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"Inspirado em Heidegger, Brincadeira Sustentável (por Renata Bravo) não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser digerida, vivida e incorporada."

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Parte XVIII - Educação, conhecimento e a construção das oportunidades


A história econômica brasileira chegou a uma conclusão inevitável.

Se os meios de produção mudaram, a capacidade de participar deles também precisou mudar.

A terra foi, durante séculos, um dos principais instrumentos de riqueza.

Depois vieram as fábricas, as máquinas, a infraestrutura, o capital financeiro e a tecnologia.

Agora, conhecimento e inovação ocupam posição cada vez mais estratégica.

Isso coloca a educação no centro da questão econômica.

Não apenas como direito social.

Não apenas como instrumento de cidadania.

Mas também como infraestrutura fundamental para o desenvolvimento de um país.

A educação como meio de produção

Uma estrada permite transportar mercadorias.

Uma usina produz energia.

Uma ferrovia movimenta produtos.

Uma fábrica transforma matéria-prima.

A educação produz algo diferente:

capacidade humana.

Ela prepara pessoas para compreender, criar, trabalhar, administrar, pesquisar, empreender e transformar a realidade.

Por isso, uma sociedade que não consegue formar adequadamente sua população encontra dificuldades para utilizar plenamente seus próprios recursos.

Pode possuir petróleo.

Mas precisará de engenheiros.

Pode possuir terras férteis.

Mas precisará de conhecimento agrícola.

Pode possuir empresas.

Mas precisará de trabalhadores qualificados.

Pode possuir tecnologia.

Mas precisará de pessoas capazes de desenvolvê-la e utilizá-la.

Da alfabetização à economia do conhecimento

No passado, saber ler e escrever já representava uma grande vantagem.

Com a industrialização, tornou-se necessário compreender máquinas, processos e cálculos.

Na economia tecnológica, novas competências passaram a ser necessárias:

ciência + matemática + tecnologia + comunicação + criatividade + pensamento crítico.

A inteligência artificial acrescenta outra exigência:

capacidade de aprender continuamente.

O conhecimento adquirido hoje pode não ser suficiente para toda a vida profissional.

A escola como espaço de preparação

A escola não deve simplesmente antecipar uma profissão.

Sua função é mais ampla.

Precisa formar pessoas capazes de compreender o mundo e continuar aprendendo.

Isso inclui conhecimento científico.

Mas também inclui:

arte + cultura + ética + convivência + criatividade + responsabilidade + autonomia.

Uma economia tecnologicamente avançada precisa de pessoas tecnicamente preparadas.

Mas uma sociedade democrática precisa também de pessoas capazes de pensar e participar.

A importância da infância

É durante a infância que muitas capacidades fundamentais começam a se desenvolver.

Curiosidade.

Linguagem.

Imaginação.

Coordenação.

Socialização.

Capacidade de resolver problemas.

A criança aprende experimentando.

Pergunta.

Observa.

Cria.

Erra.

Tenta novamente.

Esse processo não é contrário ao conhecimento.

É uma das formas pelas quais o conhecimento começa a ser construído.

Brincar também produz conhecimento

A brincadeira pode parecer distante da economia.

Mas, quando observamos cuidadosamente, encontramos nela diversas capacidades fundamentais para a vida adulta.

Uma criança que constrói uma estrutura aprende equilíbrio e proporção.

Que organiza uma brincadeira aprende regras e negociação.

Que cria uma história desenvolve linguagem e imaginação.

Que brinca coletivamente aprende cooperação.

Que resolve um desafio desenvolve raciocínio.

O brincar não substitui o ensino sistemático.

Mas pode complementar a aprendizagem de maneira poderosa.

A cultura também é infraestrutura

Existe outra dimensão frequentemente esquecida.

Uma sociedade não é construída apenas por máquinas e estradas.

Também é construída por:

memória + linguagem + arte + patrimônio + música + literatura + identidade cultural.

A cultura produz pertencimento.

E pertencimento também possui dimensão econômica.

Cidades com patrimônio cultural, criatividade e identidade podem desenvolver turismo, artesanato, produção cultural e economia criativa.

A economia criativa

No século XXI, ideias podem transformar-se em produtos.

Uma música pode gerar renda.

Um livro pode gerar direitos autorais.

Uma ilustração pode tornar-se uma marca.

Um projeto cultural pode movimentar profissionais.

Um jogo pode tornar-se uma empresa.

Um conteúdo educacional pode alcançar milhares de pessoas.

O conhecimento deixa de ser apenas instrumento para produzir bens físicos.

Ele próprio pode tornar-se produto econômico.

O capital cultural

Isso amplia novamente o conceito de patrimônio.

Uma família pode transmitir patrimônio financeiro.

Pode transmitir imóveis.

Pode transmitir uma empresa.

Mas também pode transmitir conhecimento.

Livros.

Educação.

Experiências.

Referências culturais.

Redes de relacionamento.

Capacidade profissional.

Esse patrimônio não aparece necessariamente nos registros de propriedade.

Mas pode influenciar profundamente as oportunidades de uma pessoa.

A desigualdade começa antes do mercado

Quando duas pessoas chegam ao mercado de trabalho com formações completamente diferentes, a desigualdade não começou naquele momento.

Ela foi construída ao longo de anos.

Acesso à escola.

Qualidade da educação.

Alimentação.

Transporte.

Ambiente familiar.

Tecnologia.

Livros.

Cultura.

Tempo disponível para estudar.

Tudo isso pode influenciar a formação de capacidades.

Por isso, discutir igualdade de oportunidades exige olhar para muito antes do primeiro emprego.

Educação não significa uniformidade

Ampliar oportunidades não significa exigir que todos tenham exatamente o mesmo caminho.

As pessoas possuem talentos, interesses e capacidades diferentes.

Uma sociedade saudável pode oferecer diferentes trajetórias:

universidade + formação técnica + empreendedorismo + agricultura + indústria + arte + pesquisa + serviços.

O importante é que a escolha não seja determinada apenas pela falta de oportunidades.

Formação técnica e profissional

Uma economia industrial precisa de técnicos.

Uma economia digital também.

Eletricistas.

Mecânicos.

Técnicos em automação.

Profissionais de informática.

Especialistas em energia.

Técnicos agrícolas.

Profissionais de saúde.

A formação profissional pode abrir caminhos importantes para a mobilidade econômica.

Nem todo desenvolvimento precisa passar exclusivamente pela universidade.

Universidade e pesquisa

Ao mesmo tempo, universidades são fundamentais para a produção de conhecimento avançado.

Ciência básica.

Medicina.

Engenharia.

Biotecnologia.

Computação.

Agronomia.

Energia.

Materiais.

Economia.

As descobertas científicas de hoje podem gerar tecnologias e empresas no futuro.

Por isso, pesquisa não deve ser vista apenas como despesa.

É também investimento de longo prazo.

O problema do tempo

Existe uma característica particular do investimento educacional.

Uma estrada pode ser inaugurada e utilizada imediatamente.

Uma usina pode começar a produzir energia.

