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"Inspirado em Heidegger, Brincadeira Sustentável (por Renata Bravo) não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser digerida, vivida e incorporada."

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Parte XXXVI - A questão brasileira: como transformar riqueza em oportunidade

 Depois de percorrer a formação econômica do Brasil, suas transformações políticas, a industrialização, a urbanização, a redemocratização, a globalização e a economia do conhecimento, chegamos a uma questão que reúne praticamente toda a trajetória anterior:

como transformar a capacidade de produzir riqueza em capacidade de gerar oportunidades?

Essa pergunta não possui uma resposta simples.

E talvez justamente por isso ela acompanhe a história brasileira há tantos séculos.

O Brasil nunca foi um país sem riqueza

Desde o início da colonização, o território brasileiro apresentou recursos de enorme valor econômico.

Terra fértil.

Florestas.

Água.

Minérios.

Petróleo.

Potencial energético.

Biodiversidade.

Grande extensão territorial.

Ao longo do tempo, novos recursos foram incorporados à economia.

Mas possuir riqueza natural não significa automaticamente transformar essa riqueza em desenvolvimento.

Recurso não é o mesmo que desenvolvimento

Uma floresta possui valor.

Um minério possui valor.

Uma terra produtiva possui valor.

Um poço de petróleo possui valor.

Mas o valor econômico depende da capacidade de:

produzir + transformar + transportar + comercializar + inovar.

É nessa transformação que entra o conhecimento.

O verdadeiro diferencial

Dois países podem possuir recursos semelhantes e obter resultados completamente diferentes.

Um pode exportar matéria-prima.

Outro pode desenvolver tecnologia, indústria, marcas e cadeias produtivas a partir da mesma matéria-prima.

A diferença está na capacidade de organização.

O exemplo da agricultura

O Brasil produz enormes quantidades de alimentos.

Mas a cadeia começa muito antes da colheita.

Existe:

pesquisa genética;

produção de sementes;

máquinas;

fertilizantes;

defensivos;

irrigação;

crédito;

armazenagem;

transporte;

processamento;

comércio;

exportação.

A agricultura moderna é uma cadeia tecnológica.

O agricultor do século XXI

O agricultor contemporâneo precisa tomar decisões cada vez mais complexas.

Precisa conhecer:

clima;

mercados;

custos;

tecnologia;

financiamento;

logística;

legislação;

gestão.

A imagem do agricultor exclusivamente dependente do trabalho manual já não representa grande parte da agricultura empresarial brasileira.

Mas a pequena propriedade também pode inovar

Tecnologia não pertence necessariamente apenas aos grandes produtores.

Pequenos agricultores podem utilizar:

cooperativas;

máquinas compartilhadas;

assistência técnica;

tecnologia digital;

comercialização direta;

agroindústria familiar.

A organização coletiva pode aumentar a capacidade econômica de pequenos produtores.

Cooperativismo

As cooperativas possuem importância histórica nesse processo.

Elas permitem que produtores individuais atuem coletivamente.

Podem facilitar:

compra de insumos + processamento + armazenamento + crédito + comercialização.

O produtor mantém sua atividade, mas ganha escala por meio da cooperação.

A economia da cooperação

Isso revela algo importante.

A economia não funciona apenas por competição.

Também funciona por cooperação.

Empresas podem competir e, ao mesmo tempo, participar de cadeias produtivas comuns.

Produtores podem cooperar.

Universidades podem cooperar com empresas.

Municípios podem cooperar.

Países podem formar acordos comerciais.

A competição e a cooperação

Uma economia dinâmica precisa das duas.

A competição estimula eficiência.

A cooperação permite escala.

O equilíbrio entre ambas pode aumentar a capacidade produtiva.

O pequeno negócio e a grande empresa

Também não é necessário escolher entre pequenos e grandes.

Grandes empresas podem realizar investimentos que pequenos negócios não conseguiriam.

Pequenas empresas podem ser mais flexíveis e inovadoras.

Uma economia saudável precisa de diferentes tamanhos de empresas.

As cadeias produtivas

Uma grande indústria pode depender de centenas de fornecedores.

Uma montadora, por exemplo, movimenta uma rede de:

componentes;

serviços;

logística;

tecnologia;

manutenção;

engenharia.

Por isso, o impacto econômico de uma empresa ultrapassa seu número direto de empregados.

A indústria como multiplicadora

Quanto mais complexa a cadeia produtiva, maior pode ser a capacidade de gerar conhecimento.

Produzir um produto sofisticado exige fornecedores especializados.

Esses fornecedores precisam desenvolver tecnologia.

A tecnologia exige trabalhadores qualificados.

Os trabalhadores precisam de formação.

Assim, uma indústria sofisticada gera efeitos em cadeia.

O desafio da desindustrialização

O Brasil enfrenta há décadas discussões sobre perda de participação industrial.

A questão é relevante porque a indústria possui capacidade de gerar produtividade e inovação.

Mas também é preciso reconhecer que serviços modernos podem ser altamente tecnológicos.

Tecnologia da informação.

Finanças.

Engenharia.

Saúde.

Comunicação.

Serviços empresariais.

A economia contemporânea mistura indústria e serviços.

A indústria do futuro

A separação entre indústria e tecnologia tende a desaparecer.

Uma fábrica moderna pode depender tanto de máquinas quanto de software.

Pode utilizar inteligência artificial.

Sensores.

Robótica.

Análise de dados.

Impressão 3D.

A indústria torna-se cada vez mais digital.

A agricultura também se torna indústria de conhecimento

O mesmo acontece no campo.

Uma fazenda moderna pode depender de:

satélites;

software;

sensores;

maquinário;

pesquisa;

dados meteorológicos.

A fronteira entre agricultura, indústria e tecnologia torna-se cada vez mais tênue.

O Brasil precisa agregar valor

Agregar valor não significa abandonar as commodities.

Significa aproveitar sua produção para desenvolver cadeias mais sofisticadas.

O café pode gerar indústria de torrefação.

O cacau pode gerar chocolate.

A soja pode gerar alimentos e produtos industriais.

A madeira cultivada pode gerar celulose e materiais avançados.

O petróleo pode estimular petroquímica.

A biodiversidade pode estimular bioeconomia.

O conhecimento transforma matéria-prima

Essa é uma das ideias centrais para o futuro brasileiro.

A matéria-prima possui valor.

Mas o conhecimento pode multiplicar esse valor.

Uma semente não é apenas uma semente.

Pode carregar décadas de pesquisa.

Um minério não é apenas uma pedra.

Pode ser transformado em componentes tecnológicos.

Uma molécula da biodiversidade pode tornar-se objeto de pesquisa.

A propriedade intelectual

Nesse ponto surge outro tipo de patrimônio:

a propriedade intelectual.

Patentes.

Marcas.

Tecnologias.

Processos.

Software.

Design.

Conhecimento protegido.

Na economia moderna, esses ativos podem valer tanto quanto bens físicos.

O novo patrimônio

No passado, uma família podia transmitir:

terra;

casa;

gado;

empresa.

Hoje também pode transmitir:

educação;

empresa tecnológica;

propriedade intelectual;

capital financeiro;

conhecimento.

