CONTATO: RENATARJBRAVO@GMAIL.COM - PESQUISAS, TECNOLOGIA ASSISTIVA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL DESDE 2013.

"Inspirado em Heidegger, Brincadeira Sustentável (por Renata Bravo) não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser digerida, vivida e incorporada."

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Parte XXVII - A era do conhecimento: quando a tecnologia se torna meio de produção / Parte XXVIII - Terra, capital, trabalho e poder: a formação das elites brasileiras


A história econômica brasileira passou por diferentes etapas.

Primeiro, a terra ocupou posição central.

Depois, o comércio ampliou a circulação de mercadorias.

A indústria transformou a produção.

O sistema financeiro ampliou a capacidade de investimento.

A globalização conectou mercados.

E a internet modificou a circulação da informação.

Agora surge uma nova etapa:

a economia do conhecimento.

Nela, o conhecimento deixa de ser apenas uma ferramenta utilizada pelo trabalhador e passa a constituir, cada vez mais, um dos próprios meios de produção.

O conhecimento sempre teve valor

É importante lembrar que conhecimento nunca foi irrelevante.

Agricultores precisavam conhecer o solo, as sementes e o clima.

Artesãos dominavam técnicas.

Engenheiros construíam máquinas.

Médicos utilizavam conhecimentos científicos.

Empresários precisavam compreender mercados.

O que mudou foi a escala.

Hoje, uma informação pode ser produzida em um lugar e utilizada imediatamente em milhares ou milhões de outros.

Da máquina à informação

Na sociedade industrial, a máquina aumentava a capacidade física do trabalhador.

Uma máquina podia produzir mais rapidamente.

Uma linha de montagem podia multiplicar a produção.

A automação podia substituir determinadas tarefas repetitivas.

Na economia digital, ocorre algo diferente.

Os sistemas também podem processar informações.

Podem identificar padrões.

Organizar grandes volumes de dados.

Prever determinados comportamentos.

Auxiliar decisões.

Automatizar processos intelectuais específicos.

Isso modifica novamente a relação entre trabalhador e tecnologia.

A inteligência artificial

A inteligência artificial representa uma nova etapa dessa transformação.

Ela não deve ser compreendida simplesmente como uma máquina que substituirá todos os trabalhadores.

A realidade é mais complexa.

Algumas tarefas podem ser automatizadas.

Outras serão transformadas.

Novas funções surgirão.

E muitas profissões passarão a utilizar inteligência artificial como ferramenta.

A questão central não será apenas:

quantos empregos desaparecerão?

Também será:

quais novas atividades serão criadas e quais competências serão necessárias?

A história já mostrou esse processo

Quando a mecanização agrícola avançou, determinadas tarefas rurais diminuíram.

Mas outras atividades surgiram.

Quando a indústria se automatizou, algumas funções desapareceram.

Ao mesmo tempo, cresceram atividades técnicas, administrativas e especializadas.

Quando os computadores chegaram aos escritórios, determinadas tarefas manuais foram reduzidas.

Mas novas profissões apareceram.

A tecnologia destrói determinadas ocupações e cria outras.

O problema está na velocidade dessa transição.

A velocidade é diferente agora

A transformação tecnológica contemporânea possui uma característica particular.

Ela pode acontecer em velocidade muito maior.

Uma nova ferramenta digital pode alcançar milhões de pessoas em poucos anos.

Uma tecnologia pode ser atualizada continuamente.

Uma profissão pode mudar suas ferramentas várias vezes durante a carreira de um trabalhador.

Isso exige uma nova relação com a educação.

Educação para uma economia que muda

No passado, era possível imaginar que uma pessoa estudaria durante alguns anos e utilizaria aquele conhecimento durante grande parte da vida profissional.

Hoje, isso é cada vez menos suficiente.

O trabalhador precisará aprender continuamente.

Não necessariamente voltar à escola tradicional a cada mudança.

Mas desenvolver capacidade de:

aprender + reaprender + adaptar-se + solucionar problemas.

A escola precisa acompanhar

Isso não significa abandonar os conhecimentos tradicionais.

Matemática continua importante.

Língua portuguesa continua importante.

História continua importante.

Ciência continua importante.

Artes continuam importantes.

O que muda é a forma como esses conhecimentos podem ser utilizados.

A educação precisa formar pessoas capazes de compreender e utilizar tecnologias, sem perder a capacidade de pensar criticamente.

Conhecimento não é apenas tecnologia

Existe um risco de reduzir a economia do conhecimento à informática.

Conhecimento também significa:

ciência;

engenharia;

medicina;

agricultura;

educação;

cultura;

design;

gestão;

artes;

biotecnologia;

engenharia ambiental;

energia.

Uma economia baseada em conhecimento precisa de múltiplas áreas.

A ciência como infraestrutura

Durante muito tempo, infraestrutura foi associada principalmente a:

estradas + portos + ferrovias + energia + saneamento.

Hoje precisamos acrescentar:

universidades + laboratórios + centros de pesquisa + redes digitais + capacidade computacional.

A ciência passou a ser parte da infraestrutura econômica.

A universidade e a produção

Uma universidade não produz apenas diplomas.

Pode produzir:

pesquisa;

patentes;

novas tecnologias;

empresas;

profissionais;

soluções para problemas públicos;

conhecimento aplicado.

Por isso, a relação entre universidade e setor produtivo tornou-se estratégica.

A pesquisa precisa chegar à sociedade

Uma descoberta científica possui enorme valor.

Mas esse valor aumenta quando pode ser transformada em:

produto + serviço + processo + tecnologia + política pública.

Esse caminho exige investimento.

Exige empresas.

Exige financiamento.

Exige proteção intelectual.

Exige capacidade de produção.

Patentes e propriedade intelectual

Aqui surge uma nova forma de propriedade.

No passado, a principal discussão patrimonial estava relacionada à terra.

Depois, às fábricas e máquinas.

Hoje, também envolve:

patentes + marcas + software + desenhos industriais + obras intelectuais + tecnologias.