Uma fábrica pode começar a produzir mercadorias.

Mas uma criança educada hoje produzirá grande parte de seus resultados econômicos décadas depois.

Isso exige visão de longo prazo.

Políticas educacionais não podem ser pensadas apenas em ciclos eleitorais.

O professor

Nesse processo, o professor ocupa uma posição central.

Tecnologia pode fornecer informações.

Pode produzir exercícios.

Pode auxiliar no planejamento.

Pode ajudar na personalização da aprendizagem.

Mas o professor continua tendo uma função que ultrapassa a transmissão de conteúdo.

Ele orienta.

Interpreta.

Estimula.

Observa dificuldades.

Ajuda a construir confiança.

Ensina a conviver.

A tecnologia pode ampliar o trabalho docente.

Não precisa necessariamente substituí-lo.

A inteligência artificial na escola

A inteligência artificial poderá transformar a educação.

Pode ajudar a adaptar atividades.

Explicar conceitos de diferentes maneiras.

Criar materiais.

Apoiar estudantes com necessidades específicas.

Auxiliar professores.

Mas existe um risco.

Se utilizada sem orientação, pode substituir justamente aquilo que a educação precisa desenvolver:

o pensamento próprio.

O objetivo não deve ser formar pessoas que saibam pedir respostas às máquinas.

Deve ser formar pessoas que saibam questionar as respostas das máquinas.

Inclusão

Uma sociedade que deseja ampliar oportunidades precisa considerar também aqueles que aprendem de maneiras diferentes.

A inclusão não significa simplesmente colocar todos no mesmo espaço.

Significa criar condições para que diferentes pessoas possam participar.

Recursos visuais.

Tecnologias assistivas.

Materiais adaptados.

Ambientes acessíveis.

Diferentes formas de avaliação.

Estratégias pedagógicas variadas.

A diversidade humana precisa ser considerada na construção da educação.

A tecnologia pode democratizar o acesso

Uma aula pode alcançar estudantes de diferentes regiões.

Um livro digital pode atravessar distâncias.

Uma biblioteca virtual pode disponibilizar milhares de obras.

Cursos podem chegar a lugares onde antes não existiam determinadas oportunidades.

A tecnologia pode reduzir barreiras geográficas.

Mas existe uma condição:

é preciso ter acesso à própria tecnologia.

A desigualdade digital

Ter internet não significa necessariamente possuir as mesmas oportunidades.

A qualidade da conexão importa.

O equipamento importa.

O ambiente de estudo importa.

A formação digital importa.

Uma pessoa que possui computador, internet rápida, espaço adequado e orientação pode utilizar a tecnologia de maneira muito diferente daquela que possui apenas um celular com acesso limitado.

Por isso, inclusão digital precisa significar mais do que simplesmente conectar pessoas.

O crédito e a educação

Existe ainda uma relação entre educação e capital.

Uma pessoa qualificada pode ter maior capacidade de obter emprego.

Pode aumentar sua renda.

Pode empreender.

Pode administrar melhor seus recursos.

Pode compreender oportunidades de investimento.

Pode utilizar crédito de maneira mais consciente.

A educação econômica também pode contribuir para a formação de patrimônio.

Educação financeira

Em uma economia na qual o crédito, os investimentos e os serviços financeiros estão cada vez mais acessíveis, compreender dinheiro tornou-se importante.

É necessário saber:

planejar + poupar + comparar + avaliar riscos + compreender juros + evitar endividamento excessivo.

A educação financeira não deve significar simplesmente ensinar a acumular dinheiro.

Deve ensinar a tomar decisões econômicas responsáveis.

O patrimônio começa pequeno

A formação de patrimônio não precisa começar com grandes investimentos.

Pode começar com:

conhecimento + profissão + poupança + organização financeira.

Depois pode transformar-se em:

moradia + negócio + investimento + propriedade produtiva.

A mobilidade social muitas vezes acontece por etapas.

O empreendedor

O empreendedorismo também pode participar desse processo.

Uma pessoa pode transformar conhecimento em um pequeno negócio.

Mas empreender não significa simplesmente abrir uma empresa.

É necessário:

mercado + planejamento + capital + conhecimento + gestão + capacidade de adaptação.

Sem essas condições, o empreendedorismo pode transformar-se apenas em sobrevivência.

Com elas, pode tornar-se instrumento de crescimento.

A pequena empresa

As pequenas empresas possuem importância enorme na economia brasileira.

Elas geram empregos.

Movimentam cidades.

Prestam serviços.

Produzem bens.

Criam soluções locais.

Muitas grandes empresas começaram pequenas.

Por isso, ampliar o acesso a crédito, tecnologia, capacitação e mercados pode fortalecer o ambiente empresarial.

A relação entre pequeno e grande

Uma economia não precisa escolher entre pequenas e grandes empresas.

Grandes empresas possuem capacidade de investimento e escala.

Pequenas empresas podem possuir flexibilidade, proximidade com consumidores e capacidade de inovação.

Cooperativas também podem unir pequenos produtores.

O desenvolvimento pode surgir justamente da interação entre diferentes escalas.

O campo e a educação

A educação rural possui importância especial.

O agricultor contemporâneo precisa compreender mercado, clima, tecnologia, custos, logística e sustentabilidade.

A propriedade rural tornou-se uma unidade econômica complexa.

A assistência técnica pode ajudar a transformar conhecimento científico em produtividade.

Isso aproxima novamente:

ciência + campo + tecnologia + produção.

O conhecimento transforma a terra

A terra continua sendo terra.

Mas uma mesma área pode produzir resultados muito diferentes dependendo do conhecimento utilizado.

Irrigação.

Manejo do solo.

Melhoramento genético.

Tecnologia de sementes.

Agricultura de precisão.

Armazenamento.

Logística.

Gestão financeira.

A produtividade depende cada vez mais de conhecimento.

O Brasil precisa formar para o próprio território

O país possui desafios específicos.

Não basta reproduzir modelos educacionais pensados para outras realidades.

É necessário formar profissionais capazes de trabalhar com:

Amazônia + Cerrado + Semiárido + Pantanal + áreas costeiras + grandes cidades + regiões industriais + agricultura familiar + agronegócio.

A diversidade territorial brasileira pode ser transformada em vantagem quando acompanhada de conhecimento.

Ciência e soberania

Um país que não produz conhecimento estratégico pode depender permanentemente de outros países.

Isso vale para:

medicamentos + energia + tecnologia + defesa + agricultura + indústria.

A educação científica, portanto, também é uma questão de soberania.

A grande ponte

Podemos agora conectar os capítulos anteriores.

A terra exigiu trabalhadores.

A indústria exigiu técnicos.

A economia moderna exigiu profissionais especializados.

A economia digital exige conhecimento tecnológico.

A inteligência artificial exige capacidade de aprender e interpretar.

A cada transformação econômica, a sociedade precisa ampliar sua capacidade humana.

A questão da oportunidade

Voltamos, então, à pergunta que atravessa toda a série:

quem consegue participar da produção de riqueza?