O conceito de patrimônio tornou-se mais amplo.

A sucessão entre gerações

Isso ajuda a compreender por que desigualdades podem persistir.

Famílias que acumulam patrimônio conseguem transmitir vantagens.

Famílias sem patrimônio precisam começar novamente a cada geração.

Essa é uma das razões pelas quais a mobilidade social pode ser lenta.

A oportunidade de construir patrimônio

Por isso, desenvolvimento não deve pensar apenas em renda.

Também deve criar condições para que famílias possam construir patrimônio.

Isso pode ocorrer por diferentes caminhos:

moradia + educação + poupança + empreendedorismo + propriedade + investimento.

A casa própria

A moradia possui uma dimensão econômica importante.

Uma residência pode representar segurança patrimonial.

Pode reduzir vulnerabilidade.

Pode ser transmitida para a geração seguinte.

Mas políticas habitacionais precisam considerar localização, infraestrutura e acesso a serviços.

Uma casa distante de empregos e transporte pode não produzir o mesmo efeito econômico que uma moradia integrada à cidade.

O território urbano

A urbanização brasileira criou outro tipo de desigualdade.

Não é apenas a diferença entre possuir ou não possuir uma casa.

É a diferença entre viver em uma região com:

transporte + escolas + hospitais + empregos + saneamento + segurança + internet

e viver em uma região sem esses serviços.

Infraestrutura também é patrimônio coletivo.

A cidade como meio de produção

Uma cidade bem organizada aumenta produtividade.

Reduz tempo de deslocamento.

Facilita comércio.

Aproxima trabalhadores de empresas.

Melhora acesso a serviços.

Por isso, planejamento urbano também é política econômica.

O saneamento

Água tratada e coleta de esgoto não são apenas questões de saúde.

Também afetam produtividade.

Doenças reduzem frequência escolar e capacidade de trabalho.

A falta de saneamento gera custos sociais.

Investir em infraestrutura básica é investir em capital humano.

A educação novamente

E chegamos outra vez à educação.

Ela aparece em praticamente todos os setores.

Na agricultura.

Na indústria.

Nos serviços.

Na tecnologia.

Na saúde.

No empreendedorismo.

Na administração pública.

Por isso, educação talvez seja o investimento mais transversal de uma economia.

A qualidade importa

Não basta ampliar matrícula.

É necessário garantir aprendizagem.

Uma criança precisa realmente desenvolver:

leitura + escrita + matemática + ciência + pensamento crítico + criatividade.

Sem aprendizagem, o acesso formal à escola não produz todos os efeitos esperados.

A formação técnica

Também é necessário valorizar a formação profissional.

Uma economia precisa de:

técnicos;

eletricistas;

mecânicos;

programadores;

enfermeiros;

agentes ambientais;

agricultores especializados;

engenheiros;

designers;

professores.

O desenvolvimento depende de diferentes profissões.

O trabalho manual não desapareceu

A tecnologia transforma o trabalho, mas não elimina a necessidade de habilidades práticas.

Construir.

Consertar.

Plantar.

Cuidar.

Produzir.

Instalar.

Transportar.

Muitas atividades continuam essenciais.

O futuro não será apenas digital.

Será uma combinação entre habilidades humanas e tecnologias.

A inteligência artificial e o trabalhador

A inteligência artificial poderá assumir algumas tarefas.

Mas também poderá aumentar a capacidade de trabalhadores.

Um profissional pode utilizar ferramentas de IA para pesquisar, analisar dados ou automatizar tarefas repetitivas.

A tecnologia pode ser instrumento de ampliação da capacidade humana.

O risco da exclusão

Mas aqueles que não tiverem acesso à tecnologia podem ficar para trás.

Por isso, a inclusão digital precisa caminhar junto com a educação.

O Estado novamente

Chegamos, então, a uma conclusão importante.

O Estado não consegue criar sozinho toda a riqueza.

Mas pode criar condições para que a sociedade produza mais.

Pode:

educar + regular + construir infraestrutura + financiar pesquisa + proteger direitos + garantir estabilidade.

O mercado novamente

O mercado também não consegue resolver todos os problemas sociais.

Mas possui capacidade extraordinária de mobilizar recursos e descobrir soluções.

Empresas podem:

investir + inovar + produzir + empregar + exportar.

A sociedade

Existe ainda um terceiro elemento:

a sociedade.

Famílias.

Comunidades.

Cooperativas.

Organizações sociais.

Universidades.

Associações.

Todos participam da construção do desenvolvimento.

Um novo pacto

Talvez o Brasil precise justamente de uma combinação dessas forças.

Um pacto baseado em:

produção + oportunidade + responsabilidade + conhecimento.

Não é um modelo fechado.

É uma direção.

O que permanece da história

Depois de tantos séculos, algumas questões continuam.

A concentração fundiária.

As desigualdades regionais.

A desigualdade patrimonial.

O acesso desigual à educação.

A concentração econômica.

Mas outras coisas mudaram profundamente.

A democracia.

A industrialização.

A urbanização.

A tecnologia.

A ciência.

A integração internacional.

A história não se repete exatamente

Esse ponto é fundamental.

Não vivemos mais no Brasil colonial.

Não vivemos no Brasil imperial.

Não vivemos na República Velha.

Não vivemos na Era Vargas.

Não vivemos na ditadura militar.

O Brasil mudou.

Mas as escolhas feitas em cada período deixaram consequências para o seguinte.

A continuidade histórica

A história pode ser entendida como uma cadeia.

A estrutura fundiária influenciou a sociedade.

A sociedade influenciou a política.

A política influenciou a economia.

A industrialização transformou o trabalho.

A urbanização transformou a sociedade.

A educação transformou oportunidades.

A tecnologia está transformando novamente a economia.

Nada disso acontece isoladamente.

A grande questão brasileira

Talvez o Brasil não precise escolher entre ser:

agrícola ou industrial;

público ou privado;

nacional ou global;

tradicional ou tecnológico.

Pode ser várias coisas simultaneamente.

A questão é conseguir integrar essas dimensões.

O país das contradições

O Brasil pode ser:

um dos maiores produtores agrícolas do mundo e ainda possuir insegurança alimentar em determinados grupos;

uma grande economia e ainda apresentar pobreza;

um país industrializado e ainda importar tecnologias estratégicas;

uma democracia consolidada e ainda enfrentar desigualdades profundas;

um país rico em recursos naturais e ainda ter regiões com infraestrutura insuficiente.

Essas contradições não significam ausência de potencial.

Significam que o potencial ainda não foi plenamente convertido em desenvolvimento.

Transformar potencial em capacidade

Essa talvez seja a tarefa central.

O Brasil não precisa descobrir que possui recursos.

Isso já sabemos.

Precisa transformar recursos em:

produtividade + conhecimento + patrimônio + oportunidades.

E a pergunta inicial retorna

Quem controla a terra, o capital e os meios de produção possui maior capacidade de influenciar a economia.

Mas no século XXI precisamos ampliar a equação:

quem possui conhecimento, tecnologia, capital e capacidade de inovação também possui maior capacidade de influenciar o futuro.