A propriedade intelectual tornou-se parte importante da economia.

O conhecimento pode ser reproduzido

Existe, porém, uma diferença fundamental.

Uma propriedade física pertence a alguém e não pode ser utilizada simultaneamente por qualquer número de pessoas da mesma maneira.

O conhecimento pode ser reproduzido.

Uma descoberta científica pode ser utilizada por milhares de pesquisadores.

Um software pode ser distribuído em escala global.

Uma ideia pode atravessar fronteiras instantaneamente.

Isso cria novos desafios para a propriedade e para a remuneração.

A economia da inovação

Inovação não significa apenas inventar algo completamente novo.

Pode significar melhorar um processo.

Reduzir custos.

Aumentar produtividade.

Criar um produto melhor.

Encontrar uma nova forma de distribuição.

Utilizar menos energia.

Reduzir desperdícios.

A inovação pode acontecer em uma grande indústria ou em uma pequena empresa.

Produtividade novamente

Voltamos a uma palavra fundamental desta série:

produtividade.

Uma economia não consegue elevar indefinidamente seus padrões de vida apenas distribuindo o que já produz.

Ela precisa aumentar sua capacidade de produzir valor.

Tecnologia pode permitir que uma mesma quantidade de recursos produza mais.

Mas tecnologia, sozinha, não resolve tudo.

É necessário conhecimento para utilizá-la.

O trabalhador do futuro

O trabalhador que terá maior capacidade de adaptação não será necessariamente aquele que sabe utilizar uma ferramenta específica.

Será aquele capaz de compreender problemas e aprender novas ferramentas.

A tecnologia muda.

A capacidade de aprender permanece.

Por isso, habilidades como:

raciocínio + comunicação + criatividade + colaboração + análise + conhecimento técnico

ganham importância.

O trabalho humano não desaparece

Mesmo quando uma máquina consegue executar uma tarefa, continuam existindo necessidades humanas.

Cuidar.

Ensinar.

Criar.

Negociar.

Liderar.

Interpretar.

Decidir.

Construir relações.

Resolver situações imprevistas.

A tecnologia pode modificar o trabalho sem eliminar a necessidade do trabalho humano.

O perigo da exclusão tecnológica

Mas existe uma preocupação legítima.

Se algumas pessoas tiverem acesso às novas tecnologias e outras não, a desigualdade poderá aumentar.

Uma empresa com inteligência artificial pode ser muito mais produtiva do que outra que não tenha acesso à tecnologia.

Um estudante conectado a recursos educacionais avançados pode possuir vantagens sobre outro sem acesso digital.

Um agricultor com tecnologia de precisão pode produzir de maneira muito diferente de outro sem assistência técnica.

A tecnologia pode ampliar oportunidades.

Mas também pode ampliar diferenças.

O acesso é fundamental

Por isso, democratizar tecnologia não significa simplesmente distribuir equipamentos.

É necessário garantir:

conectividade + formação + infraestrutura + conteúdo + assistência + segurança digital.

Ter acesso à internet não significa automaticamente saber utilizá-la para produzir conhecimento ou renda.

A inteligência artificial e as pequenas empresas

Uma das possibilidades mais interessantes está justamente na democratização tecnológica.

No passado, determinadas ferramentas eram acessíveis apenas a grandes empresas.

Hoje, pequenos negócios podem utilizar ferramentas digitais para:

divulgação;

atendimento;

gestão;

análise de dados;

produção de conteúdo;

vendas;

organização financeira.

A tecnologia pode reduzir algumas barreiras de entrada.

Mas o capital continua importante

Isso não significa que a tecnologia eliminou a importância do capital.

Computadores precisam ser comprados.

Sistemas precisam ser desenvolvidos.

Infraestrutura precisa ser construída.

Profissionais precisam ser contratados.

Pesquisa precisa ser financiada.

Portanto, conhecimento e capital continuam profundamente relacionados.

A nova concentração

Surge então uma nova possibilidade de concentração econômica.

Empresas que controlam grandes plataformas digitais podem alcançar escalas enormes.

Dados podem se tornar ativos estratégicos.

Infraestrutura tecnológica pode ficar concentrada em poucos grupos.

Sistemas de inteligência artificial podem exigir investimentos muito elevados.

A concentração econômica pode assumir uma nova forma.

Dos latifúndios às plataformas

No passado, uma grande propriedade rural podia concentrar produção e influência local.

Na sociedade industrial, uma grande fábrica podia concentrar trabalhadores, capital e capacidade produtiva.

Na economia digital, uma plataforma pode conectar milhões de consumidores e empresas.

A estrutura mudou.

A questão histórica permanece:

quem controla os instrumentos fundamentais da produção?

O poder dos dados

Dados passaram a possuir valor econômico.

Informações sobre consumidores podem ajudar empresas a compreender mercados.

Dados científicos podem acelerar pesquisas.

Informações agrícolas podem melhorar a produtividade.

Dados de infraestrutura podem melhorar cidades.

Mas dados também envolvem privacidade.

Por isso, seu uso precisa estar submetido a regras.

A economia digital e o Estado

O Estado também precisa acompanhar essa transformação.

Não apenas como regulador.

Mas como usuário de tecnologia.

Serviços públicos podem tornar-se mais eficientes com digitalização.

Educação pode utilizar ferramentas digitais.

Saúde pode utilizar sistemas de informação.

Infraestrutura pode ser monitorada por sensores.

Cidades podem utilizar dados para planejamento.

A transformação tecnológica também pode melhorar a administração pública.

O Brasil possui vantagens

O Brasil não começa do zero.

Possui:

universidades + centros de pesquisa + empresas de tecnologia + mercado consumidor + agricultura sofisticada + indústria + recursos naturais + sistema financeiro desenvolvido.

Possui também uma grande capacidade de geração de energia renovável.

Isso cria oportunidades importantes.

A energia do futuro

A transição energética poderá transformar novamente a economia.

O mundo busca reduzir emissões de carbono.

Novas tecnologias de geração e armazenamento de energia estão sendo desenvolvidas.

