornar-se conexão.

O que antes era isolamento pode tornar-se mercado.

O que antes era vulnerabilidade pode transformar-se em potencial produtivo.

A grande passagem

O Brasil passou por diferentes formas de poder:

senhores de terra → coronéis → empresários → industriais → banqueiros → grandes corporações → empresas de tecnologia.

Nenhuma dessas figuras explica sozinha o país.

Elas fazem parte de diferentes momentos de uma longa transformação.

E a transformação ainda está acontecendo.

O próximo passo

Depois de compreender a formação da propriedade, o coronelismo, o sertão, o cangaço, a industrialização e a educação, falta entrar em uma das maiores mudanças da história brasileira:

a construção de um Estado nacional capaz de planejar, financiar e executar grandes projetos de desenvolvimento.

É nesse momento que personagens como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e outros protagonistas do desenvolvimento brasileiro precisam ser analisados dentro de uma mesma linha histórica.

Não como heróis ou vilões.

Mas como representantes de diferentes respostas para uma pergunta que acompanha o Brasil há séculos:

como transformar um território enorme, desigual e rico em recursos em uma nação economicamente integrada e capaz de oferecer oportunidades à sua população?

Continua.

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