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"Inspirado em Heidegger, Brincadeira Sustentável (por Renata Bravo) não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser digerida, vivida e incorporada."

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Parte XXIV - A formação de uma sociedade de oportunidades


A história econômica brasileira chegou a um ponto em que a questão da propriedade precisa ser ampliada.

Durante séculos, falar em propriedade significava principalmente falar em terra.

Com a industrialização, passou-se a falar também em capital, empresas e máquinas.

Na economia contemporânea, a propriedade pode assumir formas ainda mais diversas:

imóveis, empresas, ações, conhecimento, marcas, patentes, tecnologia e ativos digitais.

Mas existe algo que permanece essencial:

a capacidade de uma pessoa transformar seu trabalho em patrimônio.

Essa talvez seja uma das melhores medidas da mobilidade econômica de uma sociedade.

Do trabalho ao patrimônio

Trabalhar é fundamental.

Mas trabalhar não significa necessariamente acumular patrimônio.

Uma pessoa pode trabalhar durante décadas e continuar sem uma reserva financeira, sem imóvel, sem investimentos e sem condições de transmitir segurança econômica aos filhos.

Por isso, a discussão sobre desenvolvimento precisa ir além do emprego.

É necessário perguntar:

o trabalho permite construir patrimônio?

Renda e patrimônio

Renda é aquilo que uma pessoa recebe ao longo do tempo.

Patrimônio é aquilo que ela consegue acumular.

Essa diferença é fundamental.

Uma sociedade pode aumentar a renda média e, ainda assim, manter grande concentração patrimonial.

Por outro lado, quando mais pessoas conseguem adquirir imóveis, poupar, investir ou construir negócios, ocorre uma transformação estrutural.

A propriedade deixa de ser privilégio de uma parcela muito pequena da sociedade.

A casa própria

A moradia é um dos exemplos mais claros.

Para muitas famílias, comprar uma casa representa a primeira grande forma de patrimônio.

Não é apenas um lugar para morar.

É também:

segurança + estabilidade + patrimônio + possibilidade de transmissão para a próxima geração.

Por isso, habitação possui dimensão econômica e social.

O pequeno negócio

Outra forma de patrimônio é a empresa.

Um pequeno comércio.

Uma oficina.

Uma propriedade rural produtiva.

Uma empresa de serviços.

Uma cooperativa.

Um empreendimento cultural.

Um negócio familiar.

Quando uma pessoa consegue construir uma atividade econômica sustentável, ela não está apenas gerando renda.

Está criando um ativo produtivo.

Empreendedorismo não é solução para tudo

É importante fazer uma distinção.

Nem todas as pessoas precisam ou desejam ser empreendedoras.

Uma economia saudável precisa de empresários, mas também precisa de trabalhadores, pesquisadores, professores, técnicos, artistas, profissionais liberais e servidores públicos.

O empreendedorismo é uma possibilidade de participação econômica.

Não deve ser tratado como obrigação individual.

O trabalhador qualificado

A formação profissional também pode produzir patrimônio de outra maneira.

Uma pessoa com conhecimentos especializados pode aumentar sua renda ao longo da vida.

Pode economizar.

Pode investir.

Pode abrir uma empresa.

Pode adquirir uma propriedade.

Pode financiar a educação dos filhos.

Nesse sentido, qualificação também pode ser uma forma de capital.

A educação como patrimônio invisível

Uma família pode não possuir terras.

Pode não possuir uma empresa.

Pode não possuir grandes recursos financeiros.

Mas pode investir na formação dos filhos.

Esse conhecimento acompanha a pessoa.

Pode ser utilizado em diferentes cidades e países.

Pode ser transformado em trabalho, inovação e renda.

É um patrimônio que não aparece em um registro imobiliário.

Mas possui enorme valor econômico.

Mobilidade entre gerações

Uma sociedade apresenta mobilidade social quando a condição econômica de uma geração não determina completamente a condição da geração seguinte.

Um filho de trabalhador pode tornar-se engenheiro.

Uma filha de agricultor pode tornar-se médica.

Um jovem de uma pequena cidade pode criar uma empresa tecnológica.

Uma família sem patrimônio pode construir uma casa e iniciar uma empresa.

Esses movimentos são sinais de mobilidade.

Mas a mobilidade não acontece sozinha

Ela depende de condições.

Educação.

Saúde.

Infraestrutura.

Segurança.

Crédito.

Mercados.

Transporte.

Tecnologia.

Instituições.

Sem essas condições, o esforço individual pode encontrar obstáculos muito maiores.

O mérito e o ponto de partida

Essa questão exige equilíbrio.

O esforço individual importa.

A capacidade também importa.

A disciplina, o conhecimento e a iniciativa podem produzir resultados.

Mas as condições iniciais também influenciam.

Duas pessoas podem trabalhar igualmente e obter resultados diferentes porque tiveram oportunidades diferentes.

Reconhecer isso não significa negar o mérito.

Significa compreender que mérito e oportunidade podem coexistir como fatores diferentes.

A questão do nascimento

É justamente aqui que a história do capitalismo encontra sua origem.

O capitalismo liberal surgiu associado à ideia de que a posição social não deveria ser determinada exclusivamente pelo nascimento.

A sociedade deveria permitir maior mobilidade.

Mas, ao longo do tempo, patrimônio e capital também passaram a ser transmitidos entre gerações.

A desigualdade deixou de ser apenas uma questão de nascimento aristocrático.

Passou a envolver também herança patrimonial.

Herança e continuidade

Uma família que possui patrimônio consegue oferecer aos filhos determinadas vantagens.

Melhor moradia.

Melhor educação.

Maior segurança.

Acesso a crédito.

Capital para abrir uma empresa.

Recursos para investir.

Isso não é necessariamente injusto.

A transmissão de patrimônio faz parte do direito de propriedade.

Mas produz um efeito econômico:

vantagens podem se acumular entre gerações.

A questão não é impedir a herança

O debate mais importante é outro.

Como garantir que a herança não seja a única maneira de construir patrimônio?

Uma sociedade dinâmica precisa permitir que também seja possível acumular riqueza por meio de:

trabalho + educação + empreendedorismo + poupança + investimento + inovação.