Se o conhecimento é um dos principais meios de produção do século XXI, o acesso ao conhecimento passa a ser uma questão econômica.

Não significa que todos terão os mesmos resultados.

Significa que mais pessoas devem ter condições reais de desenvolver suas capacidades.

A educação como investimento nacional

Quando uma criança aprende, não é apenas ela que se beneficia.

A sociedade também ganha.

Um profissional qualificado aumenta a produtividade.

Um pesquisador pode criar uma tecnologia.

Um agricultor pode produzir melhor.

Um empreendedor pode gerar empregos.

Um professor forma outras pessoas.

Existe um efeito multiplicador.

O futuro do capitalismo

O capitalismo continuará se transformando.

Não sabemos exatamente quais profissões existirão daqui a algumas décadas.

Não sabemos quais tecnologias dominarão determinados setores.

Mas podemos identificar uma tendência:

a capacidade de aprender será cada vez mais valiosa.

O patrimônio econômico do futuro será formado não apenas por bens materiais.

Também será formado por capacidade humana.

Uma nova leitura da desigualdade

A desigualdade do futuro poderá ser menos visível.

Não estará apenas na diferença entre quem possui uma fazenda e quem não possui.

Nem apenas entre quem possui uma fábrica e quem trabalha nela.

Poderá estar entre quem possui acesso a:

boa educação + tecnologia + dados + capital + redes + conhecimento

e quem não possui.

Essa diferença pode determinar oportunidades econômicas durante décadas.

A grande responsabilidade

Por isso, democratizar oportunidades no século XXI não significa simplesmente distribuir recursos.

É preciso ampliar a capacidade das pessoas de criar valor.

Isso envolve:

educação + saúde + cultura + ciência + tecnologia + infraestrutura + crédito + segurança jurídica.

São condições que permitem que indivíduos e comunidades participem da economia.

Da distribuição à criação de oportunidades

Essa distinção é fundamental.

Uma sociedade pode discutir como distribuir a riqueza existente.

Mas também precisa discutir como ampliar a capacidade de produzir nova riqueza.

Se mais pessoas puderem produzir, empreender, inovar e acumular patrimônio, a economia poderá crescer de maneira mais ampla.

A questão não é apenas dividir o bolo.

É também aumentar a capacidade de produzir o bolo.

O legado das gerações

Cada geração recebe estruturas construídas pelas anteriores.

Recebe estradas.

Escolas.

Universidades.

Empresas.

Instituições.

Tecnologias.

Conhecimentos.

Também recebe problemas não resolvidos.

A responsabilidade de uma geração é transmitir às seguintes condições melhores do que aquelas que recebeu.

A infância como começo do desenvolvimento

É por isso que a questão econômica volta à infância.

Antes de existir o trabalhador, existe a criança.

Antes de existir o empreendedor, existe a criança.

Antes de existir o cientista, existe a criança.

Antes de existir o agricultor, o engenheiro, o professor ou o artista, existe uma criança que precisa ter oportunidade de desenvolver suas capacidades.

Investir na infância é, portanto, investir no futuro econômico e cultural do país.

O Brasil diante da próxima geração

O Brasil possui recursos suficientes para construir um futuro mais próspero.

Mas recursos naturais não produzem desenvolvimento sozinhos.

É preciso transformar:

terra em produção + energia em atividade econômica + conhecimento em inovação + educação em capacidade + tecnologia em produtividade.

Essa transformação depende de pessoas.

A tese se amplia

No começo desta série, quatro elementos organizavam nossa interpretação:

terra + capital + trabalho + poder.

Depois acrescentamos:

conhecimento.

Agora podemos acrescentar outro elemento:

capacidade humana.

Porque conhecimento só se transforma em desenvolvimento quando pessoas conseguem utilizá-lo.

A nova equação

Podemos então formular uma nova equação para o desenvolvimento brasileiro:

terra + capital + trabalho + conhecimento + tecnologia + educação + instituições = capacidade de desenvolvimento.

Nenhum desses elementos funciona isoladamente.

A terra precisa de trabalho e conhecimento.

O capital precisa de oportunidades de investimento.

A tecnologia precisa de pessoas qualificadas.

A indústria precisa de energia e infraestrutura.

A ciência precisa de educação.

A democracia precisa de cidadãos capazes de compreender e participar.

O verdadeiro capital do futuro

Talvez a maior transformação desta longa história seja justamente esta:

durante séculos, sociedades discutiram quem possuía a terra.

Depois, quem controlava as fábricas.

Depois, quem controlava o capital financeiro.

Hoje, precisamos discutir também quem possui capacidade de produzir conhecimento.

Mas existe algo ainda mais profundo.

O conhecimento pode ser criado novamente.

Uma criança que aprende pode produzir conhecimento que ainda não existe.

Um pesquisador pode descobrir algo novo.

Um inventor pode criar uma tecnologia.

Um artista pode criar uma linguagem.

Um empreendedor pode criar um novo mercado.

Por isso, o investimento mais estratégico de um país pode ser justamente aquele que amplia sua capacidade de criar.

A próxima etapa da história

A história brasileira entrou no século XXI com enormes desafios, mas também com possibilidades inéditas.

O país não precisa abandonar aquilo que construiu.

Precisa transformar suas bases.

A agricultura pode tornar-se ainda mais tecnológica.

A indústria pode incorporar inovação.

A energia pode tornar-se mais limpa.

As cidades podem tornar-se mais inteligentes.

A educação pode utilizar novas ferramentas.

A ciência pode aproximar-se das empresas.

A cultura pode gerar novos negócios.

E a inteligência artificial pode ampliar a produtividade.

Mas tudo isso dependerá de uma condição:

formar pessoas capazes de construir esse futuro.

E é justamente aqui que a nossa longa trajetória histórica encontra uma questão que não é apenas econômica.

É civilizatória:

que tipo de sociedade queremos deixar para a próxima geração?

Porque, depois de séculos discutindo quem possui a terra, quem controla o capital e quem domina os meios de produção, talvez a pergunta mais importante do século XXI seja outra:

quem terá a oportunidade de aprender, criar e participar da construção do futuro?

Continua.

Parte XVII - A inteligência artificial e a nova transformação do trabalho


A história econômica brasileira chegou a uma nova fronteira.

Depois da terra, das fábricas, das máquinas, da energia, das finanças e da informática, outro elemento passou a ocupar posição estratégica:

a inteligência artificial.

Ela não surgiu isoladamente.

É resultado de uma longa trajetória de acumulação de conhecimento.

A industrialização criou máquinas capazes de substituir parte do esforço físico.

A informática passou a processar informações em velocidade cada vez maior.

A internet conectou pessoas, empresas e mercados.

A computação em nuvem ampliou a capacidade de armazenamento e processamento.

Agora, a inteligência artificial começa a atuar sobre atividades que antes dependiam diretamente da capacidade humana de analisar informações, reconhecer padrões, produzir textos, imagens, códigos e tomar determinadas decisões.

A transformação, portanto, não é apenas tecnológica.

É também econômica, educacional e social.