Veículos elétricos avançam.

Hidrogênio de baixo carbono é pesquisado.

Baterias ganham importância.

O Brasil possui vantagens naturais relevantes para participar dessa transformação.

A biodiversidade como ativo

Outro patrimônio brasileiro é a biodiversidade.

Florestas.

Plantas.

Microrganismos.

Recursos genéticos.

Conhecimentos tradicionais.

Esse patrimônio pode contribuir para novas pesquisas em áreas como medicamentos, alimentos, cosméticos e biotecnologia.

Mas precisa ser tratado com responsabilidade ambiental e respeito às comunidades envolvidas.

Do recurso natural ao conhecimento

Aqui encontramos novamente uma questão histórica.

No passado, o Brasil exportava principalmente recursos naturais e produtos agrícolas.

O desafio contemporâneo é aumentar a capacidade de transformar recursos em produtos de maior valor agregado.

Não basta produzir.

É preciso também:

pesquisar + processar + desenvolver tecnologia + criar marcas + dominar mercados.

O café como exemplo

O Brasil produz café em enorme escala.

Mas existe uma diferença entre vender apenas matéria-prima e desenvolver:

cafés especiais;

tecnologia de processamento;

marcas;

equipamentos;

pesquisa;

serviços;

experiências.

Quanto maior o domínio da cadeia produtiva, maior pode ser o valor capturado pelo país.

O mesmo vale para outros setores

Minérios.

Petróleo.

Soja.

Carne.

Celulose.

Alimentos.

Biodiversidade.

O desafio é ampliar a participação brasileira nas etapas de maior valor agregado.

Isso não significa abandonar a exportação de commodities.

Significa utilizar a força dessas cadeias para desenvolver também conhecimento, indústria e tecnologia.

A nova oportunidade brasileira

O Brasil pode combinar vantagens que poucos países possuem.

Produção agrícola em escala.

Recursos minerais.

Energia renovável.

Mercado interno.

Biodiversidade.

Indústria.

Ciência.

Universidades.

Se conseguir integrar essas capacidades, poderá ocupar posições estratégicas na economia do século XXI.

Mas existe uma condição

Nenhum desses recursos produz desenvolvimento automaticamente.

É necessário transformar recursos em produtividade.

E produtividade depende de:

educação + infraestrutura + tecnologia + investimento + instituições + segurança jurídica.

O conhecimento como novo patrimônio

Voltamos ao ponto central.

A terra continua sendo patrimônio.

Uma empresa continua sendo patrimônio.

Uma máquina continua sendo patrimônio.

Mas uma nova categoria ganhou importância:

a capacidade de produzir conhecimento.

Uma sociedade que investe em conhecimento aumenta sua capacidade de criar novos patrimônios.

A verdadeira democratização

Por isso, talvez a grande questão do século XXI não seja apenas distribuir renda.

Seja também democratizar a capacidade de produzir valor.

Permitir que mais pessoas tenham acesso a:

educação + tecnologia + crédito + informação + infraestrutura + propriedade.

Isso cria condições para que mais indivíduos participem da economia.

A liberdade econômica em uma nova etapa

No início desta série, o capitalismo apareceu associado à superação dos privilégios de nascimento.

Hoje, a discussão assume uma nova forma.

Não basta ter liberdade jurídica.

É preciso ter condições para participar de uma economia cada vez mais tecnológica.

Uma pessoa pode ser formalmente livre e, ao mesmo tempo, estar excluída das oportunidades criadas pela economia digital.

A liberdade econômica do século XXI precisa considerar também o acesso ao conhecimento.

A nova fronteira da desigualdade

Se a desigualdade do passado estava fortemente relacionada ao acesso à terra e ao capital, a desigualdade do futuro poderá envolver cada vez mais:

acesso à educação + acesso à tecnologia + capacidade de inovação + domínio de informação.

Isso não significa que terra e capital perderão importância.

Significa que novos fatores serão acrescentados.

A história novamente se transforma

A trajetória pode agora ser resumida assim:

terra → comércio → indústria → capital financeiro → informação → conhecimento → inteligência artificial.

Cada etapa acrescentou novos instrumentos de produção.

Nenhuma eliminou completamente a anterior.

É por isso que o Brasil contemporâneo possui simultaneamente:

grandes propriedades rurais;

agricultura familiar;

indústrias;

bancos;

empresas de tecnologia;

universidades;

startups;

plataformas digitais;

economia informal;

trabalho tradicional.

O país é resultado de todas essas camadas históricas.

A pergunta para o futuro

A grande pergunta desta nova etapa talvez seja:

quem terá acesso aos instrumentos capazes de produzir riqueza no século XXI?

A resposta determinará muito mais do que a posição econômica de indivíduos.

Poderá influenciar a estrutura social brasileira das próximas décadas.

Porque a história demonstra que quem controla os meios de produção possui maior capacidade de influenciar os rumos da economia.

E os meios de produção estão novamente mudando.

O Brasil diante da nova revolução

A primeira revolução transformou a terra.

A industrialização transformou as máquinas.

A revolução digital transformou a informação.

A inteligência artificial começa a transformar o próprio conhecimento aplicado à produção.

O Brasil precisa decidir como participar dessa transformação.

Não apenas como consumidor.

Não apenas como fornecedor de matéria-prima.

Mas como produtor de conhecimento, tecnologia, produtos e soluções.

Essa será uma das grandes disputas econômicas das próximas décadas.

E ela nos leva a uma questão ainda mais profunda:

se o conhecimento é um novo meio de produção, quem terá condições de produzi-lo, controlá-lo e transformá-lo em patrimônio?

É nessa pergunta que a história da terra, do capital, do trabalho e do poder encontra a economia do futuro.

Continua.

Parte XXVIII - Terra, capital, trabalho e poder: a formação das elites brasileiras

A história econômica brasileira não pode ser compreendida apenas pela sucessão de governos.

É preciso observar também quem possuía os recursos capazes de produzir riqueza em cada período histórico.