Essa é a essência da mobilidade econômica.

Uma sociedade de proprietários

Talvez uma das formas mais interessantes de pensar o desenvolvimento seja imaginar uma sociedade na qual um número cada vez maior de pessoas possua algum patrimônio.

Não necessariamente grandes fortunas.

Mas algum grau de propriedade.

Uma casa.

Uma pequena empresa.

Uma propriedade rural.

Investimentos.

Uma cooperativa.

Conhecimento profissional.

Propriedade intelectual.

A propriedade pode assumir diferentes escalas.

Pequenos proprietários e estabilidade

Uma população com maior patrimônio tende a possuir maior capacidade de enfrentar crises.

Uma reserva financeira pode evitar uma dívida.

Uma casa pode reduzir a insegurança habitacional.

Uma pequena empresa pode gerar renda familiar.

Uma propriedade rural pode garantir produção.

Um investimento pode financiar uma emergência.

Patrimônio funciona como uma espécie de proteção econômica.

O crédito pode acelerar esse processo

Poucas pessoas conseguem comprar uma casa ou abrir uma empresa apenas com dinheiro disponível imediatamente.

Por isso, o crédito é importante.

Ele permite antecipar uma aquisição ou investimento que será pago ao longo do tempo.

Mas o crédito precisa ser sustentável.

Quando os juros são excessivos ou a renda é insuficiente, o crédito pode transformar-se em endividamento.

Educação financeira

Por isso, educação financeira também faz parte da democratização econômica.

Saber:

poupar + comparar juros + avaliar riscos + planejar investimentos + evitar endividamento excessivo

pode fazer diferença ao longo de décadas.

Uma pequena diferença de comportamento financeiro, repetida por muitos anos, pode produzir resultados significativos.

O mercado de capitais

A propriedade também pode ser democratizada por meio dos mercados financeiros.

Uma pessoa não precisa necessariamente possuir uma grande empresa para participar de seus resultados.

Pode investir em ações ou outros ativos, dentro de sua capacidade financeira e considerando os riscos.

Isso cria uma forma diferente de participação na propriedade empresarial.

Mas investir exige conhecimento

A democratização financeira não significa eliminar riscos.

Investimentos podem perder valor.

Mercados oscilam.

Empresas podem fracassar.

Por isso, acesso precisa vir acompanhado de informação e educação.

A economia digital amplia possibilidades

A tecnologia também pode facilitar o acesso a serviços financeiros.

Contas digitais.

Pagamentos eletrônicos.

Plataformas de investimento.

Crédito digital.

Comércio eletrônico.

Essas ferramentas reduziram algumas barreiras.

Mas ainda existe desigualdade de acesso e de conhecimento.

O pequeno produtor

No campo, a questão assume outra forma.

Um pequeno produtor pode possuir terra, mas não possuir máquinas.

Pode produzir, mas não possuir armazenamento.

Pode ter produto, mas não conseguir negociar bons preços.

Pode ter conhecimento, mas não possuir acesso a tecnologia.

Por isso, propriedade precisa estar acompanhada de capacidade produtiva.

Cooperativismo

As cooperativas oferecem uma alternativa importante.

Pequenos produtores podem unir recursos para:

comprar insumos + utilizar equipamentos + armazenar produção + processar alimentos + negociar preços + acessar mercados.

A cooperação permite ganhar escala sem eliminar a propriedade individual.

O princípio da escala

Esse conceito é importante.

Grandes empresas possuem vantagens de escala.

Mas pequenos produtores também podem alcançar escala por meio da cooperação.

Assim, propriedade individual e organização coletiva não são necessariamente incompatíveis.

O campo do século XXI

A agricultura brasileira apresenta hoje uma combinação de modelos.

Grandes propriedades.

Médias propriedades.

Pequenas propriedades.

Agricultura familiar.

Cooperativas.

Agroindústrias.

Empresas altamente tecnificadas.

Assentamentos produtivos.

Não existe uma única realidade rural.

A questão urbana

Nas cidades, a estrutura também é diversificada.

Grandes corporações.

Pequenas empresas.

Microempreendedores.

Profissionais autônomos.

Trabalhadores assalariados.

Cooperativas.

Economia informal.

Economia criativa.

O desafio é permitir que diferentes formas de trabalho possam evoluir para maior produtividade e segurança econômica.

Formalização

A formalização pode ampliar acesso a:

crédito + proteção social + contratos + mercados + financiamento.

Mas a burocracia e os custos também podem dificultar a formalização de pequenos negócios.

Por isso, simplificar processos pode estimular a entrada de mais pessoas na economia formal.

A importância da segurança jurídica

Ninguém investe facilmente em um negócio quando não sabe se poderá manter seu patrimônio.

Contratos precisam ser respeitados.

Regras precisam ser relativamente previsíveis.

Direitos precisam ser protegidos.

A segurança jurídica reduz riscos.

A propriedade precisa de instituições

Esse ponto conecta o presente ao passado.

A propriedade não existe apenas porque alguém possui um bem.

Ela depende de instituições capazes de reconhecê-la e protegê-la.

Registro.

Contratos.

Tribunais.

Leis.

Fiscalização.

Sem essas estruturas, a propriedade torna-se vulnerável.

O Estado como garantidor das regras

O Estado possui uma função fundamental:

garantir as regras do jogo.

Não necessariamente possuir todos os meios de produção.

Mas assegurar que os contratos sejam respeitados, que a concorrência exista, que direitos sejam protegidos e que serviços essenciais sejam oferecidos.

O Estado como investidor estratégico

Ao mesmo tempo, existem áreas nas quais o investimento público pode ser decisivo.

Educação.

Ciência.

Infraestrutura.

Saneamento.

Pesquisa básica.

Defesa.

Energia.

Tecnologias estratégicas.

Essas áreas podem produzir benefícios que ultrapassam o retorno financeiro de uma empresa individual.

O setor privado como força produtiva

O setor privado, por sua vez, possui capacidade de assumir riscos, experimentar modelos, criar produtos e responder rapidamente às demandas.

A combinação entre os dois pode ser poderosa.

Estado cria condições.