Da máquina que substitui o braço à máquina que auxilia a mente

Durante a Revolução Industrial, uma das grandes mudanças foi a substituição de determinadas formas de trabalho manual por máquinas.

Uma máquina podia produzir mais rapidamente do que um trabalhador isolado.

Mas ainda precisava ser operada por pessoas.

Com a informática, outra etapa começou.

Computadores passaram a realizar cálculos, armazenar informações e executar tarefas repetitivas.

A inteligência artificial acrescenta uma nova dimensão.

Sistemas podem identificar padrões em grandes volumes de dados e executar tarefas que anteriormente exigiam determinadas capacidades cognitivas humanas.

A diferença é significativa.

A máquina deixa de atuar apenas sobre a força física.

Passa a atuar também sobre informação e conhecimento.

O conhecimento como capital

No início desta série, vimos como a terra representava uma das principais bases da riqueza.

Depois, o capital industrial ganhou importância.

Máquinas, fábricas e infraestrutura passaram a determinar a capacidade produtiva.

Posteriormente, conhecimento, tecnologia e propriedade intelectual ganharam espaço.

Agora, a inteligência artificial pode ampliar ainda mais o valor econômico do conhecimento.

Uma empresa que possui bons dados, capacidade computacional, profissionais qualificados e tecnologia pode produzir em escala muito maior.

Isso cria uma nova forma de concentração econômica.

Quem possui a tecnologia?

Essa pergunta é fundamental.

A inteligência artificial exige infraestrutura.

São necessários:

computadores + chips + energia + centros de processamento + dados + software + pesquisadores + capital.

Portanto, embora a ferramenta possa parecer acessível ao usuário final, sua estrutura econômica é altamente sofisticada.

Poucas empresas e países possuem capacidade de desenvolver os sistemas mais avançados em escala global.

Surge novamente uma questão que acompanha toda a história econômica:

quem controla os instrumentos de produção possui maior capacidade de influenciar a economia.

A diferença é que o instrumento agora pode ser digital.

A nova infraestrutura

Durante o século XX, países construíram estradas, ferrovias, portos, hidrelétricas e redes de telecomunicações.

No século XXI, uma nova infraestrutura passou a ser indispensável:

internet + centros de dados + redes de comunicação + computação + energia.

Sem essa infraestrutura, a economia digital não consegue funcionar adequadamente.

A infraestrutura física continua necessária.

Mas passou a existir uma infraestrutura digital sobre ela.

Energia e inteligência artificial

Existe uma relação direta entre tecnologia e energia.

Centros de processamento consomem eletricidade.

Quanto maior a capacidade computacional necessária, maior a importância de uma matriz energética confiável.

Isso recoloca o Brasil diante de uma vantagem estratégica.

O país possui grande potencial hidrelétrico, solar, eólico e de biomassa.

Mas possuir energia não basta.

É necessário transformar essa vantagem em infraestrutura, competitividade e capacidade tecnológica.

O Brasil diante da nova revolução

O Brasil possui características que podem favorecer sua participação nessa transformação.

Grande mercado consumidor.

Universidades.

Centros de pesquisa.

Empresas de tecnologia.

Agricultura altamente tecnificada.

Indústria diversificada.

Sistema financeiro desenvolvido.

Matriz energética com forte presença de fontes renováveis.

Mas existem obstáculos.

Formação educacional desigual.

Infraestrutura digital desigual.

Baixa intensidade de pesquisa em determinados setores.

Dependência de componentes tecnológicos importados.

E dificuldade de transformar conhecimento científico em produtos e empresas de grande escala.

A educação muda novamente de papel

Em uma economia baseada na força física, era possível entrar em determinadas atividades com pouca escolarização.

Na economia industrial, tornou-se necessário dominar máquinas e processos.

Na economia digital, tornou-se necessário dominar informação e tecnologia.

Na economia da inteligência artificial, a capacidade de aprender continuamente pode se tornar ainda mais importante.

A educação não pode preparar uma pessoa apenas para uma profissão.

Precisa prepará-la para uma realidade em constante transformação.

A escola diante da inteligência artificial

A escola não perde importância diante da inteligência artificial.

Sua função pode, inclusive, tornar-se ainda mais importante.

Se uma máquina consegue fornecer respostas rapidamente, a educação precisa ensinar o estudante a:

formular perguntas + avaliar informações + reconhecer erros + interpretar contextos + argumentar + criar.

O conhecimento não pode ser reduzido à memorização de respostas.

A capacidade de pensar passa a ser ainda mais valiosa.

Informação não é conhecimento

Essa distinção será fundamental.

A inteligência artificial pode produzir informações.

Mas informação não é necessariamente conhecimento.

Conhecimento exige:

contexto + interpretação + experiência + análise + responsabilidade.

Uma ferramenta pode produzir uma resposta aparentemente correta e ainda assim estar errada.

Por isso, quanto maior a capacidade das máquinas de produzir conteúdo, maior a necessidade humana de desenvolver senso crítico.

O trabalhador diante da IA

A discussão sobre inteligência artificial costuma começar com uma pergunta:

quantos empregos serão eliminados?

A pergunta é importante.

Mas talvez seja insuficiente.

Historicamente, novas tecnologias também criaram novas atividades.

A máquina de escrever modificou o trabalho administrativo.

O computador eliminou algumas funções e criou outras.

A internet transformou profissões inteiras.

A inteligência artificial provavelmente seguirá caminho semelhante.

Algumas tarefas serão automatizadas.

Outras serão transformadas.

Novas profissões surgirão.

E muitas ocupações passarão a utilizar IA como ferramenta.

O trabalho humano não desaparece automaticamente

Uma tecnologia pode executar uma tarefa sem necessariamente substituir toda a profissão.

Um médico pode utilizar inteligência artificial para analisar informações.

Um professor pode utilizá-la para preparar materiais.

Um agricultor pode utilizá-la para analisar dados de produção.

Um engenheiro pode utilizá-la para simular projetos.

Um advogado pode utilizá-la para organizar documentos.

O trabalho pode mudar sem desaparecer.

A questão será descobrir quais capacidades humanas permanecem indispensáveis.

Criatividade e julgamento

Entre essas capacidades estão:

criatividade + julgamento + responsabilidade + empatia + capacidade de negociação + compreensão social.

Uma máquina pode produzir inúmeras possibilidades.

Mas alguém precisa decidir qual delas é adequada.

Esse processo envolve valores.

E valores não podem ser tratados apenas como cálculos.

A agricultura do futuro

No campo, a inteligência artificial poderá ampliar uma transformação que já começou.

Sensores podem acompanhar condições do solo.

Satélites podem monitorar áreas agrícolas.

Sistemas podem identificar pragas.

Máquinas podem ajustar a aplicação de insumos.

Algoritmos podem analisar clima e produtividade.

A agricultura poderá tornar-se cada vez mais precisa.

Isso pode reduzir desperdícios e aumentar produtividade.

Mas existe uma condição:

o produtor precisa ter acesso à tecnologia.

O pequeno produtor

Essa questão é especialmente importante para a agricultura familiar.