Na Colônia, a terra ocupava posição central.

No Império, a propriedade rural continuava determinante, mas o comércio, os bancos, as ferrovias e as primeiras indústrias começaram a criar novas formas de riqueza.

Na República, a indústria e o capital financeiro ganharam importância.

No século XXI, tecnologia, conhecimento, dados e capacidade de inovação passaram a integrar essa estrutura.

As elites econômicas brasileiras, portanto, também se transformaram.

A elite colonial

Durante o período colonial, os grandes proprietários rurais ocupavam posição privilegiada.

A terra era o principal meio de produção.

A produção agrícola voltada à exportação dependia de grandes propriedades e de trabalho escravizado.

A riqueza econômica estava diretamente relacionada à capacidade de controlar a produção.

E o poder econômico frequentemente se convertia em poder social.

A propriedade e o prestígio

A riqueza não produzia apenas renda.

Produzia prestígio.

Uma grande propriedade podia representar posição social.

Uma família economicamente poderosa podia estabelecer relações com autoridades, comerciantes e instituições.

A sociedade colonial era profundamente hierarquizada.

Mas essa hierarquia não permaneceu exatamente igual.

Ela foi se transformando.

A chegada da Corte portuguesa

A transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, modificou profundamente a vida econômica brasileira.

A abertura dos portos ampliou as relações comerciais.

Novas instituições foram criadas.

O comércio ganhou importância.

O Rio de Janeiro tornou-se um centro político e econômico ainda mais relevante.

A economia brasileira começou a se integrar de maneira diferente ao comércio internacional.

A Independência

A Independência de 1822 criou um Estado brasileiro soberano.

Mas não eliminou imediatamente as estruturas econômicas existentes.

A grande propriedade continuou.

A escravidão continuou.

A economia exportadora continuou.

A mudança política foi profunda.

A mudança social e econômica seria muito mais lenta.

O Império e a formação de novas riquezas

Ao longo do século XIX, o Brasil passou por transformações importantes.

O café expandiu-se.

As ferrovias cresceram.

Os bancos se desenvolveram.

O comércio se ampliou.

As primeiras indústrias surgiram.

A riqueza brasileira começou a adquirir novas formas.

Barão de Mauá novamente aparece

A trajetória do Barão de Mauá é importante justamente porque representa essa transição.

Ele não construiu sua riqueza apenas a partir da propriedade rural.

Atuou em:

bancos + ferrovias + navegação + indústria + infraestrutura.

Representava uma nova mentalidade empresarial.

A riqueza podia nascer do investimento e da organização de atividades econômicas modernas.

Mas a sociedade ainda era escravista

Essa é uma das grandes contradições do período.

Enquanto novas formas de capitalismo avançavam, a escravidão permanecia.

O Brasil buscava modernização econômica sem romper completamente com a estrutura social escravista.

Essa contradição teria consequências profundas.

O Conde d’Eu e a família imperial

O período imperial também envolveu personagens ligados à família imperial e à aristocracia.

O Conde d’Eu, marido da Princesa Isabel, pertence a esse universo político e social do Segundo Reinado.

Mas é importante não confundir sua trajetória com a de empresários como Mauá.

São posições diferentes.

Mauá representa o empresário e investidor ligado à modernização econômica.

O Conde d’Eu pertence ao círculo da família imperial e da elite política e social do período.

Essa distinção ajuda a compreender que elite econômica, elite política e elite aristocrática não eram exatamente a mesma coisa.

Os imperadores

D. Pedro I e D. Pedro II também precisam ser compreendidos dentro dessa estrutura histórica.

D. Pedro I esteve ligado à formação do Estado independente.

D. Pedro II governou durante grande parte do processo de consolidação do Império.

Durante seu reinado, o Brasil passou por importantes transformações econômicas, científicas, culturais e de infraestrutura.

Mas a escravidão permaneceu até os últimos anos do regime.

O Império, portanto, foi simultaneamente um período de modernização e de permanência de estruturas profundamente desiguais.

A Lei de Terras

Em 1850, a Lei de Terras estabeleceu novas regras para aquisição das terras públicas.

A mudança ocorreu no mesmo ano em que o tráfico transatlântico de escravizados foi proibido pelo Brasil.

A terra passou a estar cada vez mais vinculada à compra como forma de aquisição das terras públicas.

Em uma sociedade na qual o patrimônio já estava concentrado, essa transformação teve consequências importantes para a formação da estrutura fundiária.

A Abolição

Em 1888, a escravidão chegou ao fim.

Mas a liberdade jurídica não foi acompanhada por uma ampla política nacional de distribuição de terras, crédito, educação e patrimônio para a população recém-liberta.

Esse é um dos pontos fundamentais da história brasileira.

A sociedade mudou sua legislação.

Mas não reorganizou na mesma proporção o acesso aos instrumentos econômicos.

A República

A Proclamação da República, em 1889, modificou o sistema político.

Mas muitas estruturas econômicas permaneceram.

Grandes proprietários continuaram possuindo enorme influência.

A economia agrícola exportadora permaneceu central.

O café tornou-se especialmente importante.

O coronelismo

Na Primeira República, o poder local dos grandes proprietários rurais encontrou expressão no coronelismo.

O chamado “coronel” não era necessariamente um militar da ativa.

Era frequentemente um grande proprietário ou líder local com influência política.

Sua força podia envolver:

terra + crédito + relações pessoais + influência eleitoral + autoridade local.

O coronelismo demonstra novamente como poder econômico e poder político podiam se aproximar.

A industrialização cria uma nova elite

Com o crescimento das cidades e da indústria, surgiu uma nova camada empresarial.

Industriais.

Comerciantes.

Banqueiros.

Empresários de transporte.

Construtores.

A elite econômica brasileira começou a se diversificar.

A riqueza já não estava concentrada exclusivamente na propriedade rural.

A burguesia industrial

A industrialização criou empresários cuja riqueza dependia da produção industrial.

Eles precisavam de:

capital;

máquinas;

trabalhadores;

energia;

transporte;

crédito;

mercados.