Empresas investem.

Trabalhadores produzem.

Consumidores demandam.

Universidades pesquisam.

Instituições regulam.

É uma engrenagem.

O problema do excesso de concentração

Mas toda engrenagem pode apresentar desequilíbrios.

Quando poucas empresas dominam um mercado, a concorrência pode diminuir.

Quando poucos grupos possuem grande parte dos recursos, a influência econômica pode aumentar.

Quando poucas regiões concentram oportunidades, outras permanecem dependentes.

Por isso, políticas de concorrência e desenvolvimento regional continuam importantes.

A nova fronteira da igualdade

A igualdade do século XXI não precisa significar que todos terão o mesmo patrimônio.

Pode significar algo mais concreto:

que mais pessoas tenham condições reais de construir patrimônio.

Essa mudança de perspectiva é importante.

Em vez de perguntar apenas quanto alguns possuem, também devemos perguntar:

quantos conseguiram conquistar alguma propriedade?

O objetivo do desenvolvimento

Talvez desenvolvimento econômico possa ser definido de maneira simples:

aumentar a capacidade das pessoas de construir uma vida economicamente autônoma.

Autonomia não significa isolamento.

Significa possuir condições para fazer escolhas.

Escolher onde trabalhar.

Escolher onde morar.

Investir em educação.

Abrir um negócio.

Poupar.

Mudar de profissão.

Apoiar a família.

Planejar o futuro.

A liberdade econômica

Voltamos, então, à promessa apresentada na primeira parte.

O capitalismo surgiu associado à ideia de ampliar a liberdade individual diante das antigas estruturas de privilégio.

Séculos depois, a pergunta continua atual:

a liberdade formal tornou-se liberdade econômica efetiva para quantas pessoas?

Essa é uma das grandes questões do Brasil.

O Brasil que queremos construir

Talvez o objetivo não seja criar uma sociedade sem diferenças econômicas.

Isso seria incompatível com diferentes escolhas, capacidades, riscos e resultados.

O objetivo pode ser construir uma sociedade em que:

o esforço encontre oportunidade;

o conhecimento encontre espaço;

o trabalho possa gerar patrimônio;

a propriedade possa ser ampliada;

o empreendedorismo possa prosperar;

a inovação encontre capital;

e a liberdade tenha condições concretas para ser exercida.

A síntese da trajetória

A história que começou com a terra chegou ao conhecimento.

Começou com a propriedade rural.

Passou pelo comércio.

Chegou à indústria.

Passou pelas grandes empresas.

Chegou ao sistema financeiro.

Passou pela tecnologia.

Chegou aos dados e à inteligência artificial.

Em cada etapa, novos meios de produção apareceram.

E em cada etapa surgiu a mesma questão:

quem consegue acessá-los?

A próxima fronteira

Agora, o Brasil está diante de uma transformação que pode ser ainda mais profunda.

A inteligência artificial, a automação, a transição energética e a economia digital poderão modificar não apenas empresas e profissões.

Poderão modificar a própria estrutura social.

Algumas ocupações serão transformadas.

Novas profissões surgirão.

A produtividade poderá aumentar.

O capital poderá assumir novas formas.

O conhecimento poderá se tornar ainda mais valioso.

E a diferença entre quem possui acesso à tecnologia e quem não possui poderá se tornar uma nova forma de desigualdade.

Por isso, o próximo capítulo precisa enfrentar uma questão decisiva:

como preparar o Brasil para uma economia na qual conhecimento, tecnologia e inteligência artificial serão instrumentos fundamentais de produção?

Porque a história já demonstrou uma coisa:

quando os meios de produção mudam, a sociedade também muda.

E o Brasil está novamente diante de uma mudança dessa dimensão.

Continua.

Parte XXIII - A transformação do poder: da terra ao capital, do capital à informação


A história econômica brasileira também é uma história da transformação do poder.

Ao longo dos séculos, diferentes grupos adquiriram capacidade de influenciar decisões porque controlavam recursos considerados fundamentais em cada época.

Na sociedade colonial, a terra era um desses recursos.

Depois, o comércio e o capital ganharam importância.

Com a industrialização, surgiram grandes empresas e novos grupos econômicos.

No século XXI, tecnologia, informação e capacidade financeira passaram a exercer influência crescente.

Isso não significa que os antigos instrumentos de poder desapareceram.

Significa que novos instrumentos foram acrescentados.

O poder nunca esteve em um único lugar

É tentador procurar um único grupo responsável por controlar a economia brasileira.

Mas a realidade sempre foi mais complexa.

Durante a Colônia, havia proprietários rurais, comerciantes, autoridades da Coroa e grupos ligados ao comércio internacional.

Durante o Império, surgiram banqueiros, comerciantes, empresários e grandes produtores.

Na República, industriais, empresários urbanos, grupos financeiros e organizações trabalhistas ganharam importância.

Hoje, o poder econômico está distribuído entre empresas, investidores, instituições financeiras, produtores rurais, grupos tecnológicos, trabalhadores especializados e diferentes organizações da sociedade.

A estrutura tornou-se muito mais complexa.

Do senhor de terras ao empresário

A transformação da economia brasileira modificou também as elites econômicas.

O grande proprietário rural continuou importante.

Mas deixou de ser o único personagem econômico relevante.

O empresário industrial ganhou espaço.

O banqueiro tornou-se importante.

O executivo passou a administrar grandes corporações.

O profissional especializado adquiriu valor crescente.

O empreendedor tecnológico passou a criar empresas de enorme alcance.

A riqueza passou a assumir diferentes formas.

A propriedade mudou

No passado, a propriedade mais visível era a terra.

Hoje, patrimônio pode estar em:

imóveis + empresas + ações + títulos + marcas + patentes + tecnologia + dados.

Isso torna a concentração econômica menos evidente.

Uma pessoa pode não possuir grandes extensões de terra e, ainda assim, controlar enorme patrimônio.

Capital financeiro

O sistema financeiro possui papel central na economia moderna.

Ele conecta quem possui recursos com quem precisa investir.

Famílias podem poupar.

Empresas podem captar.

Governos podem financiar investimentos.