Se somente grandes propriedades tiverem acesso às tecnologias mais avançadas, a inovação poderá aumentar diferenças existentes.

Mas se cooperativas, assistência técnica, políticas de crédito e serviços compartilhados ampliarem esse acesso, a tecnologia poderá funcionar de maneira diferente.

Uma pequena propriedade não precisa possuir individualmente todas as máquinas e sistemas.

Pode ter acesso a eles por meio de organizações coletivas e serviços especializados.

A inteligência artificial e o empreendedor

A tecnologia também pode reduzir algumas barreiras de entrada.

Uma pequena empresa pode utilizar ferramentas digitais para:

criar campanhas + analisar mercados + organizar documentos + atender clientes + desenvolver produtos + automatizar tarefas.

Isso não elimina a necessidade de capital.

Mas pode reduzir determinados custos de operação.

O conhecimento tecnológico passa a funcionar como uma espécie de multiplicador de produtividade.

O risco da concentração

Existe, entretanto, outro lado.

Se poucas empresas controlarem:

dados + modelos de inteligência artificial + infraestrutura + capacidade computacional,

elas poderão acumular enorme poder econômico.

Isso pode produzir uma concentração diferente daquela observada no passado.

Não será necessariamente concentração de terra.

Nem apenas concentração de fábricas.

Será concentração de capacidade tecnológica.

Da propriedade da terra à propriedade do conhecimento

Podemos visualizar novamente a trajetória:

terra → fábrica → capital financeiro → tecnologia → dados → inteligência artificial.

Cada etapa não elimina completamente a anterior.

A terra continua importante.

As fábricas continuam existindo.

O capital financeiro continua essencial.

Mas novos instrumentos de produção são acrescentados.

Essa é uma das características do capitalismo:

ele transforma continuamente os meios pelos quais a riqueza é produzida.

O capitalismo muda sem desaparecer

Essa observação é importante para a tese desta série.

O capitalismo brasileiro do século XXI não é igual ao capitalismo mercantil da época colonial.

Não é igual ao capitalismo agrário do Império.

Não é igual ao capitalismo industrial do século XX.

As instituições, tecnologias, mercados e relações de trabalho mudaram.

Mas permanece a lógica fundamental da propriedade, do investimento, da produção e da acumulação.

O sistema se transforma para incorporar novos meios de produção.

A questão da propriedade intelectual

No passado, uma grande propriedade rural podia representar patrimônio transmitido entre gerações.

Depois, uma fábrica ou empresa podia cumprir função semelhante.

Hoje, uma tecnologia, uma patente, uma marca ou uma plataforma digital também pode representar enorme patrimônio.

Isso muda a própria ideia de riqueza.

Uma empresa pode valer bilhões sem possuir grandes extensões de terra.

Seu principal patrimônio pode estar em:

software + marca + dados + tecnologia + propriedade intelectual + rede de usuários.

O patrimônio invisível

Essa é uma das grandes diferenças do século XXI.

Uma parte crescente do patrimônio pode ser invisível.

Não está necessariamente em um imóvel.

Não está necessariamente em uma máquina.

Pode estar em um código.

Em uma patente.

Em uma marca.

Em uma base de dados.

Em um algoritmo.

Em uma plataforma.

Isso torna a concentração econômica mais difícil de perceber.

A questão democrática

Quanto maior a importância da tecnologia na economia, maior a necessidade de discutir seu impacto sobre a democracia.

Quem controla plataformas pode influenciar informações.

Quem controla dados pode compreender comportamentos.

Quem controla tecnologias estratégicas pode possuir vantagens econômicas e geopolíticas.

Por isso, a discussão tecnológica também é uma discussão sobre poder.

Soberania tecnológica

No século XIX, soberania econômica estava relacionada ao controle de recursos e infraestrutura.

No século XX, energia e indústria passaram a ocupar posição estratégica.

No século XXI, acrescentamos:

chips + software + dados + inteligência artificial + infraestrutura digital.

Um país que depende completamente de tecnologias essenciais produzidas no exterior pode ficar vulnerável.

Por isso, soberania tecnológica começa a fazer parte da estratégia nacional.

O papel do Estado muda novamente

O Estado não precisa desenvolver sozinho todas as tecnologias.

Mas pode:

financiar pesquisa + formar profissionais + criar infraestrutura + estimular empresas + regular mercados + proteger direitos.

Mais uma vez, aparece a ideia de Estado indutor.

Não necessariamente como proprietário de toda a economia.

Mas como criador das condições para que a economia desenvolva capacidades estratégicas.

Universidades e empresas

Uma das grandes dificuldades brasileiras é aproximar:

universidade + ciência + empresa + mercado.

Produzir conhecimento científico é fundamental.

Mas também é necessário transformar parte desse conhecimento em:

tecnologias + produtos + empresas + empregos + exportações.

Essa conexão pode aumentar a capacidade de inovação do país.

A nova corrida internacional

Países passaram a disputar não apenas mercados.

Disputam também:

talentos + pesquisadores + chips + energia + centros de dados + empresas de tecnologia.

A inteligência artificial tornou-se uma questão geopolítica.

As maiores economias querem garantir capacidade própria.

O Brasil precisará decidir como participar dessa transformação.

A oportunidade brasileira

O país não precisa necessariamente competir em todas as áreas.

Pode identificar setores nos quais possui vantagens.

Agricultura.

Energia.

Biodiversidade.

Saúde.

Mineração.

Indústria.

Serviços financeiros.

Clima.

Logística.

A inteligência artificial pode ser aplicada a esses setores para aumentar produtividade e criar novas soluções.

Conhecimento aplicado ao território

Essa pode ser uma das maiores oportunidades brasileiras.

O país possui problemas complexos.

Território continental.

Desigualdades regionais.

Diversidade climática.

Grandes cidades.

Áreas rurais extensas.

Florestas.

Litoral.

Recursos hídricos.

Esses desafios também podem gerar oportunidades para inovação.

A questão ambiental

A tecnologia poderá contribuir para monitorar florestas, prever eventos climáticos, melhorar o uso da água e aumentar a eficiência agrícola.

Mas também pode aumentar o consumo de energia e recursos.

Mais uma vez, desenvolvimento e sustentabilidade precisam caminhar juntos.

A tecnologia não é automaticamente sustentável.

Depende de como é utilizada.

A nova desigualdade pode começar na infância

Existe aqui uma ligação importante com educação.

Uma criança que cresce com acesso à leitura, ciência, tecnologia, arte, natureza e estímulos intelectuais possui condições diferentes daquela que cresce sem acesso a esses recursos.

Isso não significa determinar o futuro de cada indivíduo.

Significa reconhecer que oportunidades são construídas desde cedo.

A educação pode funcionar como uma das principais formas de democratizar o acesso ao novo capital:

o conhecimento.

A grande transformação da nossa tese

No início desta série, perguntamos:

quem controla a terra, o capital e os meios de produção?

Agora precisamos ampliar a pergunta:

quem controla os meios de produzir conhecimento, tecnologia e inovação?

