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"Inspirado em Heidegger, Brincadeira Sustentável (por Renata Bravo) não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser digerida, vivida e incorporada."

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Parte VII - 1964, o regime militar e a construção de um novo Brasil

 

A história brasileira havia chegado a um ponto de grande transformação.

O país já não era predominantemente agrário.

A industrialização havia avançado.

As cidades cresciam.

O mercado interno se expandia.

A agricultura começava a incorporar novas tecnologias.

A energia e a infraestrutura passaram a ser consideradas estratégicas.

Mas as desigualdades continuavam profundas.

A questão da terra permanecia sem solução.

A educação ainda não alcançava toda a população de maneira igual.

E o debate político estava cada vez mais polarizado.

Em 1964, essa tensão chegou ao limite.

A ruptura institucional de 1964

Em março e abril de 1964, uma ruptura institucional levou João Goulart a deixar a Presidência da República.

Os militares assumiram o controle do governo.

O novo regime justificou a intervenção como necessária para preservar a ordem política e combater aquilo que considerava uma ameaça à estabilidade nacional.

Mas o resultado foi a instalação de uma ditadura.

Direitos políticos foram restringidos.

O Congresso sofreu intervenções.

Houve cassações de mandatos.

A censura foi ampliada.

Oposição política foi perseguida.

A liberdade de expressão sofreu fortes limitações.

A economia, entretanto, continuou sendo transformada.

E essa combinação é essencial para compreender o período.

Autoritarismo e desenvolvimento

O regime militar não abandonou o projeto de industrialização.

Ao contrário.

O Estado continuou investindo fortemente em:

energia + transporte + telecomunicações + indústria + infraestrutura + pesquisa tecnológica.

Grandes projetos foram planejados.

Empresas estatais ganharam importância.

O planejamento econômico passou a ocupar posição central.

O objetivo era transformar o Brasil em uma potência industrial.

O país deveria crescer, modernizar sua infraestrutura e ampliar sua capacidade produtiva.

O Estado como grande investidor

Durante esse período, o Estado assumiu papel ainda maior na economia.

Empresas estatais atuaram em setores considerados estratégicos.

Petróleo.

Energia elétrica.

Mineração.

Telecomunicações.

Transportes.

Siderurgia.

Infraestrutura.

A lógica era que determinados setores exigiam investimentos tão grandes e de retorno tão longo que o Estado deveria participar diretamente.

Essa estratégia produziria resultados importantes.

Mas também aumentaria significativamente o tamanho e o poder econômico do Estado.

A expansão da infraestrutura

Grandes rodovias foram construídas.

A infraestrutura energética foi ampliada.

Novas hidrelétricas surgiram.

As redes de telecomunicações cresceram.

A indústria pesada avançou.

O país começou a construir uma infraestrutura compatível com uma economia industrial de grande escala.

O território brasileiro começava a ser conectado por uma rede cada vez mais ampla de estradas, energia e comunicação.

Mais uma vez, a infraestrutura transformava o território.

A expansão da eletrificação

A energia elétrica tornou-se uma das grandes bases do desenvolvimento.

A industrialização exigia grandes quantidades de eletricidade.

As cidades também precisavam de energia para iluminação, transporte e serviços.

A construção de grandes hidrelétricas tornou-se uma política estratégica.

A água dos grandes rios brasileiros passou a ser vista não apenas como recurso natural, mas como instrumento de desenvolvimento econômico.

O Brasil possuía uma vantagem geográfica:

grande disponibilidade de recursos hídricos.

Isso permitiu construir uma matriz elétrica fortemente baseada na geração hidrelétrica.

Itaipu

Um dos maiores símbolos desse período foi a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, realizada em parceria entre Brasil e Paraguai.

O projeto demonstrava a dimensão que os grandes empreendimentos haviam alcançado.

Não se tratava mais de construir apenas uma fábrica ou uma ferrovia.

Era possível transformar grandes territórios por meio de obras de infraestrutura de escala continental.