Bancos podem conceder crédito.

Mercados de capitais podem direcionar recursos para empresas.

Quando funciona adequadamente, o sistema financeiro ajuda a transformar poupança em investimento.

Mas o crédito não chega igualmente a todos

Esse é um dos problemas históricos que permanecem.

Grandes empresas normalmente possuem mais facilidade para acessar financiamento.

Pequenos negócios podem enfrentar maiores dificuldades.

Empreendedores sem patrimônio podem ter dificuldade para oferecer garantias.

A falta de crédito pode impedir que uma boa ideia se transforme em empresa.

Por isso, acesso ao capital continua sendo uma questão de oportunidade.

O poder das grandes empresas

Grandes empresas possuem vantagens.

Podem investir mais em pesquisa.

Podem negociar melhores condições.

Podem alcançar mercados internacionais.

Podem suportar períodos de crise.

Mas o tamanho também pode gerar concentração.

Se poucos grupos dominam determinado mercado, a concorrência pode diminuir.

Concorrência e inovação

A concorrência possui uma função importante.

Ela obriga empresas a buscar:

preços melhores + qualidade + eficiência + inovação.

Quando não existe concorrência suficiente, o incentivo para melhorar pode diminuir.

Por isso, uma economia dinâmica precisa de mercados competitivos.

O consumidor também possui poder

Existe uma dimensão frequentemente esquecida.

O consumidor participa da economia por meio de suas escolhas.

Quando escolhe um produto, direciona renda.

Quando muda de fornecedor, influencia empresas.

Quando valoriza sustentabilidade, pode modificar cadeias produtivas.

Quando exige qualidade, aumenta a pressão por inovação.

Milhões de escolhas individuais podem produzir efeitos econômicos coletivos.

O trabalhador também possui poder

O trabalhador não é apenas receptor de decisões econômicas.

Sua qualificação pode determinar o valor de seu trabalho.

Organização coletiva pode influenciar salários e condições de trabalho.

Conhecimento pode aumentar sua capacidade de negociação.

Em uma economia tecnológica, profissionais altamente qualificados podem tornar-se recursos estratégicos para empresas.

O poder do conhecimento

Essa é talvez a maior transformação.

Durante séculos, o poder econômico esteve fortemente associado à propriedade física.

Hoje, uma pessoa pode criar uma empresa global utilizando principalmente conhecimento.

Um programador pode desenvolver um software.

Um pesquisador pode criar uma tecnologia.

Um designer pode criar uma marca.

Um cientista pode desenvolver uma patente.

O conhecimento tornou-se um ativo econômico.

Mas conhecimento também pode se concentrar

Nem todos possuem acesso às mesmas escolas.

Nem todos possuem internet de qualidade.

Nem todos têm tempo para estudar.

Nem todos podem frequentar universidades.

Nem todos possuem equipamentos.

Portanto, a democratização do conhecimento é uma das grandes questões econômicas contemporâneas.

Educação como distribuição de capacidade

Talvez a educação seja uma das formas mais importantes de distribuir capacidade produtiva.

Uma propriedade pode ser transmitida.

Um patrimônio financeiro pode ser herdado.

Mas conhecimento também pode ser ampliado por meio da educação.

Quando uma criança aprende, a sociedade está aumentando seu estoque de capital humano.

Capital humano

O conceito de capital humano ajuda a compreender essa transformação.

Conhecimentos, habilidades e experiências aumentam a capacidade produtiva de uma pessoa.

Uma sociedade com grande quantidade de capital humano possui maior potencial para inovar.

Por isso, educação não é apenas gasto.

É investimento.

A informação

Além do conhecimento, a informação ganhou valor econômico.

Empresas precisam saber:

quem compra;

o que compra;

quando compra;

quanto está disposto a pagar;

como utiliza determinado produto.

Dados ajudam a responder essas perguntas.

O poder dos algoritmos

Algoritmos podem organizar enormes quantidades de informação.

Podem recomendar produtos.

Selecionar conteúdos.

Identificar padrões.

Otimizar rotas.

Detectar fraudes.

Ajudar diagnósticos.

Isso aumenta a eficiência.

Mas também cria novas formas de poder.

Quem controla algoritmos importantes pode influenciar comportamentos econômicos.

A informação e a democracia

A questão deixa de ser apenas econômica.

Informação também influencia a política.

As pessoas formam opiniões a partir do que veem.

As plataformas digitais selecionam conteúdos.

As redes sociais aceleram a circulação de informações.

Isso cria oportunidades de participação.

Mas também cria riscos de manipulação, desinformação e polarização.

A nova relação entre economia e política

Voltamos ao princípio desta série:

economia e política nunca estiveram completamente separadas.

Quem possui recursos pode influenciar decisões.

Mas, em uma democracia, essa influência precisa encontrar limites institucionais.

A política não pode ser simplesmente uma extensão do poder econômico.

Financiamento e influência

A relação entre dinheiro e política é uma questão delicada em qualquer democracia.

Empresas, grupos econômicos, organizações sociais e cidadãos possuem interesses legítimos.

Mas o sistema precisa impedir que o poder financeiro substitua a vontade popular.

Por isso existem regras eleitorais, transparência e mecanismos de fiscalização.

A democracia como equilíbrio

Democracia não significa ausência de conflitos de interesses.

Significa criar instituições capazes de administrar esses conflitos.

Empresários possuem interesses.

Trabalhadores possuem interesses.

Agricultores possuem interesses.

Consumidores possuem interesses.

Governos possuem responsabilidades.

A democracia cria mecanismos para que essas diferenças possam ser negociadas.

A história do Brasil demonstra essa tensão

Durante a República Velha, o poder econômico local podia influenciar eleições.

Durante a industrialização, empresários e trabalhadores passaram a disputar espaço político.

Durante a redemocratização, movimentos sociais ampliaram sua participação.

No século XXI, novas formas de organização surgiram através das redes digitais.

O poder político tornou-se mais distribuído em alguns aspectos.

Mas a desigualdade continua

A existência de democracia política não elimina desigualdade econômica.

E a existência de propriedade privada não garante mobilidade social.

As duas questões precisam ser analisadas separadamente.