A lógica econômica era diferente da grande propriedade agrícola.

Mas existia uma continuidade:

controle dos meios de produção continuava sendo fonte de poder econômico.

Getúlio Vargas e a nova relação entre Estado e elites

Com Vargas, o Estado passou a desempenhar papel ainda mais importante na economia.

O governo criou instituições, empresas e políticas que ajudaram a formar uma estrutura industrial.

Isso aproximou o Estado de empresários, trabalhadores e setores estratégicos da economia.

A elite econômica brasileira passou a depender também de relações com um Estado muito mais presente.

A elite empresarial do século XX

Durante o século XX, novas fortunas foram construídas em:

indústria;

bancos;

construção;

energia;

comércio;

transportes;

comunicações;

mineração.

O Brasil tornou-se uma economia muito mais diversificada.

O capital estrangeiro

As empresas multinacionais também ganharam espaço.

Automóveis.

Química.

Farmacêutica.

Eletrônica.

Alimentos.

Energia.

Telecomunicações.

O capital estrangeiro trouxe investimentos e tecnologia.

Mas também aumentou a presença de empresas internacionais na economia brasileira.

A elite econômica brasileira passou a conviver com uma estrutura empresarial globalizada.

A elite financeira

Com o desenvolvimento do sistema bancário e financeiro, o capital financeiro ganhou importância.

Bancos passaram a desempenhar papel central na economia.

O crédito podia financiar:

consumo;

habitação;

agricultura;

indústria;

infraestrutura.

O controle do capital financeiro tornou-se outra forma de influência econômica.

A concentração não desapareceu

A economia mudou.

Mas a concentração patrimonial continuou sendo uma característica importante.

Agora ela podia ocorrer em diferentes setores.

Terra.

Empresas.

Imóveis.

Bancos.

Participações acionárias.

Infraestrutura.

Recursos naturais.

A economia contemporânea

No século XXI, uma nova transformação aconteceu.

Empresas de tecnologia passaram a possuir enorme valor econômico.

Plataformas digitais alcançaram milhões de consumidores.

Dados passaram a ter valor.

Marcas globais tornaram-se ativos importantes.

O conhecimento passou a produzir riqueza em escala inédita.

A nova elite tecnológica

Surge então uma nova categoria de grandes empresários.

Fundadores de empresas de tecnologia.

Investidores.

Empreendedores digitais.

Controladores de plataformas.

Especialistas em inovação.

Eles podem construir grandes patrimônios sem possuir grandes extensões de terra ou fábricas tradicionais.

O ativo principal pode estar em:

software + dados + propriedade intelectual + rede de usuários + tecnologia.

A lógica, porém, permanece

A forma mudou.

A lógica econômica apresenta uma continuidade.

Quem controla um recurso escasso e fundamental possui maior capacidade de influenciar o mercado.

No passado:

terra.

Depois:

fábricas e capital.

Hoje:

capital + tecnologia + dados + conhecimento.

O poder político também se transforma

A influência econômica contemporânea não funciona exatamente como no coronelismo.

Não depende necessariamente de controlar uma cidade ou de influenciar diretamente eleições locais.

Pode ocorrer por meio de:

investimentos;

empregos;

mercados;

lobbies;

associações empresariais;

meios de comunicação;

tecnologia;

capacidade financeira.

A democracia possui mecanismos institucionais diferentes daqueles do passado.

Mas a relação entre economia e política continua existindo.

Democracia e poder econômico

Uma democracia precisa garantir que o poder econômico não substitua o poder político dos cidadãos.

Isso não significa eliminar empresas ou grandes patrimônios.

Significa manter instituições capazes de impedir abusos de poder econômico.

Concorrência.

Transparência.

Regulação.

Justiça.

Liberdade de imprensa.

Participação social.

Instituições democráticas.

A questão da concorrência

Uma economia de mercado depende de concorrência.

Quando novas empresas podem entrar em um mercado, consumidores ganham alternativas.

Quando poucas empresas dominam completamente um setor, o poder de mercado aumenta.

Por isso, políticas de concorrência são importantes para preservar o funcionamento do mercado.

A elite não é necessariamente um problema

É importante fazer uma distinção.

Toda sociedade complexa possui pessoas e grupos com maior capacidade econômica.

Isso pode resultar de:

empreendedorismo;

inovação;

herança;

investimento;

talento;

risco;

acumulação.

A existência de pessoas ricas não significa, por si só, que exista um problema econômico.

A questão aparece quando riqueza e poder tornam-se tão concentrados que impedem a renovação das oportunidades.

A mobilidade é o ponto central

Uma sociedade pode possuir pessoas muito ricas e continuar sendo dinâmica se houver mobilidade.

Novas empresas podem surgir.

Novos empresários podem crescer.

Trabalhadores podem melhorar sua condição.

Famílias podem acumular patrimônio.

Filhos podem superar a condição econômica dos pais.

A economia continua renovando suas posições.

Quando a elite se torna fechada

O problema surge quando uma elite econômica se torna praticamente inacessível.

Quando o patrimônio é transmitido de geração em geração sem que novos grupos consigam entrar.

Quando educação de qualidade é restrita.

Quando crédito é inacessível.

Quando mercados são protegidos contra novos concorrentes.

Quando instituições favorecem permanentemente determinados grupos.

Nesse cenário, a mobilidade diminui.

A verdadeira questão histórica

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:

“quem são as elites?”

Mas:

“como uma sociedade permite que novas pessoas cheguem ao topo?”

Essa pergunta conecta a história colonial à economia contemporânea.

Da terra ao conhecimento

A trajetória brasileira pode agora ser observada de outra maneira.

A elite rural controlava a terra.

A elite industrial controlava fábricas e capital.

A elite financeira controlava recursos financeiros.

A elite tecnológica controla plataformas, conhecimento e infraestrutura digital.

Mas nenhuma dessas formas desapareceu completamente.

Elas se sobrepõem.

O Brasil possui múltiplas elites

Hoje existem elites:

agrárias + industriais + financeiras + empresariais + tecnológicas + culturais + profissionais.