Essa é a questão econômica do século XXI.

O futuro não está determinado

A inteligência artificial não define sozinha o futuro.

As escolhas políticas, econômicas e sociais continuarão sendo humanas.

Podemos utilizar tecnologia para concentrar ainda mais riqueza.

Ou podemos utilizá-la para ampliar produtividade e oportunidades.

Podemos criar dependência tecnológica.

Ou desenvolver capacidade nacional.

Podemos substituir trabalhadores sem criar novas oportunidades.

Ou utilizar a tecnologia para aumentar a produtividade e qualificar o trabalho.

A tecnologia abre possibilidades.

A sociedade decide como utilizá-las.

A história chega novamente ao ponto de partida

A pergunta inicial era sobre propriedade.

Primeiro, a propriedade da terra.

Depois, a propriedade das fábricas e do capital.

Mais tarde, a propriedade intelectual e tecnológica.

Agora, a propriedade e o controle dos dados, da infraestrutura digital e da inteligência artificial.

A forma mudou.

O problema econômico permanece:

como garantir que a transformação dos meios de produção também amplie as oportunidades de participação?

Essa pergunta nos conduz à próxima etapa.

Porque existe uma transformação que atravessa todas as anteriores:

a formação do ser humano.

Se a economia do futuro depender cada vez mais de conhecimento, tecnologia e capacidade de adaptação, a educação deixará de ser apenas uma política social.

Ela se tornará uma das principais infraestruturas econômicas do país.

E é justamente aí que a nossa história volta à infância, à escola, à ciência e à capacidade de formar as pessoas que irão construir o próximo ciclo brasileiro.

Continua.

Parte XVI - A abertura econômica, a globalização e o novo capitalismo brasileiro


A industrialização havia transformado profundamente o Brasil.

O país que no início do século XX dependia fortemente das exportações agrícolas tornou-se uma economia urbana, industrializada e integrada a grandes cadeias produtivas.

Mas, a partir das últimas décadas do século XX, uma nova transformação começou a ganhar força.

O mundo estava mudando.

As tecnologias de comunicação avançavam.

O transporte internacional se tornava mais rápido.

O capital circulava com maior velocidade.

Empresas passaram a produzir em diferentes países.

E os mercados nacionais ficaram cada vez mais conectados.

O Brasil entrou em uma nova etapa:

a globalização.

Um mundo economicamente mais integrado

Durante boa parte do século XX, os países protegiam suas economias por meio de tarifas, controles de importação e políticas industriais nacionais.

Essas medidas ajudaram diferentes países a desenvolver suas indústrias.

Mas também podiam reduzir a concorrência e encarecer determinados produtos.

A partir das décadas de 1980 e 1990, ganhou força uma tendência de maior abertura comercial e financeira.

O Brasil também participou desse processo.

A abertura econômica

Nos anos 1990, o país reduziu barreiras à importação e aumentou sua integração com a economia internacional.

Produtos estrangeiros passaram a competir mais diretamente com produtos nacionais.

Empresas brasileiras foram obrigadas a aumentar sua produtividade.

Algumas conseguiram modernizar-se.

Outras perderam espaço.

Algumas desapareceram.

A competição internacional tornou-se uma realidade cotidiana.

A moeda estável muda a economia

A estabilização proporcionada pelo Plano Real, a partir de 1994, teve importância decisiva.

Durante décadas, a inflação elevada dificultava o planejamento.

O dinheiro perdia valor rapidamente.

Contratos precisavam ser constantemente reajustados.

Famílias de menor renda eram particularmente vulneráveis.

Com a estabilização, tornou-se mais possível planejar:

compras + investimentos + salários + financiamentos + empresas.

A estabilidade monetária passou a ser uma das bases da nova economia brasileira.

O consumidor ganha força

Com menor inflação, o mercado consumidor também se transformou.

O acesso a bens duráveis aumentou.

O crédito ganhou importância.

Empresas passaram a disputar consumidores de forma mais intensa.

A competição deixou de ocorrer apenas entre empresas nacionais.

Produtos importados também estavam presentes.

O consumidor passou a ter mais opções.

Mas também passou a depender cada vez mais de uma economia integrada aos fluxos internacionais.

O capital estrangeiro

A abertura econômica aumentou a entrada de capital estrangeiro.

Empresas internacionais passaram a investir no Brasil.

Algumas construíram fábricas.

Outras adquiriram empresas brasileiras.

Outras entraram em setores de serviços, comércio e tecnologia.

O capital estrangeiro trouxe:

investimentos + tecnologia + gestão + acesso a mercados internacionais.

Mas também produziu debates sobre soberania econômica e capacidade de decisão nacional.

A privatização

Durante os anos 1990, o Brasil também passou por um amplo processo de privatizações.

Empresas estatais de diferentes setores foram transferidas para a iniciativa privada.

Os defensores das privatizações argumentavam que a gestão privada poderia aumentar eficiência, reduzir a necessidade de investimentos públicos diretos e ampliar a concorrência.

Os críticos questionavam a perda de controle estatal sobre setores estratégicos e a forma como determinados ativos foram avaliados e transferidos.

Mais uma vez, a discussão não era simplesmente econômica.

Era também política.

A velha pergunta retorna

Qual deve ser o papel do Estado?

Deve possuir empresas?

Deve apenas regulá-las?

Deve investir diretamente?

Deve deixar o mercado organizar a maior parte da economia?

A história brasileira nunca produziu uma resposta definitiva.

E talvez não exista uma única resposta para todos os setores.

Setores estratégicos

Energia, petróleo, mineração, defesa, telecomunicações, infraestrutura e tecnologia possuem características diferentes.

Em alguns setores, a presença estatal pode ser considerada estratégica.

Em outros, a competição privada pode aumentar eficiência e inovação.

A questão central passa a ser:

qual modelo produz melhores resultados para a sociedade em cada situação?

Essa é uma pergunta mais complexa do que simplesmente escolher entre Estado e mercado.

A globalização transforma as empresas

Uma empresa brasileira já não precisa pensar apenas no mercado nacional.

Pode importar componentes.

Exportar produtos.

Captar recursos no exterior.

Abrir filiais em outros países.

Utilizar tecnologia estrangeira.

Competir internacionalmente.

O território nacional continua importante.

Mas a empresa passa a funcionar dentro de uma rede global.

As cadeias produtivas

Um produto aparentemente simples pode envolver dezenas de empresas e vários países.

Uma peça pode ser produzida na Ásia.

Outra na Europa.

O projeto pode ser desenvolvido nos Estados Unidos.

A montagem pode ocorrer no Brasil.

O produto pode ser vendido para consumidores de vários continentes.

Isso cria uma nova realidade:

a produção tornou-se global.

O Brasil diante dessa transformação

O país possui vantagens importantes para participar dessas cadeias.

Mercado consumidor.

Recursos naturais.

Agricultura.

Energia.

Indústria.

Mão de obra.

Infraestrutura em expansão.

Mas também enfrenta dificuldades.

Burocracia.

Custos logísticos.