Uma pessoa pode ter direitos políticos completos e continuar economicamente vulnerável.

Outra pode possuir enorme patrimônio e, ainda assim, estar submetida às mesmas regras eleitorais que os demais cidadãos.

O equilíbrio entre essas duas dimensões é um dos desafios das democracias modernas.

A ascensão das classes médias

A industrialização e a urbanização criaram novas classes médias.

Profissionais liberais.

Funcionários públicos.

Técnicos.

Empresários.

Comerciantes.

Profissionais especializados.

A expansão dessas camadas modificou a estrutura social brasileira.

Uma sociedade com maior classe média possui padrões de consumo diferentes e também novas demandas políticas.

Consumo e cidadania

O consumidor passou a exercer um papel econômico cada vez maior.

A expansão do crédito e do mercado interno aumentou o acesso a bens que antes eram restritos.

Mas o consumo também pode criar endividamento.

Por isso, educação financeira tornou-se importante.

Patrimônio e liberdade

A liberdade econômica possui uma dimensão patrimonial.

Quem possui uma reserva financeira possui maior capacidade de enfrentar uma crise.

Quem possui uma casa possui maior segurança.

Quem possui uma empresa possui maior autonomia.

Quem possui formação profissional possui mais opções.

Por isso, ampliar oportunidades de patrimônio pode fortalecer a própria liberdade.

A liberdade econômica precisa de instituições

Liberdade econômica não significa ausência de regras.

Sem regras de propriedade, contratos não funcionam.

Sem tribunais, contratos podem ser difíceis de fazer cumprir.

Sem concorrência, mercados podem concentrar poder.

Sem transparência, corrupção pode prosperar.

Sem estabilidade monetária, poupança perde valor.

Portanto:

instituições fortes protegem a liberdade econômica.

O Brasil e o desafio institucional

A construção institucional brasileira foi longa.

O país passou por Império, República, períodos autoritários e democráticos.

Cada etapa deixou experiências.

Hoje, a democracia brasileira possui instituições muito mais complexas do que aquelas existentes no século XIX.

Mas instituições precisam ser continuamente aperfeiçoadas.

A descentralização do poder

A tecnologia também pode descentralizar algumas formas de poder.

Uma pequena empresa pode produzir conteúdo global.

Um indivíduo pode publicar para milhões.

Um profissional pode trabalhar remotamente.

Uma comunidade pode organizar uma campanha.

Mas a mesma tecnologia pode concentrar poder em grandes plataformas.

A tecnologia pode, portanto, produzir descentralização e concentração ao mesmo tempo.

A economia brasileira diante dessa contradição

O país precisa aproveitar a capacidade descentralizadora da tecnologia sem permitir concentrações que reduzam excessivamente a concorrência.

Isso exige:

educação digital + concorrência + proteção de dados + infraestrutura + inovação.

A questão regional reaparece

A concentração econômica também possui dimensão geográfica.

Grandes centros urbanos concentram universidades, empresas, hospitais, bancos e empregos qualificados.

Regiões mais distantes podem enfrentar dificuldades maiores.

A tecnologia pode reduzir parte dessa distância.

Mas somente se houver infraestrutura.

Internet como infraestrutura

No passado, uma estrada conectava cidades.

Hoje, uma conexão de internet também conecta pessoas à economia.

Por isso, internet de qualidade deve ser vista cada vez mais como infraestrutura econômica.

Ela permite:

educação;

trabalho;

comércio;

serviços;

informação;

participação social.

O poder de criar oportunidades

Chegamos novamente à questão inicial.

Se a concentração econômica pode produzir concentração de poder, a resposta não precisa ser necessariamente eliminar a propriedade ou o capital.

Pode ser ampliar o número de pessoas capazes de possuir, produzir e participar.

Mais proprietários.

Mais empreendedores.

Mais profissionais qualificados.

Mais pesquisadores.

Mais investidores.

Mais empresas competitivas.

Mais acesso ao crédito.

Mais acesso ao conhecimento.

Uma sociedade de oportunidades

Uma sociedade economicamente dinâmica não precisa produzir igualdade absoluta.

Pode buscar outra coisa:

igualdade de oportunidades de participação.

Isso significa permitir que uma pessoa tenha condições reais de construir seu próprio caminho.

O resultado poderá ser diferente para cada indivíduo.

Mas o ponto de partida não deveria ser uma barreira quase impossível de superar.

O legado histórico

Talvez seja essa a maior conexão entre todos os períodos analisados.

Na Colônia, a terra estava concentrada.

No Império, a estrutura fundiária permaneceu desigual.

Na República, o poder econômico local teve forte influência política.

Na industrialização, o capital industrial ganhou importância.

Na globalização, grandes empresas passaram a operar em escala internacional.

Na economia digital, tecnologia e dados ganharam valor.

A forma mudou.

A disputa pelo controle dos meios de produção permaneceu.

Mas existe uma diferença fundamental

Hoje, os meios de produção são muito mais diversos.

Uma pessoa pode começar com conhecimento.

Pode criar uma empresa.

Pode utilizar uma plataforma digital.

Pode captar investimento.

Pode acessar mercados internacionais.

Pode produzir conteúdo.

Pode desenvolver tecnologia.

As barreiras não desapareceram.

Mas algumas diminuíram.

A oportunidade histórica

Essa talvez seja uma das grandes oportunidades do Brasil contemporâneo.

Utilizar tecnologia para ampliar a participação econômica.

Levar conhecimento para regiões distantes.

Facilitar o acesso a mercados.

Reduzir custos.

Aumentar produtividade.

Criar novas empresas.

Formar profissionais.

Transformar pequenos produtores em participantes de cadeias maiores.

A pergunta que permanece

O Brasil possui recursos.

Possui população.

Possui território.

Possui empresas.

Possui universidades.

Possui biodiversidade.

Possui energia.

Possui mercado.

Possui capacidade criativa.

O desafio é transformar tudo isso em um sistema capaz de gerar prosperidade compartilhada sem destruir a liberdade econômica.

E chegamos a um ponto decisivo

Durante séculos, a pergunta foi:

quem possui a terra?

Depois:

quem possui o capital?