A democratização das oportunidades passa, portanto, pela democratização desses instrumentos.

Uma nova definição de reforma

Talvez por isso as reformas brasileiras precisem ser compreendidas de maneira mais ampla.

Reforma agrária.

Reforma tributária.

Reforma educacional.

Reforma administrativa.

Reforma urbana.

Reforma produtiva.

Transformação tecnológica.

Todas possuem uma pergunta comum:

como tornar o país mais capaz de produzir e, ao mesmo tempo, ampliar as possibilidades de participação?

O futuro não está escrito

A história não determina completamente o futuro.

Ela estabelece condições.

As escolhas das novas gerações podem modificar essas condições.

Tecnologia pode ampliar oportunidades.

Educação pode romper ciclos.

Empreendedorismo pode criar patrimônio.

Ciência pode transformar recursos.

Instituições podem reduzir conflitos.

Democracia pode organizar diferenças.

A conclusão se aproxima

Talvez a maior riqueza de um país não esteja apenas naquilo que ele possui.

Esteja naquilo que ele consegue fazer com o que possui.

O Brasil possui terra.

Possui água.

Possui energia.

Possui biodiversidade.

Possui indústria.

Possui agricultura.

Possui universidades.

Possui empresas.

Possui população.

Possui território.

Possui criatividade.

A questão é transformar tudo isso em um sistema capaz de produzir prosperidade de longo prazo.

E talvez essa seja a verdadeira continuidade da história

A terra foi o grande instrumento de riqueza de muitos períodos.

O capital ampliou a capacidade de investimento.

A indústria transformou a produção.

A educação ampliou capacidades.

A tecnologia acelerou a transformação.

Agora, o conhecimento conecta todos esses elementos.

E é por isso que a próxima etapa da história brasileira talvez seja menos uma disputa sobre qual recurso possui mais valor e mais uma disputa sobre:

quem terá capacidade de combinar os recursos disponíveis para criar o futuro.

Essa é uma disputa econômica.

Mas também é uma disputa educacional.

Cultural.

Tecnológica.

Social.

E, sobretudo, uma disputa por oportunidades.

Continua.

Parte XXXV - O Brasil diante de um novo pacto de desenvolvimento

 A história brasileira chegou a um ponto em que as antigas categorias já não são suficientes para explicar completamente a realidade.

A terra continua importante.

O capital continua importante.

O trabalho continua importante.

A indústria continua importante.

Mas a economia acrescentou novos elementos:

conhecimento + tecnologia + dados + inovação + sustentabilidade.

O desafio passa a ser conectar todos esses elementos dentro de um projeto de desenvolvimento.

Desenvolvimento não é apenas crescimento

Uma economia pode crescer sem transformar profundamente a vida de toda a população.

O Produto Interno Bruto pode aumentar.

As exportações podem crescer.

A produção agrícola pode bater recordes.

A indústria pode se expandir.

Mas ainda assim podem permanecer:

desigualdade + pobreza + baixa produtividade + falta de infraestrutura + dificuldades educacionais.

Por isso, crescimento e desenvolvimento não são exatamente a mesma coisa.

O que é desenvolvimento?

Desenvolvimento envolve ampliar a capacidade de uma sociedade produzir, inovar e melhorar as condições de vida.

Isso exige:

renda + produtividade + educação + saúde + infraestrutura + segurança + patrimônio + oportunidades.

Não existe uma única medida capaz de representar tudo isso.

A produção é indispensável

Nenhuma sociedade consegue distribuir aquilo que não produz.

É necessário produzir:

alimentos;

energia;

bens;

serviços;

tecnologia;

conhecimento.

A produção cria riqueza.

Mas a produção precisa estar inserida em uma estrutura que permita que essa riqueza gere oportunidades.

A produtividade

A produtividade é uma das chaves dessa equação.

Se um trabalhador consegue produzir mais utilizando melhores ferramentas, tecnologia e conhecimento, a economia pode crescer sem depender apenas do aumento da quantidade de trabalho.

Por isso, produtividade pode contribuir para:

salários melhores + empresas mais competitivas + maior arrecadação + maior capacidade de investimento.

Produtividade e qualidade de vida

Uma economia mais produtiva pode produzir mais utilizando menos recursos.

Isso pode significar:

menos desperdício;

melhor utilização da energia;

maior eficiência agrícola;

melhores serviços;

mais capacidade de investimento.

Produtividade não é apenas uma questão empresarial.

É uma questão social.

O investimento

Para aumentar produtividade, é necessário investir.

Máquinas.

Infraestrutura.

Pesquisa.

Educação.

Tecnologia.

Energia.

Logística.

Mas investimento depende de confiança.

Confiança

Empresas investem quando acreditam que poderão recuperar o capital aplicado.

Famílias investem quando acreditam que conseguirão manter sua renda.

Pessoas compram imóveis quando confiam em sua capacidade financeira.

Investidores procuram ambientes nos quais as regras sejam relativamente previsíveis.

A confiança é um ativo econômico.

Segurança jurídica

Por isso, instituições importam.

Contratos precisam ser respeitados.

Propriedade precisa possuir proteção jurídica.

Regras precisam ser conhecidas.

O Estado precisa funcionar.

A democracia precisa permitir mudanças sem destruir a estabilidade institucional.

O papel do Estado

O Estado possui funções que são fundamentais.

Garantir direitos.

Oferecer serviços públicos.

Regular mercados.

Construir infraestrutura.

Investir em áreas estratégicas.

Proteger o patrimônio ambiental.

Financiar ciência.

Mas existe também um limite.

Um Estado excessivamente ineficiente pode aumentar custos e reduzir produtividade.

O papel do mercado

O mercado possui capacidade de:

organizar produção + estimular concorrência + descobrir demandas + mobilizar capital + incentivar inovação.

Mas mercados também podem produzir concentração.

Empresas podem adquirir poder excessivo.

Determinados grupos podem controlar recursos estratégicos.

Por isso, mercados precisam de instituições.

Estado e mercado não precisam ser inimigos

Essa talvez seja uma das conclusões mais importantes desta longa trajetória.

A discussão madura não deveria ser:

Estado ou mercado?

Mas:

onde o Estado funciona melhor e onde o mercado funciona melhor?

E principalmente:

como os dois podem funcionar de maneira complementar?

A propriedade privada

A propriedade privada possui papel importante na economia.

Ela permite que indivíduos e empresas acumulem patrimônio, invistam e assumam riscos.

Mas propriedade também precisa estar inserida em um ambiente de regras.

A existência de propriedade privada não elimina a necessidade de políticas públicas.

A questão da concentração

O problema surge quando a concentração econômica impede a concorrência ou reduz permanentemente as oportunidades de entrada.

Por isso, uma economia dinâmica precisa permitir:

criação de novas empresas + concorrência + acesso ao crédito + inovação + mobilidade.

A pequena empresa

Pequenas empresas possuem papel importante nesse processo.

Elas podem:

gerar empregos;

atender mercados locais;

criar soluções;

experimentar produtos;

formar novos empreendedores.

Muitas grandes empresas começaram pequenas.