Itaipu tornou-se uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo.

A energia produzida ajudaria a sustentar a expansão econômica das décadas seguintes.

A indústria pesada

A industrialização avançou para setores mais complexos.

Siderurgia.

Petroquímica.

Bens de capital.

Máquinas.

Equipamentos.

Química.

Automóveis.

Construção pesada.

O Brasil buscava deixar de ser apenas consumidor de produtos industriais estrangeiros.

A meta era construir uma cadeia produtiva nacional mais completa.

A pergunta econômica havia mudado novamente.

Não bastava mais:

quem possui a terra?

Agora era necessário perguntar:

quem possui a indústria e a tecnologia necessárias para produzir?

O chamado “Milagre Econômico”

Entre aproximadamente 1968 e 1973, o Brasil experimentou taxas elevadas de crescimento econômico.

Esse período ficou conhecido como Milagre Econômico.

A indústria cresceu.

As obras de infraestrutura se multiplicaram.

O emprego urbano aumentou.

O consumo de determinados setores da população se expandiu.

O país cresceu rapidamente.

Mas o crescimento veio acompanhado de concentração de renda.

O desenvolvimento não beneficiou todos os grupos sociais da mesma maneira.

A economia crescia.

Mas a desigualdade permanecia elevada.

Crescimento não é distribuição

Essa experiência ajuda a reforçar uma das teses centrais desta série.

Crescimento econômico e distribuição de renda não são a mesma coisa.

Um país pode produzir mais.

Pode construir mais.

Pode exportar mais.

Pode aumentar o Produto Interno Bruto.

E, ainda assim, manter grandes parcelas da população em condições econômicas precárias.

Por isso, avaliar o desenvolvimento exige observar também:

quem participa do crescimento?

quem possui patrimônio?

quem tem acesso à educação?

quem consegue crédito?

quem consegue transformar crescimento econômico em mobilidade social?

A modernização do campo

Durante o regime militar, o campo também passou por profundas transformações.

Máquinas agrícolas começaram a se expandir.

O uso de fertilizantes e defensivos aumentou.

Novas técnicas de produção foram incorporadas.

A pesquisa agrícola ganhou importância.

A produtividade cresceu em diversas culturas.

O Brasil começou a construir as bases do agronegócio moderno.

Mas essa modernização não ocorreu de maneira uniforme.

Algumas regiões e produtores tiveram maior acesso a tecnologia, crédito e infraestrutura.

Outros permaneceram em sistemas de produção mais tradicionais.

A modernização agrícola aumentou a produtividade, mas não eliminou a concentração fundiária.

A transformação do cerrado

Uma das grandes mudanças posteriores foi a expansão da agricultura para áreas do Centro-Oeste.

O desenvolvimento de tecnologias capazes de adaptar a produção agrícola às características do cerrado permitiu ampliar significativamente a fronteira agrícola.

Essa transformação teria consequências enormes.

O Brasil passaria a produzir em escala muito maior soja, milho, carnes e outros produtos.

O campo brasileiro se tornaria cada vez mais integrado à indústria.

Sementes.

Máquinas.

Fertilizantes.

Armazenamento.

Logística.

Processamento.

Exportação.

O agronegócio moderno começava a se consolidar como uma grande cadeia econômica.

A criação da Embrapa

Em 1973, foi criada a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária — Embrapa.

A pesquisa científica passou a ocupar posição estratégica na transformação da agricultura brasileira.

O desenvolvimento de tecnologias adaptadas às condições tropicais foi fundamental para ampliar a produtividade.

Essa experiência demonstra novamente a importância do conhecimento como meio de produção.

A terra continuava necessária.

Mas a capacidade de produzir mais em determinada área dependia cada vez mais de:

ciência + tecnologia + pesquisa + infraestrutura + capital humano.

A equação econômica estava mudando.

O petróleo e a energia

A expansão econômica também aumentou a necessidade de petróleo.

O Brasil ainda dependia fortemente das importações.