Hoje:

quem possui o conhecimento, a tecnologia e os dados?

Mas existe uma pergunta ainda maior:

quem terá acesso a eles?

Porque a próxima etapa do desenvolvimento brasileiro talvez não seja determinada apenas pela quantidade de riqueza que o país possui.

Será determinada pela quantidade de pessoas capazes de participar da criação dessa riqueza.

E essa questão nos conduz ao próximo capítulo:

a formação de uma sociedade de proprietários, empreendedores, trabalhadores qualificados e cidadãos capazes de transformar conhecimento em autonomia econômica.

Continua.

Parte XXII - O Brasil diante da tecnologia, da produtividade e da nova economia


A história brasileira chegou a um ponto em que a riqueza de um país já não pode ser medida apenas pela quantidade de terra, pela extensão de suas reservas minerais ou pelo tamanho de sua produção agrícola.

Esses recursos continuam importantes.

Mas existe algo que passou a determinar cada vez mais a capacidade de uma sociedade produzir riqueza:

a capacidade de transformar conhecimento em tecnologia, tecnologia em produtividade e produtividade em oportunidades.

Essa transformação não aconteceu de repente.

Ela é resultado de um processo histórico que começou muito antes da internet.

Da terra ao conhecimento

Durante grande parte da história brasileira, a terra foi um dos principais instrumentos de produção.

Depois, a indústria ganhou importância.

O capital financeiro passou a exercer papel cada vez maior.

Agora, conhecimento, tecnologia, dados e capacidade de inovação ocupam uma posição estratégica.

Isso não significa que a terra deixou de ser importante.

Significa que os instrumentos de produção se multiplicaram.

Hoje, uma economia pode possuir enormes extensões de terras produtivas e, ainda assim, depender de tecnologia desenvolvida em outros países.

Pode possuir petróleo e importar equipamentos sofisticados.

Pode possuir biodiversidade e depender de tecnologia estrangeira para transformá-la em produtos de alto valor.

A riqueza natural continua sendo uma vantagem.

Mas vantagem natural não é o mesmo que capacidade tecnológica.

Produtividade é a ponte

A produtividade é justamente a ponte entre recursos e riqueza.

Se dois países possuem recursos semelhantes, mas um consegue produzir mais utilizando menos tempo, energia e matéria-prima, esse país terá maior capacidade de competir.

Por isso, produtividade não é apenas uma questão empresarial.

É uma questão nacional.

Ela influencia salários, preços, investimentos, exportações e capacidade de financiamento do Estado.

Por que produtividade importa para o trabalhador?

Existe uma interpretação equivocada segundo a qual produtividade beneficiaria apenas as empresas.

Não precisa ser assim.

Quando a produtividade aumenta de maneira sustentável, pode existir espaço para:

salários maiores + preços mais competitivos + maiores investimentos + expansão das empresas.

O problema surge quando os ganhos de produtividade não são acompanhados por qualificação, concorrência e mecanismos que permitam que seus benefícios sejam distribuídos de maneira mais ampla.

Educação volta ao centro

Por isso, a educação reaparece nesta história.

Não apenas como política social.

Mas como infraestrutura econômica.

Uma sociedade que educa melhor sua população aumenta sua capacidade produtiva.

Uma criança alfabetizada hoje poderá ser uma profissional qualificada amanhã.

Um jovem com formação técnica poderá operar máquinas sofisticadas.

Um pesquisador poderá desenvolver uma nova tecnologia.

Um empreendedor poderá transformar conhecimento em empresa.

Educação produz efeitos econômicos que atravessam gerações.

A escola como parte da economia

Isso não significa transformar a escola em uma empresa.

Significa reconhecer que educação e economia estão conectadas.

Uma escola forma cidadãos.

Mas também forma trabalhadores, pesquisadores, empreendedores, técnicos, professores, cientistas e profissionais.

A qualidade dessa formação influencia diretamente o futuro produtivo do país.

Conhecimento não é apenas diploma

Conhecimento econômico também não significa apenas formação universitária.

Inclui:

educação básica + formação técnica + experiência profissional + pesquisa + inovação + conhecimento tradicional.

Um agricultor possui conhecimento sobre o solo.

Um artesão possui conhecimento sobre materiais.

Um engenheiro possui conhecimento técnico.

Um pesquisador possui conhecimento científico.

Uma comunidade tradicional possui conhecimento acumulado por gerações.

O desenvolvimento pode surgir justamente quando diferentes formas de conhecimento se encontram.

Ciência e desenvolvimento

A ciência permite transformar perguntas em conhecimento.

A tecnologia transforma conhecimento em aplicações.

A empresa transforma aplicações em produtos e serviços.

O mercado ajuda a encontrar consumidores.

O Estado pode criar condições para que esse processo aconteça.

É uma cadeia.

ciência → tecnologia → inovação → produção → mercado.

O problema da distância entre pesquisa e mercado

O Brasil possui universidades e centros de pesquisa importantes.

Mas ainda existe dificuldade para transformar parte desse conhecimento em produtos, empresas e tecnologias comercialmente competitivas.

Isso cria uma lacuna.

Produzir conhecimento é fundamental.

Mas também é necessário criar mecanismos para que ele chegue à sociedade.

A inovação

Inovação não significa apenas inventar algo completamente novo.

Também pode significar:

produzir melhor;

reduzir desperdícios;

automatizar processos;

melhorar serviços;

criar novos modelos de negócios;

encontrar maneiras mais eficientes de utilizar recursos.

Uma pequena melhoria aplicada milhões de vezes pode produzir enorme impacto econômico.

A inteligência artificial

A inteligência artificial representa uma nova etapa.

Ela pode analisar grandes quantidades de informação, automatizar determinadas tarefas, auxiliar profissionais e acelerar processos de pesquisa.

Isso pode aumentar a produtividade.

Mas também modifica o mercado de trabalho.

Algumas atividades serão transformadas.

Outras surgirão.

A transformação do trabalho

A história econômica já passou por transformações semelhantes.

A mecanização agrícola reduziu a necessidade de determinados trabalhos manuais.

A industrialização substituiu algumas atividades artesanais e criou novas ocupações.