O empreendedor

O empreendedorismo pode ser uma forma de mobilidade econômica.

Mas não deve ser romantizado.

Empreender envolve risco.

Muitos negócios fecham.

Nem todos conseguem sobreviver.

Por isso, o ambiente econômico precisa reduzir obstáculos desnecessários sem eliminar a responsabilidade individual.

A informalidade

A informalidade revela parte desse problema.

Muitas pessoas trabalham fora da estrutura formal porque encontram dificuldades para entrar no mercado formal.

A informalidade pode representar autonomia.

Mas também pode significar:

menor proteção + menor acesso ao crédito + menor capacidade de planejamento + menor proteção previdenciária.

Formalizar atividades pode ampliar oportunidades.

O trabalhador do século XXI

O trabalho também mudou.

O trabalhador contemporâneo pode ser:

empregado industrial;

profissional liberal;

prestador de serviço;

empreendedor;

agricultor;

pesquisador;

trabalhador remoto;

profissional de tecnologia.

As relações de trabalho tornaram-se mais diversas.

A proteção social

A transformação do trabalho cria novos desafios.

Como proteger trabalhadores sem impedir inovação?

Como garantir direitos sem tornar a contratação excessivamente rígida?

Como adaptar a previdência a uma população que vive mais?

Como proteger quem trabalha por plataformas digitais?

São questões ainda em construção.

O Brasil envelhece

A estrutura demográfica brasileira também está mudando.

A população está envelhecendo.

Isso significa que o país precisará pensar simultaneamente em:

produtividade + previdência + saúde + mercado de trabalho + cuidado.

Quanto maior a produtividade por trabalhador, maior a capacidade de sustentar uma sociedade envelhecida.

A questão regional

O Brasil também continua profundamente desigual entre regiões.

Existem áreas com elevada infraestrutura e outras com carências históricas.

A desigualdade regional não é apenas social.

É econômica.

Infraestrutura como integração nacional

Uma estrada conecta mercados.

Uma ferrovia reduz custos.

Um porto conecta o produtor ao mundo.

Uma rede elétrica permite industrialização.

Uma conexão de internet permite educação e negócios.

Infraestrutura integra territórios.

O território como vantagem

O enorme território brasileiro pode ser uma vantagem.

Permite:

produção agrícola diversificada;

geração de energia;

mineração;

turismo;

indústria;

biodiversidade.

Mas território sem infraestrutura pode transformar distância em custo.

A Amazônia

A Amazônia ocupa posição especial.

Ela possui biodiversidade, água, recursos naturais e importância climática.

Mas também possui populações, cidades, atividades econômicas e necessidades de desenvolvimento.

A discussão não pode ser reduzida a:

preservar ou explorar.

A questão é:

como desenvolver mantendo a floresta e valorizando as populações que vivem nela?

A bioeconomia

A bioeconomia oferece uma possibilidade.

Produtos da floresta podem gerar renda sem exigir necessariamente sua destruição.

Mas isso depende de:

ciência + tecnologia + mercado + conhecimento local + conservação.

A transição energética

O mundo também está mudando sua matriz energética.

Países procuram reduzir emissões e ampliar fontes renováveis.

O Brasil possui vantagens importantes.

Energia hidrelétrica.

Solar.

Eólica.

Biomassa.

Biocombustíveis.

Petróleo.

A questão será administrar essa transição sem comprometer segurança energética e competitividade.

O etanol

O Brasil possui longa experiência com biocombustíveis.

A produção de etanol criou uma cadeia tecnológica e agrícola importante.

O setor demonstra que agricultura, indústria, energia e tecnologia podem estar integrados.

O futuro do agronegócio

A agricultura também poderá passar por outra transformação.

Mais tecnologia.

Mais automação.

Mais precisão.

Mais eficiência.

Mais rastreabilidade.

Mais preocupação ambiental.

A propriedade rural do futuro poderá depender cada vez mais de conhecimento.

O futuro da indústria

A indústria também precisará mudar.

Automação.

Robótica.

Inteligência artificial.

Novos materiais.

Biotecnologia.

Eficiência energética.

A indústria brasileira precisará competir não apenas pelo preço.

Precisará competir por qualidade e tecnologia.

O novo valor da educação

Nesse cenário, educação deixa de ser apenas instrumento de mobilidade individual.

Passa a ser infraestrutura estratégica nacional.

Um país que não consegue formar pesquisadores, engenheiros, técnicos, professores, gestores e empreendedores terá dificuldade para competir.

O pacto de desenvolvimento

Talvez o Brasil precise pensar em um novo pacto.

Um pacto capaz de combinar:

liberdade econômica + responsabilidade fiscal + investimento + educação + ciência + infraestrutura + proteção social + sustentabilidade + democracia.

Não se trata de criar um modelo perfeito.

Trata-se de construir equilíbrio.

A responsabilidade fiscal

Direitos e políticas públicas precisam de financiamento.

Um Estado que gasta permanentemente acima de sua capacidade pode gerar dívida, inflação ou perda de confiança.

Por isso, responsabilidade fiscal não é necessariamente uma pauta contra políticas sociais.

Pode ser justamente uma condição para sustentá-las no longo prazo.

A responsabilidade social

Da mesma forma, responsabilidade fiscal não significa ignorar desigualdades.

Uma sociedade profundamente desigual pode desperdiçar parte de seu potencial.

Uma criança que não recebe educação adequada pode deixar de desenvolver capacidades que beneficiariam toda a economia.

O equilíbrio

O desafio está justamente entre esses extremos.

Não se trata de:

Estado máximo ou Estado mínimo.

Nem de:

mercado absoluto ou planejamento absoluto.

Trata-se de construir instituições capazes de combinar:

liberdade + responsabilidade.

A grande transformação

Ao longo desta série, a pergunta inicial foi se as estruturas econômicas do passado ainda influenciam o presente.

A resposta é sim.

Mas elas não permaneceram iguais.

A terra continua importante, mas a agricultura tornou-se tecnológica.

O capital continua importante, mas tornou-se financeiro e digital.

O trabalho continua essencial, mas tornou-se mais diversificado.

O poder político continua relacionado à economia, mas hoje possui novas formas.

E surgiu uma dimensão que ganhou enorme importância:

o conhecimento.

Do passado ao futuro

A trajetória brasileira pode ser resumida como uma sequência de transformações:

terra → comércio → trabalho → indústria → urbanização → capital → globalização → tecnologia → conhecimento.

Mas cada etapa não eliminou completamente a anterior.

Elas se sobrepuseram.

O Brasil do século XXI ainda possui grandes propriedades rurais.

Ainda possui agricultura familiar.

Ainda possui indústria.

Ainda possui mineração.

Ainda possui trabalhadores tradicionais.

E, ao mesmo tempo, possui empresas digitais e inteligência artificial.

Essa coexistência é uma das características do país.

A pergunta final começa a aparecer

Depois de percorrer tantos períodos históricos, talvez a questão central já não seja apenas:

quem possui a riqueza?

Mas:

quem possui condições para criar riqueza?

Essa diferença é enorme.

Uma sociedade pode concentrar patrimônio.