Essa dependência tornou-se um problema grave na década de 1970.

Em 1973, ocorreu a primeira grande crise internacional do petróleo.

Os preços dispararam.

Países importadores foram fortemente afetados.

O Brasil estava entre eles.

A crise revelou uma vulnerabilidade:

um país industrial precisa controlar ou garantir fontes seguras de energia.

O choque do petróleo

O aumento do preço do petróleo elevou os custos de transporte, produção e importação.

A economia brasileira sofreu pressão.

A inflação voltou a se tornar um problema.

A dívida externa começou a crescer.

O governo buscou novas alternativas.

Uma delas seria fundamental para a história energética brasileira:

o álcool combustível.

O Proálcool

Em 1975, foi criado o Programa Nacional do Álcool — Proálcool.

A ideia era utilizar a produção de cana-de-açúcar para substituir parte da gasolina.

O programa estimulou:

  • produção de etanol;
  • desenvolvimento tecnológico;
  • adaptação de motores;
  • expansão da indústria sucroalcooleira;
  • pesquisa energética.

O Brasil começava a desenvolver uma alternativa própria para reduzir a dependência do petróleo importado.

Mais uma vez, a agricultura e a indústria se encontravam.

Cana → usina → combustível → transporte → economia.

Geisel e a segunda fase do desenvolvimento

O governo de Ernesto Geisel, iniciado em 1974, herdou uma economia pressionada pelo choque do petróleo.

Sua resposta foi ampliar os investimentos estruturais.

O chamado II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) buscou fortalecer setores como:

energia + petroquímica + siderurgia + mineração + bens de capital + infraestrutura.

A lógica era enfrentar a crise externa construindo maior capacidade produtiva interna.

Era uma aposta de longo prazo.

O preço da estratégia

Mas havia um problema.

Grandes projetos exigiam enormes volumes de capital.

Como os recursos internos eram insuficientes, o Brasil recorreu intensamente ao financiamento externo.

Durante determinado período, isso pareceu sustentável.

Mas o cenário internacional mudou.

As taxas de juros internacionais aumentaram.

A dívida externa brasileira tornou-se cada vez mais pesada.

O modelo de crescimento baseado em grande endividamento começou a apresentar seus limites.

A crise dos anos 1980

No início da década de 1980, o Brasil entrou em uma profunda crise econômica.

Inflação elevada.

Dívida externa.

Baixo crescimento.

Desemprego.

Perda de poder de compra.

A sociedade começou a sentir os efeitos acumulados de anos de desequilíbrio.

O projeto desenvolvimentista precisava ser repensado.

O Estado continuava grande.

Mas sua capacidade de investir diminuía.

A abertura política

Ao mesmo tempo, o regime militar começava a perder força.

A sociedade pressionava pela redemocratização.

Movimentos sociais, sindicatos, organizações civis e setores políticos passaram a exigir maior liberdade.

A abertura foi gradual.

Em 1985, o regime militar chegou ao fim.

O Brasil entrava novamente em uma fase democrática.

Mas carregava uma economia profundamente transformada.

Era um país industrial.

Urbanizado.

Energético.

Mais integrado territorialmente.

Com grandes empresas estatais.

Com uma agricultura moderna em expansão.

Com uma dívida externa elevada.

E com uma inflação que se tornaria um dos maiores problemas da Nova República.

E onde entra Brizola?

É nesse ponto da história que Leonel Brizola ganha importância.

Brizola havia sido governador do Rio Grande do Sul e, posteriormente, do Rio de Janeiro.

Sua trajetória estava ligada a uma visão de desenvolvimento que colocava educação, infraestrutura, soberania nacional e participação do Estado no centro do projeto político.

Sua história também se conecta diretamente ao período anterior a 1964.

Mas há uma razão ainda mais importante para colocá-lo neste ponto da narrativa:

Brizola representa uma das diferentes correntes que disputaram o significado do desenvolvimento brasileiro durante o século XX.