A automação industrial modificou as fábricas.

A informática transformou escritórios.

A inteligência artificial continuará esse processo.

A questão não é impedir a tecnologia.

É preparar as pessoas para participar da nova economia.

O risco da exclusão tecnológica

Se apenas uma parcela da população tiver acesso a ferramentas tecnológicas avançadas, a desigualdade pode assumir uma nova forma.

A antiga desigualdade de acesso à terra pode ser acompanhada por uma desigualdade de acesso ao conhecimento.

A desigualdade do futuro pode ser menos visível.

Pode estar no acesso:

à tecnologia + aos dados + à formação + ao capital + às redes.

A democratização da tecnologia

Por isso, ampliar o acesso à tecnologia é estratégico.

Internet de qualidade.

Computadores.

Ferramentas digitais.

Formação profissional.

Laboratórios.

Bibliotecas.

Ambientes de inovação.

Tudo isso pode ampliar oportunidades.

Pequenos negócios

A tecnologia pode ser especialmente importante para pequenos empreendedores.

Um pequeno produtor pode divulgar seus produtos diretamente.

Uma artesã pode alcançar consumidores de outras cidades.

Um profissional pode prestar serviços remotamente.

Uma pequena empresa pode utilizar sistemas de gestão sofisticados.

A tecnologia pode reduzir algumas barreiras de entrada.

Mas não todas.

Ainda são necessários capital, conhecimento, infraestrutura e acesso a mercados.

Crédito como instrumento de desenvolvimento

Aqui voltamos a um elemento presente desde o início desta série:

o acesso ao capital.

Uma pessoa pode possuir uma boa ideia e capacidade de trabalho.

Mas, sem crédito ou recursos próprios, pode não conseguir transformá-la em empreendimento.

O crédito permite antecipar capacidade produtiva futura.

Mas precisa ser responsável.

Juros elevados ou endividamento excessivo podem transformar oportunidade em problema.

Capital e patrimônio

Existe uma diferença importante entre renda e patrimônio.

Renda é fluxo.

Patrimônio é estoque.

Uma pessoa pode possuir renda mensal e ainda não possuir patrimônio.

Construir patrimônio exige tempo.

Poupança.

Investimento.

Propriedade.

Educação.

Empresa.

Acesso a oportunidades.

Por isso, a mobilidade econômica de longo prazo depende também da capacidade de acumular patrimônio.

A propriedade no século XXI

A propriedade também mudou.

Hoje pode representar:

terra + casa + empresa + ações + propriedade intelectual + software + marcas + ativos financeiros.

A propriedade intelectual ganhou importância.

Uma patente pode valer bilhões.

Uma marca pode valer bilhões.

Um software pode ser utilizado no mundo inteiro.

O patrimônio tornou-se cada vez mais intangível.

A nova concentração

Isso cria uma nova forma de concentração.

No passado, grandes extensões de terra poderiam concentrar poder.

Hoje, uma tecnologia utilizada por milhões de pessoas pode concentrar enorme valor econômico.

Uma plataforma digital pode conectar milhões de consumidores e empresas.

Uma empresa pode possuir poucos ativos físicos e, ainda assim, possuir enorme valor de mercado.

A economia tornou-se menos material em alguns setores.

Mas a economia física continua

É importante não cair no erro de imaginar que tudo se tornou digital.

A internet depende de cabos.

Os computadores dependem de minerais.

Os centros de dados dependem de energia.

Os celulares dependem de fábricas.

As cidades dependem de água.

As pessoas continuam precisando de alimentos.

A economia digital continua apoiada em uma enorme infraestrutura física.

A nova importância da energia

Quanto mais digital a economia se torna, maior também pode ser a demanda por eletricidade.

Centros de dados consomem energia.

Indústrias automatizadas precisam de eletricidade confiável.

Veículos elétricos exigem infraestrutura de carregamento.

A produção de novas tecnologias depende de energia.

Por isso, a transição energética e a transformação digital estão cada vez mais conectadas.

A vantagem brasileira

O Brasil possui uma oportunidade particular.

O país possui grande potencial de geração de energia renovável.

Possui mercado consumidor.

Possui recursos naturais.

Possui agricultura avançada.

Possui universidades.

Possui empresas competitivas.

A combinação desses elementos pode criar novas oportunidades.

Mas oportunidade não é resultado garantido.

A necessidade de investimento

Para transformar vantagens em desenvolvimento, é necessário investir.

Em:

educação + ciência + infraestrutura + energia + tecnologia + logística + empresas.

Investimento público e privado podem desempenhar papéis diferentes e complementares.

O papel do Estado no novo ciclo

O Estado pode atuar naquilo que exige horizonte de longo prazo.

Pesquisa básica.

Infraestrutura.

Educação.

Regulação.

Segurança jurídica.

Formação profissional.

Políticas de inovação.

Mas não precisa necessariamente substituir empresas em todas as atividades.

O papel das empresas

As empresas precisam assumir riscos.

Investir.

Inovar.

Testar.

Competir.

Contratar.

Formar profissionais.

Desenvolver produtos.

Uma economia dinâmica precisa de empresas capazes de crescer.

O papel da sociedade

A sociedade também possui responsabilidade.

Consumidores influenciam mercados.

Trabalhadores precisam buscar qualificação.

Universidades precisam dialogar com problemas reais.

Empresas precisam responder às demandas sociais.

Governos precisam prestar contas.

O desenvolvimento é coletivo.

O território brasileiro

A dimensão territorial brasileira continua sendo uma vantagem e um desafio.

O país possui regiões muito diferentes.

A infraestrutura não é distribuída de maneira uniforme.

A produtividade também varia.

O acesso à tecnologia é desigual.

O desenvolvimento regional continua sendo uma questão fundamental.

Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul

Cada região possui vantagens específicas.

A Amazônia possui biodiversidade.

O Nordeste possui potencial solar e eólico.

O Centro-Oeste possui forte produção agrícola.

O Sudeste concentra grande parte da indústria, dos serviços e das instituições financeiras.

O Sul possui importante base industrial e agropecuária.

A questão não é fazer todas as regiões produzirem exatamente as mesmas coisas.