Mas também pode ampliar a capacidade de criação de patrimônio.

Pode ampliar:

educação + crédito + propriedade + tecnologia + empreendedorismo + infraestrutura.

A verdadeira mobilidade

Mobilidade social não significa que todos terão exatamente o mesmo patrimônio.

Significa que uma pessoa que nasce em uma condição econômica modesta possa, por meio de educação, trabalho, empreendedorismo, investimento e oportunidades, melhorar significativamente sua condição de vida.

Isso exige liberdade.

Mas também exige condições.

A liberdade econômica

A liberdade econômica permite escolher.

Escolher uma profissão.

Abrir uma empresa.

Investir.

Produzir.

Comprar.

Vender.

Poupar.

Mas escolhas reais dependem de capacidades reais.

Por isso:

liberdade e oportunidade precisam caminhar juntas.

A grande síntese

A história brasileira demonstra que nenhuma transformação econômica acontece isoladamente.

A terra depende de infraestrutura.

A indústria depende de energia.

A empresa depende de trabalhadores.

O trabalhador depende de educação.

A tecnologia depende de ciência.

A ciência depende de formação.

O Estado depende de arrecadação.

A arrecadação depende de uma economia produtiva.

E a democracia depende de instituições capazes de organizar esses interesses.

Tudo está conectado.

O futuro

O futuro brasileiro não está predeterminado.

O país possui vantagens extraordinárias.

Mas vantagens não são destinos.

Precisam ser transformadas em capacidade.

A terra precisa de tecnologia.

A indústria precisa de inovação.

A educação precisa de qualidade.

O Estado precisa de eficiência.

O mercado precisa de concorrência.

A sociedade precisa de oportunidades.

E talvez essa seja a grande lição desta história

O Brasil não precisa escolher entre seu passado e seu futuro.

Pode preservar sua memória e transformar sua economia.

Pode produzir alimentos e tecnologia.

Pode exportar commodities e desenvolver indústria.

Pode utilizar recursos naturais e proteger o ambiente.

Pode manter a propriedade privada e ampliar oportunidades.

Pode fortalecer empresas e estimular novos empreendedores.

Pode ter mercado e Estado.

Pode ter crescimento e proteção social.

A questão é construir instituições capazes de fazer essas dimensões funcionarem juntas.

A pergunta que fica

Depois de séculos de transformações, permanece uma pergunta simples:

quem terá a oportunidade de participar da próxima etapa do desenvolvimento brasileiro?

A resposta dependerá de decisões que estão sendo tomadas agora.

Na educação.

Na economia.

Na política.

Na ciência.

Na infraestrutura.

Na proteção ambiental.

No sistema tributário.

No acesso ao crédito.

Na formação das novas gerações.

Porque o futuro econômico de um país não começa quando uma nova tecnologia chega ao mercado.

Começa quando uma criança tem a oportunidade de aprender, imaginar e criar.

Continua.

Parte XXXIV - A infância, a educação e a formação das oportunidades

A história econômica brasileira chegou a um ponto em que uma questão se tornou inevitável:

como preparar uma sociedade para uma economia baseada cada vez mais em conhecimento, tecnologia e inovação?

A resposta começa antes do emprego.

Começa na infância.

A infância como ponto de partida

Toda sociedade possui diferentes pontos de partida.

Algumas crianças nascem em famílias com patrimônio, livros, acesso à tecnologia, boa alimentação, espaços culturais e tempo disponível para acompanhar seus estudos.

Outras começam a vida enfrentando limitações econômicas, territoriais e sociais.

A diferença de oportunidades pode surgir muito antes da entrada no mercado de trabalho.

Por isso, discutir desenvolvimento também significa discutir infância.

O capital humano

A economia moderna passou a utilizar uma expressão importante:

capital humano.

Ela representa conhecimentos, habilidades e capacidades que aumentam a produtividade de uma pessoa.

Mas uma criança não deve ser vista apenas como futura força de trabalho.

A infância possui dignidade e valor próprios.

A questão econômica aparece como consequência:

uma sociedade que cuida melhor de suas crianças também aumenta suas possibilidades futuras de desenvolvimento.

A primeira escola

Antes da escola formal existe outro espaço de aprendizagem:

a família e a comunidade.

É ali que a criança começa a desenvolver linguagem, confiança, curiosidade, autonomia e capacidade de convivência.

O ambiente em que cresce pode ampliar ou limitar suas possibilidades.

Por isso, políticas públicas de infância possuem também uma dimensão econômica de longo prazo.

O brincar

Brincar é uma das primeiras formas de experimentar o mundo.

Quando uma criança constrói uma casa com caixas, cria uma regra para uma brincadeira, inventa uma história ou transforma objetos em brinquedos, está exercitando:

imaginação + planejamento + linguagem + coordenação + negociação + resolução de problemas.

Essas capacidades serão úteis durante toda a vida.

Brincar não é o oposto de aprender

Durante muito tempo, algumas concepções educacionais separaram brincadeira e aprendizagem.

Mas a experiência infantil demonstra o contrário.

A criança aprende enquanto experimenta.

Aprende quando erra.

Aprende quando cria.

Aprende quando observa.

Aprende quando pergunta.

Aprende quando tenta novamente.

O brincar pode ser uma poderosa forma de aprendizagem.

A criatividade

A economia contemporânea valoriza cada vez mais a capacidade de criar.

Máquinas podem repetir tarefas.

Sistemas podem processar grandes volumes de dados.

Algoritmos podem identificar padrões.

Mas a criatividade humana continua sendo fundamental para imaginar novas possibilidades.

Por isso, uma educação que elimina a curiosidade pode limitar justamente uma das capacidades mais importantes da economia do futuro.

A cultura como formação

A criança também aprende por meio da cultura.

Música.

Literatura.

Artes visuais.

Teatro.

Dança.

Brincadeiras tradicionais.

Artesanato.

Histórias familiares.

Conhecimentos da comunidade.

Tudo isso amplia repertório.

O patrimônio imaterial

Muitas dessas experiências não existem apenas em objetos físicos.

Uma cantiga.

Uma brincadeira.

Uma receita.

Uma história.

Uma técnica artesanal.

Um modo de construir um brinquedo.

Tudo isso pode ser transmitido entre gerações.

O patrimônio cultural também é uma forma de conhecimento.

Natureza como espaço de aprendizagem

A relação com a natureza possui outra dimensão.

Uma criança que observa uma árvore aprende sobre ciclos.

Que planta uma semente aprende sobre tempo.

Que cuida de uma horta aprende sobre responsabilidade.

Que acompanha uma mudança climática percebe relações entre ambiente e produção.

A natureza pode funcionar como uma grande sala de aula.

Educação e sustentabilidade

Essa experiência também prepara para um dos maiores desafios econômicos do século XXI:

produzir sem destruir os recursos necessários à produção futura.

Água.

Solo.

Florestas.

Biodiversidade.

Energia.

Tudo isso possui valor econômico e ambiental.

A economia circular

Outra transformação importante é a busca por reduzir desperdícios.

Materiais podem ser reutilizados.

Produtos podem ser reparados.