Para compreender sua trajetória, será necessário voltar um pouco no tempo.

Porque Brizola não surgiu apenas como personagem da redemocratização.

Sua formação política está ligada ao trabalhismo de Getúlio Vargas, à experiência de João Goulart e à crise política que antecedeu 1964.

E há ainda outra questão que merece ser compreendida:

por que a educação se tornou, para Brizola, uma questão estratégica de desenvolvimento?

Essa será a próxima etapa da nossa história.

Continua.

Parte VI - Juscelino Kubitschek e a aceleração do desenvolvimento brasileiro


A história que estamos acompanhando começou com a terra.

Depois, vieram o capital comercial, a escravidão, o café, as ferrovias, a indústria nascente, a República e a transformação do papel do Estado.

Com Getúlio Vargas, o Brasil entrou definitivamente em uma nova etapa: a construção de uma economia industrial.

Mas ainda havia um problema.

O país precisava crescer em uma velocidade muito maior.

Era necessário produzir mais energia, construir estradas, ampliar a indústria, integrar regiões e criar condições para um mercado interno cada vez maior.

É nesse contexto que surge Juscelino Kubitschek.

Um país que queria acelerar

Quando Juscelino Kubitschek assumiu a Presidência, em 1956, o Brasil já não era o país predominantemente agrário do século XIX.

A indústria havia crescido.

As cidades estavam se expandindo.

O mercado consumidor aumentava.

A população urbana crescia rapidamente.

Mas a infraestrutura ainda era insuficiente para sustentar uma industrialização em ritmo acelerado.

Faltavam estradas.

Energia.

Transportes.

Indústrias de base.

Capital.

Tecnologia.

E havia um território enorme a integrar.

Juscelino apresentou então uma proposta ambiciosa:

crescer rapidamente para transformar a estrutura econômica brasileira.

Os 50 anos em 5

O lema do governo ficou conhecido como:

“50 anos em 5”.

A ideia era acelerar o desenvolvimento.

O Plano de Metas estabeleceu objetivos para setores considerados fundamentais, especialmente:

energia + transporte + alimentação + indústria de base + educação.

Mais tarde, Brasília seria incorporada como a grande meta-síntese desse projeto.

O princípio era simples:

investir hoje para transformar a capacidade produtiva do país amanhã.

Energia

Nenhuma industrialização acontece sem energia.

Fábricas precisam funcionar.

Ferrovias e sistemas urbanos precisam de eletricidade.

Residências precisam de iluminação e equipamentos.

A expansão industrial brasileira exigia uma enorme ampliação da capacidade energética.

Por isso, grandes projetos de geração de energia passaram a ocupar posição estratégica.

O Estado assumia novamente uma função fundamental:

criar infraestrutura para que a economia pudesse crescer.

Transportes

O Brasil possuía um problema geográfico gigantesco.

Um território continental precisava ser integrado.

Durante o Império, as ferrovias haviam sido fundamentais para transportar café e outras mercadorias.

Agora, o país começava a priorizar fortemente as rodovias.

As estradas permitiam conectar regiões onde a ferrovia ainda não havia chegado.

Também facilitavam a circulação de mercadorias, pessoas e veículos.

Essa escolha teria consequências duradouras.

O Brasil passaria a construir uma economia cada vez mais dependente do transporte rodoviário.

A indústria automobilística

Foi durante o governo Juscelino que a indústria automobilística se instalou de maneira mais significativa no Brasil.

Empresas estrangeiras passaram a produzir veículos em território nacional.

Isso criou novas fábricas, empregos e fornecedores.

Mas também revelou uma característica do modelo de desenvolvimento brasileiro:

o capital estrangeiro seria utilizado como instrumento de industrialização.

A questão deixava de ser simplesmente:

“capital estrangeiro ou capital nacional?”

E passava a ser:

“como utilizar o capital estrangeiro para construir capacidade produtiva dentro do país?”

Capital estrangeiro

Juscelino adotou uma política de atração de investimentos externos.