Sistema tributário complexo.

Baixa produtividade em determinados setores.

Desigualdade educacional.

Deficiências de infraestrutura.

Esses fatores afetam a competitividade.

A questão tributária ganha nova dimensão

No início desta série, a reforma tributária apareceu relacionada à distribuição do financiamento do Estado.

Agora ela assume outra dimensão.

Em uma economia globalizada, o sistema tributário também afeta:

competitividade + investimento + produtividade + exportações + emprego.

Empresas podem decidir onde investir considerando custos, impostos, infraestrutura e segurança jurídica.

A tributação passou a fazer parte da competição internacional.

O trabalho também muda

A globalização modificou o mercado de trabalho.

Algumas atividades industriais foram automatizadas.

Outras foram transferidas para regiões com menores custos.

Novas profissões surgiram.

O setor de serviços cresceu.

A tecnologia passou a exigir novas qualificações.

O trabalhador passou a competir não apenas com outros trabalhadores de sua cidade ou país.

Em determinadas atividades, passou a competir em escala internacional.

O trabalhador conectado

A internet mudou essa realidade ainda mais.

Um profissional pode trabalhar para uma empresa localizada em outra cidade ou até outro país.

Programadores.

Designers.

Consultores.

Professores.

Tradutores.

Especialistas em tecnologia.

Profissionais criativos.

A localização física deixou de ser uma barreira absoluta para determinadas atividades.

Mas a tecnologia também cria desigualdades

Nem todos conseguem participar dessa nova economia.

Quem possui boa formação e acesso à tecnologia pode encontrar novas oportunidades.

Quem não possui essas condições pode enfrentar dificuldades maiores.

A diferença entre trabalhadores qualificados e pouco qualificados pode aumentar.

Mais uma vez, a educação retorna ao centro da questão.

A revolução digital

Nos anos 2000, a internet começou a transformar profundamente as relações econômicas.

Comércio eletrônico.

Redes sociais.

Serviços digitais.

Bancos eletrônicos.

Plataformas.

Aplicativos.

Economia sob demanda.

A empresa deixou de precisar necessariamente de uma grande estrutura física para alcançar milhões de consumidores.

O celular como instrumento econômico

A popularização dos smartphones acelerou essa transformação.

O telefone deixou de ser apenas um instrumento de comunicação.

Passou a ser:

banco + loja + carteira + escritório + escola + câmera + ferramenta de trabalho + acesso a serviços.

Para milhões de pessoas, o celular tornou-se uma porta de entrada para a economia digital.

O sistema financeiro também mudou

A digitalização transformou bancos e pagamentos.

Transações passaram a ser realizadas em segundos.

Pequenas empresas passaram a receber pagamentos eletrônicos.

Consumidores passaram a utilizar serviços financeiros digitais.

O sistema financeiro tornou-se mais acessível em alguns aspectos.

Mas também passou a depender cada vez mais de tecnologia e dados.

O surgimento das fintechs

Novas empresas financeiras começaram a competir com instituições tradicionais.

Elas utilizaram tecnologia para oferecer:

contas digitais + pagamentos + crédito + investimentos + serviços financeiros.

Isso aumentou a concorrência em partes do mercado.

Também mostrou como tecnologia pode alterar setores que durante décadas pareciam dominados por grandes instituições.

O capital se torna digital

O conceito de capital passou novamente por transformação.

Antes, capital podia ser:

terra + máquinas + fábricas + dinheiro.

Agora também pode incluir:

software + dados + algoritmos + marcas + patentes + plataformas.

Uma empresa pode possuir relativamente poucos ativos físicos e, ainda assim, possuir enorme valor econômico.

Os dados como recurso

Dados passaram a possuir valor estratégico.

Informações sobre consumidores podem ajudar empresas a compreender comportamentos, prever demandas e desenvolver produtos.

Isso cria uma nova forma de poder econômico.

Quem possui grandes quantidades de dados pode desenvolver vantagens competitivas.

Mas também surgem questões:

quem controla os dados?

quem pode utilizá-los?

como proteger a privacidade?

como impedir abusos?

A propriedade intelectual

Patentes, marcas e direitos autorais ganharam importância.

Uma empresa pode não possuir uma grande fábrica.

Mas pode possuir uma tecnologia que outras empresas precisam utilizar.

O valor está no conhecimento protegido.

Isso reforça uma transformação que já identificamos:

a propriedade econômica deixou de ser apenas física.

A agricultura entra definitivamente na era tecnológica

Enquanto a economia urbana se digitalizava, o campo também se transformava.

A agricultura brasileira passou a utilizar:

satélites + GPS + sensores + máquinas automatizadas + biotecnologia + análise de dados.

O produtor pode acompanhar condições do solo e do clima.

Pode calcular produtividade.

Pode utilizar máquinas com precisão.

Pode reduzir desperdícios.

A terra continua essencial.

Mas o conhecimento sobre a terra tornou-se igualmente importante.

O agronegócio

O agronegócio brasileiro tornou-se uma cadeia extremamente complexa.

Não envolve apenas o produtor rural.

Inclui:

sementes + fertilizantes + máquinas + crédito + produção + armazenamento + transporte + processamento + comércio + exportação.

A agricultura moderna tornou-se uma grande rede econômica.

Agricultura familiar e tecnologia

A agricultura familiar também pode participar dessa transformação.

Cooperativas podem compartilhar equipamentos.

Tecnologias digitais podem facilitar a comercialização.

Sistemas de informação podem melhorar o planejamento.

Assistência técnica pode utilizar ferramentas digitais.

O desafio continua sendo garantir acesso.

Tecnologia sem acesso pode aumentar a desigualdade.

Tecnologia acessível pode aumentar produtividade e autonomia.

A indústria brasileira diante da globalização

A indústria enfrentou uma nova realidade.

Não bastava produzir.

Era necessário produzir com qualidade, eficiência e competitividade internacional.

Automação e tecnologia passaram a ser indispensáveis.

Alguns setores avançaram significativamente.

Outros enfrentaram dificuldades.

O processo de desindustrialização passou a ser objeto de intenso debate econômico.

Indústria e valor agregado

A questão não é apenas possuir indústria.

É possuir indústrias capazes de produzir bens de maior valor agregado.

Quanto maior a complexidade tecnológica de um produto, maior pode ser o valor econômico gerado por sua cadeia.

Isso leva novamente à educação.

Para produzir tecnologia, é preciso formar pessoas capazes de desenvolvê-la.

A ciência como política econômica

Ciência deixou definitivamente de ser apenas uma atividade acadêmica.

Ela passou a ser parte da estratégia econômica.

Um país que desenvolve:

biotecnologia + inteligência artificial + novos materiais + energia + medicamentos + tecnologias agrícolas

pode criar novas empresas e novas cadeias produtivas.

Investir em ciência é investir também na capacidade futura de competir.

O Brasil possui uma vantagem particular

O país reúne características que poucos países possuem simultaneamente.

Grande território.

Biodiversidade.

Recursos minerais.

Agricultura.

Água.

Energia renovável.