Resíduos podem voltar à cadeia produtiva.

Objetos podem ganhar novas funções.

Essa lógica aproxima sustentabilidade de inovação.

A criança como criadora

Quando uma criança transforma uma embalagem em brinquedo, por exemplo, não está apenas reutilizando material.

Está exercitando uma ideia fundamental da economia:

um recurso pode possuir mais de uma função.

Ela observa.

Imagina.

Transforma.

Cria.

Esse processo é uma pequena experiência de inovação.

Educação financeira

Outro conhecimento importante é compreender o dinheiro.

Uma criança pode aprender, de maneira adequada à sua idade:

guardar + escolher + planejar + comparar + esperar.

Educação financeira não precisa ensinar apenas a ganhar dinheiro.

Precisa ensinar a tomar decisões.

Patrimônio começa com escolhas

A construção de patrimônio também envolve hábitos.

Poupar.

Planejar.

Evitar desperdícios.

Investir em educação.

Conhecer riscos.

Compreender crédito.

Essas capacidades podem ser desenvolvidas gradualmente.

A escola e a desigualdade

A escola pública possui uma função ainda maior em sociedades desiguais.

Ela pode oferecer a uma criança oportunidades que talvez não estejam disponíveis em sua família.

Biblioteca.

Laboratório.

Internet.

Arte.

Esporte.

Ciência.

Contato com diferentes conhecimentos.

Mas a escola sozinha não resolve tudo

É importante não atribuir à escola responsabilidades que pertencem à sociedade inteira.

Uma educação de qualidade depende também de:

família + comunidade + políticas públicas + cultura + saúde + alimentação + segurança + infraestrutura.

A criança aprende em uma rede de relações.

Inclusão

A igualdade de oportunidades também exige reconhecer que as crianças são diferentes.

Algumas aprendem melhor por meio de imagens.

Outras por meio de movimento.

Algumas precisam de mais tempo.

Outras necessitam de ambientes com menos estímulos.

A educação precisa ser capaz de acolher diferentes formas de aprender.

A diversidade como potencial

Diferenças não significam necessariamente deficiência.

Uma sociedade pode se beneficiar de diferentes formas de percepção, criatividade e resolução de problemas.

A inclusão amplia a participação.

E ampliar a participação significa também ampliar o potencial produtivo e cultural da sociedade.

A tecnologia na infância

A tecnologia pode ser instrumento de aprendizagem.

Mas não deve substituir experiências fundamentais da infância.

Uma criança precisa também:

correr + tocar + construir + conversar + imaginar + observar + brincar.

O desafio não é escolher entre tecnologia e brincadeira.

É encontrar equilíbrio.

O excesso de telas

A tecnologia oferece possibilidades, mas o uso excessivo e sem mediação pode reduzir experiências importantes.

A questão não é demonizar a tecnologia.

É ensinar a utilizá-la com propósito.

A escola do futuro

A escola do futuro provavelmente não será apenas um lugar de transmissão de informações.

Informações já estão disponíveis em enormes quantidades.

A escola precisará ensinar:

como pesquisar + como verificar + como pensar + como criar + como colaborar + como resolver problemas.

O professor

Nesse cenário, o professor não perde importância.

Ao contrário.

Sua função torna-se ainda mais complexa.

Ele ajuda a criança a interpretar informações, desenvolver pensamento crítico, construir conhecimento e relacionar diferentes áreas.

Educação e desenvolvimento regional

Uma boa escola também pode transformar comunidades.

Pode formar profissionais.

Criar oportunidades.

Atrair empresas.

Estimular empreendedorismo.

Reduzir migração forçada.

Fortalecer a economia local.

Educação possui efeitos que ultrapassam os muros da escola.

O interior do Brasil

Essa questão é especialmente importante para municípios pequenos.

Quando um jovem precisa deixar sua cidade para encontrar oportunidades de estudo ou trabalho, o município pode perder parte de sua população mais jovem e qualificada.

Criar oportunidades locais pode fortalecer o desenvolvimento regional.

Tecnologia contra a distância

A internet pode ajudar.

Cursos remotos.

Telemedicina.

Comércio eletrônico.

Trabalho a distância.

Serviços digitais.

Mas novamente aparece a condição básica:

conectividade de qualidade.

Sem infraestrutura digital, a tecnologia não democratiza oportunidades.

O conhecimento como novo meio de produção

Voltamos, então, ao ponto central.

No passado:

terra.

Depois:

capital e máquinas.

Agora:

conhecimento e tecnologia.

Mas existe uma diferença.

Uma máquina pode pertencer a uma empresa.

Uma propriedade pode pertencer a uma família.

O conhecimento pode ser compartilhado.

Uma ideia pode gerar outras ideias.

Uma descoberta pode criar novas descobertas.

O conhecimento pode se multiplicar

Essa é uma característica extraordinária da economia do conhecimento.

Quando uma pessoa ensina outra, o conhecimento não desaparece.

Ele se multiplica.

Quando uma universidade publica uma pesquisa, outras pessoas podem desenvolver novas soluções.

Quando uma criança aprende a criar, pode ensinar outra.

O conhecimento possui uma capacidade de reprodução diferente dos recursos físicos.

Mas o acesso ainda pode ser desigual

Embora o conhecimento possa se multiplicar, o acesso às melhores tecnologias, instituições e oportunidades ainda pode ser concentrado.

Por isso, a democratização do conhecimento continua sendo uma questão econômica.

A grande mudança

A história brasileira começou discutindo a concentração da terra.

Depois passou a discutir a concentração industrial e financeira.

Hoje precisa discutir também a concentração tecnológica.

A questão permanece semelhante:

quem possui os instrumentos necessários para produzir riqueza?

Só que os instrumentos mudaram.

Da terra ao cérebro

Essa talvez seja uma das maiores transformações da história econômica.

A riqueza contemporânea pode depender menos da quantidade de território controlado e mais da capacidade de transformar informação em conhecimento e conhecimento em inovação.

Isso não significa que a terra deixou de ter importância.

Significa que a economia passou a depender de uma combinação muito mais sofisticada de recursos.

O futuro brasileiro

O Brasil possui uma oportunidade histórica.

Pode utilizar:

agricultura + indústria + energia + biodiversidade + ciência + tecnologia + educação

para construir uma economia mais sofisticada.

Mas isso exige pessoas preparadas.

E pessoas preparadas não surgem apenas no momento em que entram no mercado de trabalho.

São formadas ao longo da vida.

A pergunta que permanece

A história brasileira começou com uma questão:

quem controla a terra, o capital e os meios de produção?

Hoje acrescentamos:

quem controla o conhecimento e a tecnologia?

Mas talvez exista uma pergunta ainda mais profunda:

quem teve oportunidade de aprender?

Porque antes de controlar uma tecnologia, alguém precisou aprender a criá-la.

Antes de administrar uma empresa, alguém precisou aprender.

Antes de desenvolver uma pesquisa, alguém precisou ter acesso à educação.

Antes de transformar uma ideia em inovação, alguém precisou ter espaço para imaginar.

O verdadeiro começo

Por isso, talvez o desenvolvimento econômico comece muito antes da fábrica, da fazenda, do banco ou da empresa.