Empresas estrangeiras encontraram condições para instalar fábricas no Brasil.

O governo oferecia infraestrutura, mercado consumidor em expansão e incentivos.

Essa estratégia acelerou a industrialização.

Mas também aumentou a participação de empresas multinacionais na economia brasileira.

Surgiu então um debate que acompanharia o país durante décadas:

até que ponto a industrialização dependente de capital estrangeiro amplia a autonomia econômica e até que ponto cria novas formas de dependência?

Não existe uma resposta simples.

O investimento estrangeiro trouxe capital, tecnologia e produção.

Mas também significou remessas de lucros, influência empresarial e maior integração com a economia internacional.

O efeito multiplicador

A instalação de uma grande indústria não cria apenas empregos dentro da fábrica.

Ela cria uma cadeia.

Uma montadora precisa de peças.

As peças precisam de fornecedores.

Os fornecedores precisam de máquinas.

As máquinas precisam de aço.

O transporte precisa de combustível.

Os trabalhadores precisam de moradia, alimentação e serviços.

Assim, uma indústria pode estimular dezenas ou centenas de outras atividades econômicas.

Esse é um dos motivos pelos quais a industrialização possui efeito multiplicador.

Produção gera cadeias.

E cadeias geram novos mercados.

O nascimento de uma nova classe média

A industrialização também transformou a estrutura social brasileira.

Engenheiros.

Técnicos.

Administradores.

Funcionários públicos.

Comerciantes.

Profissionais liberais.

Trabalhadores industriais.

Empresários.

Uma classe média urbana começou a adquirir maior importância.

O Brasil tornava-se uma sociedade mais complexa.

A antiga divisão entre grandes proprietários rurais e trabalhadores rurais já não explicava sozinha a realidade nacional.

A cidade havia se tornado um novo centro econômico.

Brasília

Em meio a esse processo surgiu o projeto mais simbólico do governo:

Brasília.

A construção da nova capital no interior tinha uma dimensão política, econômica e territorial.

Transferir a capital para o interior significava reforçar a integração nacional e estimular a ocupação econômica do Centro-Oeste.

A cidade também representava uma ideia de futuro.

Uma capital planejada para uma sociedade que desejava romper visualmente com o passado.

A arquitetura modernista de Brasília tornou-se símbolo de um país que queria se apresentar como moderno.

O território como instrumento de desenvolvimento

Brasília permite compreender outro aspecto importante da história econômica brasileira.

O território não é apenas espaço físico.

Estradas, cidades, ferrovias, portos, aeroportos, redes elétricas e sistemas de comunicação transformam o território em infraestrutura econômica.

Quanto melhor conectado um território está, menor tende a ser o custo de circulação de pessoas, informações e mercadorias.

Portanto:

integrar o território também é construir desenvolvimento.

O campo não desapareceu

Apesar da industrialização, a agricultura continuava sendo fundamental.

O café permanecia importante.

A produção de alimentos precisava acompanhar o crescimento das cidades.

O campo continuava fornecendo matérias-primas e produtos de exportação.

O que estava mudando era sua relação com a indústria.

A agricultura começava a incorporar mais máquinas, fertilizantes, infraestrutura e tecnologia.

Nascia uma relação cada vez mais estreita:

campo → indústria → transporte → comércio → cidade.

A economia brasileira começava a funcionar como uma cadeia integrada.

O custo do crescimento

Mas o crescimento acelerado também trouxe problemas.

O governo realizou grandes investimentos.

Para financiar parte deles, o país ampliou gastos e enfrentou desequilíbrios econômicos.

A inflação aumentou.

A dívida externa cresceu.

O desenvolvimento tinha custos.

Essa é uma questão importante para qualquer projeto econômico:

crescer rapidamente não significa necessariamente crescer de forma equilibrada.

Investimento pode aumentar a capacidade produtiva.

Mas financiamento inadequado pode gerar desequilíbrios.

Desenvolvimento e inflação

O Brasil entrou em uma discussão que seria recorrente durante décadas.