Isso é resultado de uma economia muito mais complexa.

O país não possui apenas uma estrutura de poder econômico.

Possui várias.

O desafio do século XXI

O desafio não é destruir essas elites.

É garantir que a sociedade permaneça aberta à renovação.

Que novas empresas possam nascer.

Que trabalhadores possam ascender.

Que pequenas empresas possam crescer.

Que agricultores possam aumentar sua produtividade.

Que jovens possam criar tecnologias.

Que conhecimento possa transformar-se em oportunidade.

A grande síntese

A história brasileira mostra que as elites mudaram porque os meios de produção mudaram.

Quando a terra era o principal instrumento de riqueza, os grandes proprietários possuíam enorme influência.

Quando a indústria cresceu, os empresários industriais ganharam espaço.

Quando o sistema financeiro se expandiu, bancos e investidores tornaram-se fundamentais.

Na economia digital, tecnologia e conhecimento passaram a produzir novas formas de concentração econômica.

A estrutura mudou.

A questão permaneceu.

Quem controla os recursos fundamentais da produção?

E a história continua

Mas existe um personagem histórico que ainda precisa entrar nessa trajetória.

Um personagem que representa uma transformação diferente.

Não apenas a transformação da economia.

Mas a transformação da relação entre Estado, trabalho, indústria, direitos sociais e desenvolvimento nacional.

Para compreendê-la, será necessário voltar ao século XX e observar mais profundamente o período em que o trabalhador urbano passou a ocupar o centro da política brasileira.

E então poderemos compreender por que Getúlio Vargas, o trabalhismo, a industrialização e a formação dos direitos sociais são fundamentais para entender a continuidade dessa história.

Continua.


Parte XXVI - Da indústria à globalização: o Brasil entra na economia moderna


A industrialização transformou profundamente o Brasil.

Mas ela não encerrou a história.

Depois de construir uma base industrial, ampliar as cidades e criar um grande mercado interno, o país entrou em uma nova etapa.

A economia brasileira passou a enfrentar desafios diferentes:

inflação + urbanização acelerada + necessidade de infraestrutura + expansão do consumo + abertura internacional + avanço tecnológico.

O Brasil deixava de ser apenas uma economia em processo de industrialização.

Passava a ser uma economia industrial complexa, integrada a um mundo cada vez mais globalizado.

A economia depois de Juscelino

O crescimento acelerado dos anos de Juscelino Kubitschek deixou uma estrutura industrial mais ampla.

Mas também trouxe desafios.

O país precisava continuar investindo em energia, transporte, habitação e infraestrutura.

A população urbana crescia rapidamente.

As demandas sociais aumentavam.

E a economia precisava encontrar formas de sustentar o crescimento.

A questão já não era simplesmente:

como industrializar o Brasil?

Passava a ser:

como sustentar e aprofundar o desenvolvimento de uma economia industrial?


O Estado e o planejamento

A partir da segunda metade do século XX, o planejamento econômico ganhou importância.

O Estado passou a participar diretamente da construção de grandes projetos de infraestrutura.

Energia.

Transportes.

Telecomunicações.

Indústria de base.

Mineração.

Petróleo.

A ideia era criar condições para que a economia pudesse crescer em escala nacional.


O Brasil e os grandes projetos

A dimensão territorial brasileira exigia investimentos gigantescos.

Construir uma hidrelétrica.

Abrir uma rodovia.

Implantar uma indústria.

Expandir redes de energia.

Construir portos.

Integrar regiões.

Tudo isso exigia grandes volumes de capital.

O Estado possuía capacidade de mobilizar recursos e assumir projetos de longo prazo.


A questão energética

A industrialização aumentou enormemente a necessidade de eletricidade.

O Brasil passou a investir fortemente em hidrelétricas.

A energia tornou-se uma das bases do desenvolvimento industrial.

A construção de grandes usinas modificou regiões inteiras.

Criou infraestrutura.

Gerou empregos.

Mas também provocou impactos ambientais e sociais.

Mais uma vez, desenvolvimento e seus custos precisavam ser analisados conjuntamente.


A Amazônia entra no projeto nacional

A integração territorial também alcançou a Amazônia.

Rodovias e projetos de ocupação foram apresentados como instrumentos de integração nacional.

Mas a região possuía características ambientais e sociais completamente diferentes das áreas já industrializadas.

O desenvolvimento baseado apenas na abertura de estradas e exploração de recursos revelou seus limites.

A Amazônia começaria a ocupar um lugar cada vez mais importante no debate sobre desenvolvimento sustentável.


A industrialização cria uma nova sociedade

Enquanto o território se transformava, a sociedade também mudava.

As cidades cresceram.

A classe trabalhadora urbana aumentou.

As classes médias se expandiram.

As universidades cresceram.

Novas profissões surgiram.

O consumo de bens industriais tornou-se parte da vida cotidiana.

Geladeiras.

Televisores.

Automóveis.

Eletrodomésticos.

Depois, computadores.

A sociedade brasileira estava se tornando uma sociedade de consumo.


A televisão

A televisão teve um papel importante nessa transformação.

Ela conectou culturalmente regiões distantes.

Criou novos hábitos.

Ampliou o mercado publicitário.

Fortaleceu marcas nacionais.

Criou uma indústria cultural.

A comunicação passou a ser também uma atividade econômica de grande escala.


A indústria cultural

Música.

Cinema.

Televisão.

Publicidade.

Editorial.

Depois, rádio e televisão passaram a conviver com novas tecnologias de comunicação.

A cultura tornou-se também uma importante atividade econômica.

O consumidor não comprava apenas produtos.

Comprava experiências, símbolos e estilos de vida.


A economia brasileira se diversifica

A indústria continuava importante.

Mas os serviços começaram a ocupar espaço crescente.

Bancos.

Comércio.

Transportes.

Telecomunicações.

Educação.

Saúde.

Turismo.

Comunicação.

Finanças.

O Brasil começava a caminhar para uma economia em que os serviços teriam peso cada vez maior.