Comece na infância.

Na capacidade de brincar.

Na curiosidade.

Na educação.

Na cultura.

Na oportunidade de experimentar.

Na possibilidade de perguntar:

“E se fosse diferente?”

Essa pergunta simples está na origem de muitas inovações.

E pode estar também na origem de um novo projeto de desenvolvimento brasileiro.

Continua.

Parte XXXIII - Educação, conhecimento e a nova disputa pelas oportunidades


Se, durante grande parte da história brasileira, a terra esteve no centro da riqueza e, posteriormente, o capital e a indústria ganharam importância, o século XXI acrescentou um elemento decisivo:

o conhecimento.

Não significa que terra, capital e trabalho tenham deixado de ser importantes.

Significa que a capacidade de utilizar esses recursos tornou-se cada vez mais dependente de educação, ciência e tecnologia.

A pergunta histórica começa, então, a mudar.

Não basta perguntar:

quem possui os meios de produção?

É preciso perguntar também:

quem possui conhecimento para utilizá-los, transformá-los e criar novos meios de produção?

A educação como infraestrutura econômica

Durante muito tempo, educação foi tratada principalmente como uma questão social.

Mas ela também é uma infraestrutura econômica.

Uma população mais preparada pode:

produzir mais + inovar mais + empreender + utilizar tecnologias + criar empresas + desenvolver pesquisas.

Da mesma maneira, uma educação deficiente limita a capacidade produtiva de uma sociedade.

Por isso, investir em educação não é apenas aumentar o bem-estar.

É aumentar a capacidade econômica do país.

Da alfabetização à economia digital

O Brasil percorreu uma longa trajetória.

Durante o período colonial, o acesso à educação era extremamente restrito.

A maior parte da população não tinha acesso sistemático à escolarização.

Com o passar dos séculos, a educação pública se expandiu.

A Constituição de 1988 consolidou a educação como direito de todos e dever do Estado e da família.

No século XXI, porém, surgiu um novo desafio.

Não basta saber ler e escrever.

É preciso compreender um mundo cada vez mais tecnológico.

A alfabetização mudou de significado

Hoje, uma pessoa precisa lidar com:

informação + tecnologia + dinheiro + comunicação + dados + ferramentas digitais.

A alfabetização do século XXI é mais ampla.

Inclui a capacidade de compreender informações, identificar fontes confiáveis, utilizar tecnologias e tomar decisões.

Conhecimento também é patrimônio

Uma casa pode ser patrimônio.

Uma propriedade rural pode ser patrimônio.

Uma empresa pode ser patrimônio.

Mas uma formação profissional também pode representar patrimônio.

Ela acompanha a pessoa durante toda a vida.

Pode aumentar sua capacidade de gerar renda.

Pode permitir mudança de profissão.

Pode criar oportunidades que não existiriam anteriormente.

O conhecimento tornou-se uma forma de patrimônio pessoal e coletivo.

A diferença entre renda e patrimônio

Essa distinção permanece fundamental.

Uma pessoa pode ter renda elevada durante determinado período e não construir patrimônio.

Outra pode possuir patrimônio capaz de gerar renda no futuro.

Por isso, mobilidade social não significa apenas aumentar o salário.

Significa também adquirir capacidade de construir segurança econômica.

A educação pode quebrar ciclos

Uma criança que nasce sem patrimônio pode não conseguir receber uma herança financeira.

Mas pode receber outro tipo de herança:

educação + cultura + conhecimento + valores + capacidade de aprender.

Essa herança não substitui completamente o patrimônio material.

Mas pode ampliar significativamente as oportunidades.

O problema da desigualdade educacional

A existência de escola pública não significa que todas as crianças recebam exatamente as mesmas condições.

Existem diferenças de:

infraestrutura;

formação docente;

acesso à tecnologia;

tempo disponível para estudar;

ambiente familiar;

transporte;

alimentação;

segurança;

acesso à cultura.

Por isso, igualdade formal de acesso não garante igualdade de aprendizagem.

A primeira infância

A educação começa antes da alfabetização.

Os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento cognitivo, emocional, social e motor.

Brincadeira, linguagem, música, movimento, contato com a natureza e convivência social fazem parte desse processo.

A infância não deve ser tratada apenas como preparação para a vida adulta.

Ela possui valor em si mesma.

O brincar como aprendizagem

A brincadeira também pode desenvolver capacidades importantes para a economia e para a vida social:

criatividade + resolução de problemas + cooperação + comunicação + autonomia.

Uma criança que constrói, experimenta, erra e tenta novamente está desenvolvendo habilidades.

O brincar pode ser uma forma de aprendizagem ativa.

Cultura e conhecimento

Educação não acontece apenas dentro da sala de aula.

A cultura transmite memória.

A arte desenvolve expressão.

A literatura amplia repertório.

A música desenvolve percepção.

A natureza oferece experiências.

O patrimônio cultural conecta gerações.

Uma sociedade que preserva sua cultura também preserva formas de conhecimento.

Ciência

A educação abre caminho para a ciência.

E a ciência amplia a capacidade produtiva.

Foi a pesquisa que ajudou a transformar o Cerrado.

Foi a engenharia que permitiu explorar o pré-sal.

Foi a pesquisa que desenvolveu novas tecnologias agrícolas.

Foi a ciência que possibilitou avanços médicos.

Conhecimento pode transformar recursos em valor.

Universidades e desenvolvimento

Universidades não são apenas lugares de formação profissional.

Também são centros de:

pesquisa + inovação + produção científica + formação de pesquisadores.

Quando empresas e universidades conseguem trabalhar conjuntamente, novas tecnologias podem chegar ao mercado.

A inovação

Inovação não significa apenas criar algo completamente novo.

Também pode significar:

produzir melhor;

reduzir desperdícios;

economizar energia;

melhorar processos;

criar novos materiais;

utilizar recursos de maneira mais eficiente.

Uma pequena melhoria aplicada milhões de vezes pode produzir enorme impacto econômico.

A inteligência artificial

Agora surge uma transformação ainda maior.

A inteligência artificial começa a modificar atividades que antes dependiam exclusivamente do trabalho humano.

Ela pode auxiliar em:

análise de dados + programação + pesquisa + produção de textos + diagnóstico de padrões + automação.

Isso cria oportunidades.

Mas também cria preocupações.

O trabalho está mudando

Algumas tarefas podem ser automatizadas.

Outras serão transformadas.

Novas profissões surgirão.

Profissões existentes precisarão incorporar novas ferramentas.

Isso significa que a formação profissional não pode terminar com o diploma.

A capacidade de aprender continuamente será cada vez mais importante.

A nova desigualdade

Pode surgir uma nova forma de desigualdade.

Não apenas entre quem possui e quem não possui patrimônio.

Mas entre quem consegue utilizar as novas tecnologias e quem fica excluído delas.

O acesso à tecnologia pode tornar-se tão importante quanto o acesso ao capital.

A tecnologia pode democratizar

Mas também pode concentrar.

Uma pequena empresa pode utilizar ferramentas digitais para competir com organizações maiores.