Mercado interno.

Universidades.

Indústria.

Empresas de grande porte.

Essa combinação oferece enorme potencial.

Mas potencial não é resultado.

É necessário transformar potencial em produtividade.

A questão da infraestrutura

Rodovias.

Ferrovias.

Portos.

Aeroportos.

Energia.

Internet.

Saneamento.

Infraestrutura digital.

Tudo isso influencia a capacidade de uma economia competir.

Uma empresa pode possuir tecnologia avançada.

Mas, se não conseguir transportar seus produtos com eficiência, perderá competitividade.

O território continua importante

A globalização não eliminou a geografia.

Pelo contrário.

A localização continua influenciando custos e oportunidades.

Portos próximos às áreas produtoras podem reduzir custos.

Ferrovias podem ampliar competitividade.

Energia barata pode atrair indústrias.

Internet de qualidade pode atrair empresas de tecnologia.

A geografia continua sendo uma dimensão econômica fundamental.

A velha terra encontra o novo capital

Chegamos novamente ao ponto de partida.

A terra continua sendo um ativo.

Mas seu valor depende cada vez mais de:

infraestrutura + tecnologia + conhecimento + acesso ao mercado.

Uma propriedade rural próxima a uma boa infraestrutura possui condições diferentes de outra isolada.

Uma terra produtiva com tecnologia pode gerar muito mais valor.

O recurso natural permanece.

Mas o conhecimento transforma sua capacidade econômica.

A nova desigualdade

As desigualdades do século XXI não estão apenas relacionadas à renda.

Também envolvem:

acesso à educação + acesso à tecnologia + acesso ao crédito + acesso à infraestrutura + acesso a mercados.

Duas pessoas podem possuir a mesma capacidade de trabalho, mas oportunidades muito diferentes.

A distância entre elas pode começar antes mesmo de entrarem no mercado de trabalho.

O patrimônio novamente

Quem consegue acumular patrimônio possui maior capacidade de enfrentar crises.

Pode investir.

Pode empreender.

Pode financiar educação.

Pode ajudar os filhos.

Pode adquirir novos ativos.

O patrimônio produz segurança e também novas oportunidades.

Por isso, a discussão sobre mobilidade social não pode olhar apenas para salários.

Precisa olhar também para a capacidade de construir patrimônio.

Uma nova classe de empreendedores

A economia digital criou novas possibilidades.

Pequenos negócios podem alcançar mercados nacionais.

Empresas podem nascer com investimentos relativamente menores.

Profissionais podem trabalhar de maneira independente.

Criadores podem transformar conhecimento em produtos.

Mas a competição também aumentou.

A facilidade de entrar em determinado mercado pode significar facilidade semelhante para novos concorrentes.

O Estado continua necessário

A globalização não eliminou o Estado.

Ao contrário.

O Estado continua responsável por:

leis + segurança + infraestrutura + educação + regulação + políticas públicas + defesa + justiça.

A diferença é que agora precisa atuar em um ambiente muito mais conectado internacionalmente.

A soberania também mudou

No passado, soberania estava fortemente associada ao controle territorial.

Hoje, também envolve capacidade tecnológica.

Um país pode possuir território e recursos naturais, mas depender de tecnologias essenciais produzidas no exterior.

Isso cria vulnerabilidades.

Soberania contemporânea envolve também:

energia + alimentos + tecnologia + ciência + infraestrutura + capacidade industrial.

A pandemia mostrou essa vulnerabilidade

A pandemia de COVID-19 expôs a dependência de cadeias produtivas internacionais.

Produtos médicos.

Equipamentos.

Componentes industriais.

Medicamentos.

Vacinas.

A crise mostrou que eficiência econômica e segurança estratégica nem sempre são exatamente a mesma coisa.

Um país precisa participar do comércio internacional.

Mas também precisa possuir determinadas capacidades essenciais.

A nova ideia de segurança econômica

Segurança econômica passou a significar mais do que reservas financeiras.

Significa possuir capacidade de produzir ou garantir acesso a recursos fundamentais.

alimentos + energia + medicamentos + tecnologia + infraestrutura.

Essa discussão ganhou importância em vários países.

O Brasil também precisa enfrentá-la.

O equilíbrio

O desafio não é abandonar a globalização.

O comércio internacional trouxe benefícios enormes.

Exportações geram renda.

Importações permitem acesso a tecnologias.

Investimentos estrangeiros podem ampliar produção.

Empresas brasileiras podem conquistar mercados externos.

A questão é participar da globalização com capacidade própria.

O Brasil que queremos construir

Depois de séculos de transformação, o país possui condições para combinar:

mercado interno forte + exportações + indústria + agricultura + ciência + tecnologia + energia + educação.

Nenhum desses elementos precisa necessariamente excluir os outros.

O verdadeiro desafio está na complementaridade.

A grande mudança histórica

Na Colônia, a riqueza estava fortemente relacionada à terra e ao trabalho.

No século XIX, o comércio e o capital começaram a ganhar novas dimensões.

No século XX, indústria, energia e infraestrutura passaram ao centro.

No final do século XX, finanças e globalização ganharam força.

No século XXI:

tecnologia, dados, conhecimento e inovação passaram a ocupar posição estratégica.

Mas a pergunta original continua

Quem controla os meios de produção possui maior capacidade de influenciar a economia.

Só que os meios de produção mudaram.

Hoje precisamos perguntar:

quem controla a tecnologia?

quem possui acesso ao conhecimento?

quem controla dados e infraestrutura digital?

quem possui capital para inovar?

quem consegue transformar conhecimento em propriedade e patrimônio?

Essas perguntas são a continuação natural daquelas feitas no início desta série.

A história não se repete

O Brasil contemporâneo não é uma continuação literal do Brasil colonial.

Seria um erro histórico afirmar isso.

A escravidão acabou.

A economia se industrializou.

A sociedade se urbanizou.

A democracia foi reconstruída.

A educação se expandiu.

A tecnologia transformou a produção.

O país se integrou ao mundo.

Mas algumas questões estruturais continuam relevantes:

concentração de patrimônio, desigualdade de oportunidades, acesso ao capital, educação, infraestrutura e poder econômico.

As formas mudaram.

As perguntas permaneceram.

A próxima fronteira

E agora chegamos a uma transformação ainda mais recente.

A economia digital está sendo atravessada por uma tecnologia capaz de alterar novamente a relação entre conhecimento, trabalho e produção:

a inteligência artificial.

Ela pode modificar empresas.

Profissões.

Educação.

Agricultura.

Indústria.

Serviços.

Pesquisa.

Comunicação.

E até a maneira como o próprio conhecimento é produzido.

Se a Revolução Industrial substituiu parte do trabalho físico por máquinas, a revolução da inteligência artificial começa a atingir também tarefas cognitivas.

Isso nos coloca diante de uma nova pergunta:

o que acontecerá quando o conhecimento, que se tornou um dos principais meios de produção do século XXI, puder ser parcialmente ampliado e executado por máquinas?

Essa será a próxima etapa desta história.

Continua.

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