O trabalho também muda

O trabalhador do século XX já não era apenas o operário da fábrica.

Surgiram:

técnicos + administradores + professores + bancários + engenheiros + profissionais de saúde + vendedores + especialistas.

A economia passou a exigir diferentes níveis de formação.

O conhecimento adquiria valor econômico crescente.


A inflação

Mas o crescimento econômico brasileiro convivia com um problema que se tornaria central:

a inflação.

Quando os preços sobem continuamente, o dinheiro perde poder de compra.

Isso prejudica principalmente quem possui menor capacidade de proteger sua renda e seu patrimônio.

A inflação também dificulta o planejamento.

Uma empresa não sabe exatamente quanto custará produzir.

Uma família não sabe quanto pagará no futuro.

Um investidor enfrenta maior incerteza.


A inflação e a desigualdade

A inflação elevada não afeta todos da mesma maneira.

Quem possui patrimônio financeiro, imóveis ou mecanismos de proteção pode encontrar maneiras de preservar parte de seu valor.

Quem vive principalmente de salário pode sofrer mais rapidamente com a perda do poder de compra.

Por isso, estabilidade monetária também é uma questão social.


O fim do regime militar e a redemocratização

Em 1985, o Brasil iniciou uma nova etapa política com o fim do regime militar e a transição para a democracia.

A Constituição de 1988 consolidou direitos sociais e políticos e reorganizou o Estado brasileiro.

A democracia passou a conviver com uma economia ainda marcada por inflação elevada e grandes desigualdades.


A Constituição e os novos direitos

A Constituição de 1988 ampliou direitos sociais e estabeleceu novas responsabilidades para o Estado.

Educação.

Saúde.

Assistência social.

Proteção ao trabalho.

Direitos civis.

A sociedade brasileira passou a exigir não apenas crescimento econômico, mas também cidadania social.


O desafio econômico permanecia

A democracia política precisava conviver com uma economia instável.

O país já possuía uma indústria relativamente diversificada.

Possuía agricultura forte.

Possuía grandes empresas.

Possuía bancos.

Possuía universidades.

Mas enfrentava inflação, dívida e dificuldades fiscais.

A modernização econômica ainda não estava concluída.


A abertura econômica

No início da década de 1990, o Brasil iniciou uma abertura maior ao comércio internacional.

Empresas brasileiras passaram a enfrentar maior concorrência estrangeira.

Produtos importados chegaram ao mercado nacional.

Isso criou dificuldades para algumas empresas.

Mas também pressionou outras a modernizar processos e aumentar produtividade.


A concorrência internacional

A abertura revelou uma realidade importante:

não bastava produzir.

Era necessário produzir com qualidade, eficiência e preços competitivos.

O Brasil precisava competir com economias que já possuíam tecnologia e produtividade mais elevadas em determinados setores.

A globalização aumentou a pressão por inovação.


A privatização

Também ocorreram processos de privatização de empresas estatais em diferentes setores.

A justificativa variava conforme o setor e o governo, mas uma das questões centrais era redefinir o papel do Estado na economia.

O debate voltou a uma pergunta antiga:

o que deve ser produzido pelo Estado e o que pode ser produzido pelo setor privado?

Não existe uma resposta única.

Cada setor possui características próprias.


O Plano Real

Em 1994, o Brasil alcançou uma transformação econômica decisiva com o Plano Real.

A estabilização da moeda reduziu drasticamente a inflação.

Isso modificou a vida cotidiana de milhões de brasileiros.

O dinheiro passou a possuir maior previsibilidade.

O planejamento financeiro tornou-se mais possível.

O consumidor ganhou maior capacidade de comparar preços.

Empresas passaram a planejar melhor seus investimentos.


A moeda e a confiança

Uma moeda estável não é apenas uma questão técnica.

Ela depende de confiança.

Quando as pessoas acreditam que o dinheiro manterá valor razoavelmente previsível, podem planejar.

Poupar.

Investir.

Financiar.

Comprar.

Emprestar.

A estabilidade monetária tornou-se uma das bases da economia brasileira contemporânea.


O consumidor brasileiro

Com a estabilização, o consumo também se transformou.

Milhões de famílias passaram a ter maior previsibilidade para organizar seus gastos.

O acesso a bens duráveis cresceu.

O crédito se expandiu.

O mercado interno ganhou força.

A economia brasileira passou a depender cada vez mais de uma enorme massa de consumidores urbanos.


O crédito novamente aparece

Voltamos a um elemento já analisado anteriormente:

crédito é capacidade de antecipar consumo ou investimento.

Quando utilizado de maneira responsável, pode ajudar uma família a comprar uma casa ou uma empresa a expandir sua produção.

Quando utilizado sem planejamento, pode gerar endividamento.

A educação financeira tornou-se ainda mais importante.


A globalização

Enquanto o Brasil estabilizava sua moeda e reorganizava sua economia, o mundo também mudava.

Empresas começaram a produzir em diferentes países.

Cadeias produtivas internacionais se expandiram.

Capital passou a circular mais rapidamente.

Tecnologias se disseminaram.

Produtos atravessaram fronteiras em velocidade crescente.

A economia brasileira tornou-se cada vez mais integrada ao mundo.


As cadeias globais de produção

Um produto moderno pode ser resultado do trabalho de diversos países.

Uma matéria-prima pode ser extraída em um continente.

Processada em outro.

Transformada em componente em um terceiro.

Montada em outro.

Vendida mundialmente.

Isso criou enormes oportunidades.

Mas também criou dependências.


A nova questão da soberania

No passado, soberania econômica estava muito associada ao controle territorial e dos recursos naturais.

Na globalização, passou a envolver também:

tecnologia + cadeias produtivas + energia + alimentos + finanças + infraestrutura.

Um país pode possuir recursos naturais e ainda depender de tecnologia estrangeira.

Pode produzir alimentos e depender de fertilizantes importados.

Pode possuir petróleo e depender de equipamentos sofisticados.