Ao mesmo tempo, grandes empresas podem controlar plataformas, dados, infraestrutura tecnológica e grandes mercados.

A tecnologia possui, portanto, duas possibilidades:

descentralizar oportunidades ou concentrar poder.

Os dados como novo recurso

No século XXI, dados adquiriram enorme valor econômico.

Empresas utilizam informações para compreender consumidores, melhorar produtos e organizar operações.

Os dados não substituem os recursos tradicionais.

Mas acrescentam uma nova dimensão à economia.

A concentração tecnológica

Grandes plataformas digitais podem alcançar bilhões de pessoas.

Isso cria enorme poder econômico.

Quanto maior a rede, maior pode ser sua capacidade de atrair usuários.

Quanto maior o número de usuários, maior o volume de dados.

Quanto maior a quantidade de dados, maior pode ser a capacidade de aperfeiçoar determinados serviços.

Surge um novo tipo de concentração.

A concorrência no século XXI

A questão histórica permanece.

Como garantir concorrência quando determinadas empresas possuem enorme escala, capital, dados e tecnologia?

A resposta envolve:

regulação + inovação + concorrência + proteção de direitos + liberdade econômica.

O objetivo não precisa ser impedir empresas de crescer.

Mas evitar que o crescimento se transforme em barreiras permanentes à entrada de novos concorrentes.

O empreendedorismo

O empreendedorismo pode ampliar a participação econômica.

Uma pessoa pode criar um pequeno negócio.

Uma família pode transformar uma habilidade em fonte de renda.

Um produtor rural pode processar seu próprio produto.

Um artesão pode vender diretamente ao consumidor.

A internet ampliou essas possibilidades.

Mas empreender não é apenas ter uma ideia

Também é necessário:

capital + conhecimento + mercado + planejamento + infraestrutura + crédito.

Por isso, políticas de incentivo ao empreendedorismo precisam considerar o ambiente econômico.

Não basta dizer às pessoas para empreender.

É preciso criar condições para que negócios possam sobreviver.

O crédito como ponte

O crédito pode transformar uma capacidade em investimento.

Uma pequena empresa pode comprar máquinas.

Um agricultor pode modernizar sua propriedade.

Uma família pode adquirir uma residência.

Um estudante pode financiar sua formação.

Mas o crédito precisa ser sustentável.

Quando o custo financeiro é excessivo, ele pode transformar oportunidade em endividamento.

A importância da segurança jurídica

Investimentos também dependem de confiança.

Uma empresa precisa saber quais regras serão aplicadas.

Um agricultor precisa ter segurança sobre sua propriedade.

Um empreendedor precisa conhecer suas obrigações.

Um investidor precisa confiar nas instituições.

Segurança jurídica reduz incertezas.

O Estado e o conhecimento

O mercado pode investir em inovação.

Mas determinados projetos possuem retorno muito longo ou risco elevado.

Pesquisa básica, ciência espacial, infraestrutura científica e determinadas tecnologias estratégicas frequentemente dependem de investimento público.

O Estado pode atuar onde o retorno privado é insuficiente ou demasiado incerto.

O setor privado

Ao mesmo tempo, empresas possuem capacidade de transformar conhecimento em produtos e serviços.

Elas assumem riscos.

Investem.

Contratam trabalhadores.

Desenvolvem tecnologias.

Competem.

Por isso, desenvolvimento depende de uma relação funcional entre:

Estado + empresas + universidades + sociedade.

A educação como política de desenvolvimento

Voltamos, então, a uma ideia que já aparecia na trajetória de Brizola.

Educação não é apenas uma política social.

É uma política de desenvolvimento.

A diferença é que agora a educação precisa preparar para uma economia muito mais complexa.

O Brasil precisa formar criadores

Durante a industrialização, era fundamental formar trabalhadores capazes de operar máquinas.

Hoje é necessário também formar pessoas capazes de:

criar tecnologias + desenvolver soluções + interpretar dados + empreender + pesquisar + colaborar.

O trabalhador do futuro não será apenas aquele que executa.

Será cada vez mais aquele que consegue aprender, adaptar-se e resolver problemas.

A inclusão digital

Se a economia está se digitalizando, o acesso à internet passa a ter dimensão econômica.

Sem conectividade, uma pessoa pode perder:

oportunidades de estudo;

mercados;

serviços financeiros;

informação;

trabalho;

serviços públicos.

A inclusão digital tornou-se parte da inclusão econômica.

O território brasileiro

Esse desafio é particularmente importante no Brasil.

O território é enorme.

Existem regiões densamente conectadas e outras com infraestrutura muito mais limitada.

As desigualdades regionais continuam presentes.

A tecnologia pode ajudar a reduzir distâncias.

Mas precisa chegar ao território.

A nova infraestrutura

No passado, infraestrutura significava principalmente:

estradas + ferrovias + portos + energia.

Hoje é necessário acrescentar:

internet + redes de comunicação + centros de dados + infraestrutura digital.

O desenvolvimento econômico passou a depender também da infraestrutura invisível.

O Brasil diante da nova revolução tecnológica

O país possui universidades, empresas de tecnologia, centros de pesquisa, grandes bancos, agronegócio avançado e mercado consumidor.

Possui condições para participar da transformação.

Mas enfrenta desafios:

educação desigual + baixa produtividade em vários setores + infraestrutura incompleta + dificuldade de investimento + desigualdade regional.

A velha pergunta em uma nova linguagem

No início desta série perguntamos:

quem controla a terra, o capital e os meios de produção?

Hoje precisamos acrescentar:

quem controla o conhecimento, a tecnologia, os dados e a capacidade de inovação?

A resposta poderá determinar a próxima configuração do poder econômico.

A continuidade histórica

A história não desapareceu.

Ela mudou de forma.

A terra continua importante.

O capital continua importante.

O trabalho continua importante.

A indústria continua importante.

Mas agora existe uma nova camada:

o conhecimento.

E talvez seja justamente essa a maior transformação econômica do nosso tempo.

O desafio brasileiro

Se o Brasil quiser transformar seus recursos naturais, sua indústria, sua agricultura e seu mercado em desenvolvimento de longo prazo, precisará ampliar sua capacidade de produzir conhecimento.

Isso significa investir em:

educação básica + formação profissional + universidades + ciência + tecnologia + pesquisa + inovação.

Não apenas para formar trabalhadores.

Mas para formar produtores de conhecimento.

A próxima etapa

A história econômica brasileira começou com a terra.

Passou pela exploração do trabalho.

Avançou para o comércio.

Chegou à industrialização.

Criou um grande mercado interno.

Integrau-se à economia mundial.

Entrou na era digital.

Agora começa uma nova disputa:

quem terá condições de participar da economia do conhecimento?

Essa disputa não será decidida apenas dentro das empresas.

Ela começará muito antes.

Na infância.

Na escola.

Na família.

Na cultura.

Na qualidade da educação.

No acesso à tecnologia.

Na capacidade de imaginar e criar.

E é justamente nesse ponto que a história econômica encontra a história social brasileira.

Porque o futuro da economia começa muito antes de alguém entrar no mercado de trabalho.

Continua.

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