É permitir que cada uma desenvolva suas vantagens e se conecte às demais.

Infraestrutura como integração nacional

Estradas.

Ferrovias.

Portos.

Aeroportos.

Energia.

Internet.

Saneamento.

Essas estruturas integram o território.

No século XIX, as ferrovias ajudaram a conectar áreas produtoras aos portos.

No século XX, rodovias e hidrelétricas ampliaram essa integração.

No século XXI, a infraestrutura digital acrescenta uma nova camada.

O Brasil conectado

Uma pequena empresa no interior pode hoje vender para outro estado.

Um estudante pode acessar cursos de universidades estrangeiras.

Um agricultor pode utilizar informações climáticas em tempo real.

Um médico pode acompanhar um paciente à distância.

A distância geográfica perdeu parte de seu poder.

Mas a infraestrutura ainda determina quem consegue aproveitar essas possibilidades.

O futuro do campo

A agricultura brasileira provavelmente será cada vez mais tecnológica.

Sensores.

Drones.

Satélites.

Automação.

Inteligência artificial.

Biotecnologia.

Mas isso não significa necessariamente o desaparecimento do pequeno produtor.

A tecnologia pode ser utilizada em propriedades de diferentes tamanhos.

Cooperativas podem ajudar pequenos produtores a acessar máquinas, crédito e mercados.

O futuro da indústria

A indústria também passará por transformação.

Robótica.

Automação.

Impressão 3D.

Inteligência artificial.

Novos materiais.

Energia limpa.

A indústria do futuro poderá produzir mais utilizando menos recursos.

Mas exigirá profissionais mais qualificados.

O futuro dos serviços

Os serviços já representam grande parte da economia.

Finanças.

Educação.

Saúde.

Turismo.

Cultura.

Tecnologia.

Logística.

Comunicação.

Muitos desses setores podem crescer com a digitalização.

A economia criativa

Existe ainda outro patrimônio brasileiro:

a cultura.

Música.

Artesanato.

Literatura.

Cinema.

Design.

Gastronomia.

Festas populares.

Patrimônio histórico.

Conhecimentos tradicionais.

Tudo isso pode gerar atividade econômica.

A cultura não precisa ser vista apenas como despesa.

Pode também ser fonte de trabalho, identidade e inovação.

Uma nova definição de riqueza

Talvez seja necessário ampliar nossa própria ideia de riqueza.

Riqueza não é apenas dinheiro.

Também pode ser:

conhecimento + infraestrutura + patrimônio cultural + recursos naturais preservados + capacidade produtiva + capital humano.

Um país que destrói seus recursos naturais pode empobrecer mesmo quando seu PIB cresce.

Um país que não educa sua população pode possuir recursos e continuar dependente.

Um país que não investe em ciência pode consumir tecnologia sem produzi-la.

O desenvolvimento sustentável

O desenvolvimento do século XXI precisa considerar uma questão que não possuía a mesma dimensão no passado:

os limites ambientais.

A produção precisa continuar.

Mas os recursos naturais precisam ser preservados.

A tecnologia pode ajudar.

Produzir mais utilizando menos água.

Mais alimentos utilizando menos área.

Mais energia com menor emissão.

Mais produtos com menos desperdício.

Essa é uma das grandes oportunidades da inovação.

A nova equação brasileira

A antiga equação era:

terra + trabalho + capital.

Depois acrescentamos:

indústria + energia + infraestrutura.

Agora precisamos acrescentar:

conhecimento + tecnologia + inovação + sustentabilidade.

Essa é a nova estrutura econômica.

Mas a pergunta histórica continua

Quem terá acesso a esses novos instrumentos?

Essa pergunta nos leva novamente ao começo.

Se a terra foi concentrada, quem terá acesso à tecnologia?

Se o capital foi concentrado, quem terá acesso ao financiamento?

Se o conhecimento se tornou um meio de produção, quem terá acesso à educação de qualidade?

Se os dados se tornaram ativos econômicos, quem terá capacidade de utilizá-los?

A questão da oportunidade reaparece.

O futuro não será definido apenas pela tecnologia

A tecnologia pode aumentar a produtividade.

Mas não decide sozinha como seus benefícios serão distribuídos.

Essa é uma decisão econômica, política e social.

A inteligência artificial pode ampliar a produtividade de uma empresa.

Mas a sociedade precisa decidir como preparar os trabalhadores.

A automação pode reduzir custos.

Mas será necessário criar novas oportunidades.

A tecnologia pode democratizar o acesso ao conhecimento.

Mas também pode ampliar desigualdades se ficar restrita a poucos.

A grande escolha

O Brasil não precisa escolher entre tecnologia e trabalho.

Pode utilizar tecnologia para aumentar a produtividade do trabalho.

Não precisa escolher entre agricultura e indústria.

Pode utilizar a indústria para aumentar a produtividade da agricultura.

Não precisa escolher entre Estado e mercado.

Pode utilizar ambos em funções diferentes.

Não precisa escolher entre crescimento e sustentabilidade.

Pode buscar crescimento baseado em eficiência tecnológica.

A síntese

Depois de séculos de transformações, a questão central permanece surpreendentemente atual:

como ampliar o número de pessoas capazes de participar da produção de riqueza?

No passado, isso significava discutir acesso à terra.

Depois, acesso ao emprego industrial.

Mais tarde, acesso à educação e ao crédito.

Hoje, significa também acesso à tecnologia e ao conhecimento.

A forma mudou.

A questão permanece.

O próximo capítulo

A história nos trouxe da terra ao capital.

Do capital à indústria.

Da indústria à tecnologia.

Da tecnologia ao conhecimento.

Agora surge uma nova pergunta:

quem será capaz de transformar o conhecimento em patrimônio, autonomia e desenvolvimento?

Porque o verdadeiro desafio do século XXI não será apenas possuir tecnologia.

Será fazer com que ela produza mais liberdade, mais produtividade e mais oportunidades.

E é nesse ponto que a história econômica encontra novamente a história política.

Porque, quando a estrutura econômica muda, o poder também muda.

E a próxima parte será justamente sobre essa transformação do poder no Brasil.

Continua.

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