A soberania econômica tornou-se mais complexa.


O Brasil como potência agrícola

Nesse período, a agricultura brasileira passou por uma transformação tecnológica profunda.

A produção aumentou.

A mecanização avançou.

A pesquisa agrícola se desenvolveu.

Novas variedades foram adaptadas às condições brasileiras.

O Cerrado tornou-se uma das grandes áreas agrícolas do mundo.

O Brasil deixou de ser apenas um exportador tradicional de produtos agrícolas.

Tornou-se uma potência agropecuária altamente tecnificada em diversos segmentos.


A pesquisa agrícola

A ciência teve papel decisivo nessa transformação.

Pesquisa de solo.

Melhoramento genético.

Manejo.

Tecnologia de máquinas.

Climatologia.

Irrigação.

Biotecnologia.

A agricultura tornou-se um exemplo de como conhecimento pode transformar um recurso natural em produtividade.


O paradoxo brasileiro

Aqui aparece novamente uma característica histórica.

O Brasil continuava sendo grande produtor de commodities.

Mas, ao mesmo tempo, desenvolvia indústria, ciência e tecnologia.

O país combinava características de diferentes etapas históricas.

agricultura + indústria + serviços + tecnologia.

Não houve substituição completa.

Houve acumulação.


A chegada da internet

Na década de 1990, a internet começou a transformar a comunicação.

Inicialmente restrita a uma parcela pequena da população, foi se tornando cada vez mais acessível.

E sua importância econômica cresceu rapidamente.

A internet reduziu custos de comunicação.

Criou novos mercados.

Transformou empresas.

Mudou o comércio.

Alterou profissões.


Do computador à economia digital

O computador já havia modificado escritórios e fábricas.

A internet foi além.

Ela conectou pessoas e empresas em tempo real.

Uma empresa pequena poderia divulgar seus produtos para consumidores distantes.

Uma pessoa poderia acessar informações produzidas em outro país.

O conhecimento começou a circular em escala inédita.


O comércio eletrônico

Comprar deixou de exigir presença física em uma loja.

Surgiram novas empresas.

Novos modelos de negócios.

Novas formas de pagamento.

Novas profissões.

A logística tornou-se ainda mais importante.

A economia passou a funcionar em redes.


O celular

Depois, o telefone celular transformou essa realidade.

A internet deixou de estar presa ao computador.

Passou a acompanhar as pessoas.

Comunicação.

Banco.

Comércio.

Educação.

Trabalho.

Entretenimento.

Tudo começou a caber em um aparelho.


A transformação dos bancos

Os serviços financeiros também foram profundamente transformados.

Operações que antes exigiam presença física passaram a ser realizadas digitalmente.

Pagamentos eletrônicos cresceram.

Bancos digitais surgiram.

O acesso financeiro tornou-se mais simples para milhões de pessoas.

Mas também surgiram novos riscos relacionados à segurança e à proteção de dados.


A nova economia

A economia brasileira chegava ao século XXI muito diferente daquela do período colonial.

O país possuía:

agricultura altamente produtiva + indústria diversificada + grandes cidades + sistema financeiro desenvolvido + universidades + empresas nacionais e multinacionais + infraestrutura digital.

Mas também carregava desigualdades históricas.


O que permaneceu?

A terra continuava concentrada em determinadas regiões e segmentos.

O patrimônio continuava distribuído de maneira desigual.

A educação apresentava diferenças importantes.

O acesso ao crédito não era igual.

As oportunidades regionais permaneciam diferentes.

A modernização havia transformado a economia.

Mas não havia eliminado todas as estruturas históricas.


O que mudou?

Mudou quase tudo ao mesmo tempo.

A população tornou-se majoritariamente urbana.

A economia deixou de depender principalmente da agricultura.

A indústria tornou-se fundamental.

Os serviços cresceram.

A tecnologia passou a ocupar posição estratégica.

A informação tornou-se ativo econômico.

A democracia foi restabelecida.

O país integrou-se profundamente ao mercado mundial.

Essa é a diferença entre continuidade histórica e repetição histórica.

O Brasil não voltou ao passado.

Ele carregou algumas heranças enquanto criava novas estruturas.


A nova pergunta

No início desta série, a pergunta era:

quem controla a terra, o capital e os meios de produção?

Agora precisamos acrescentar:

quem controla as cadeias globais, a tecnologia, os dados e o conhecimento?

A pergunta tornou-se maior.

E a resposta já não pode ser encontrada apenas dentro das fronteiras nacionais.


O Brasil entra definitivamente no século XXI

O país chegou ao novo século com vantagens extraordinárias:

território.

água.

energia.

agricultura.

minerais.

biodiversidade.

mercado consumidor.

indústria.

universidades.

empresas.

cultura.

capacidade científica.

Mas também com desafios igualmente grandes.

Educação.

Produtividade.

Infraestrutura.

Desigualdade.

Inovação.

Segurança jurídica.

Qualificação profissional.

Desenvolvimento regional.

Sustentabilidade.


A próxima transformação

A internet foi apenas o começo.

A economia digital trouxe uma nova geração de tecnologias:

computação em nuvem + inteligência artificial + automação + biotecnologia + robótica + novos materiais + transição energética.

Agora a mudança não acontece apenas na forma como as pessoas se comunicam.

Ela começa a transformar a própria maneira de produzir.

E isso nos leva ao próximo capítulo da história.

Porque, quando a máquina deixa de apenas executar tarefas e passa a processar informação, aprender padrões e auxiliar decisões, o significado do trabalho começa novamente a mudar.

A questão que surgiu na industrialização retorna sob uma nova forma:

o que acontecerá com o trabalhador quando a tecnologia passar a executar parte das tarefas que antes dependiam exclusivamente do trabalho humano?

E, mais uma vez, o Brasil precisará decidir se será apenas consumidor das novas tecnologias ou se terá capacidade de produzi-las, dominá-las e transformá-las em desenvolvimento nacional.

Continua.

O impacto do surto de esclerose múltipla e o fortalecimento de habilidades preexistentes

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