Como financiar grandes investimentos sem provocar inflação excessiva?

Como aumentar salários sem reduzir a capacidade produtiva?

Como importar máquinas sem gerar déficits externos?

Como atrair capital sem perder autonomia?

Como investir em infraestrutura sem comprometer as contas públicas?

Essas perguntas mostram que desenvolvimento econômico não é simplesmente escolher entre “gastar” ou “economizar”.

É uma questão de alocação de recursos e capacidade produtiva.

O Brasil muda de escala

Ao final do governo Juscelino, o Brasil era diferente.

A indústria automobilística havia se estabelecido.

A produção industrial havia crescido.

As cidades estavam ainda maiores.

Brasília simbolizava a interiorização do desenvolvimento.

A infraestrutura havia avançado.

O mercado interno estava mais integrado.

O país entrava definitivamente na sociedade industrial.

Mas novas contradições surgiam.

A industrialização não eliminou a desigualdade.

A urbanização não resolveu a pobreza.

O crescimento não distribuiu automaticamente patrimônio.

E a modernização econômica não significava estabilidade política.

A questão da oportunidade

Aqui voltamos à pergunta central desta série.

O capitalismo brasileiro havia mudado profundamente.

A terra continuava sendo um instrumento de riqueza.

Mas agora existiam outros:

indústria, bancos, energia, tecnologia, infraestrutura e conhecimento.

A possibilidade de ascensão social também aumentava.

Uma pessoa podia deixar o campo e trabalhar na cidade.

Podia aprender uma profissão.

Abrir uma pequena empresa.

Entrar em uma indústria.

Estudar.

Construir patrimônio.

Mas as oportunidades continuavam desiguais.

A origem familiar ainda importava.

O acesso à educação ainda era desigual.

O crédito ainda era limitado para grande parte da população.

A concentração econômica continuava existindo.

A modernização havia ampliado as possibilidades.

Mas não havia eliminado as diferenças de ponto de partida.

O Brasil industrial e a nova disputa política

Com a industrialização, a política brasileira passou a discutir questões cada vez mais complexas:

desenvolvimento nacional ou dependência externa?

capital privado ou empresas estatais?

investimento estrangeiro ou capital nacional?

crescimento econômico ou distribuição de renda?

industrialização ou reforma agrária?

Estado forte ou maior liberdade de mercado?

Essas questões não eram novas.

Mas agora estavam inseridas em uma sociedade muito mais urbana e industrial.

A reforma agrária volta ao centro

Enquanto as cidades cresciam, a questão da terra continuava sem solução.

A modernização industrial não havia resolvido a concentração fundiária.

No campo, permaneciam grandes propriedades e milhões de trabalhadores rurais com pouco ou nenhum acesso à terra.

A discussão sobre reforma agrária ganhou força.

E começou a se conectar a outra questão:

quem teria acesso aos benefícios do desenvolvimento?

O país estava crescendo.

Mas crescia de maneira desigual.

A democracia entra em tensão

No início dos anos 1960, a sociedade brasileira estava profundamente dividida.

Havia setores que defendiam reformas sociais e econômicas.

Outros temiam que essas reformas ameaçassem a propriedade privada e a ordem política.

A Guerra Fria também influenciava o ambiente internacional.

O mundo estava dividido entre diferentes projetos políticos e econômicos.

O Brasil entrou nesse conflito com suas próprias contradições.

Jânio Quadros e João Goulart

Em 1960, Jânio Quadros foi eleito presidente.

Seu governo, porém, durou poucos meses.

Após sua renúncia, em 1961, iniciou-se uma grave crise política em torno da posse do vice-presidente:

João Goulart.

Goulart defendia um conjunto de reformas conhecidas como Reformas de Base.

Entre elas estavam propostas relacionadas à reforma agrária, educação, sistema tributário e outras áreas.

O debate sobre essas reformas ultrapassou a questão econômica.

Passou a envolver diretamente o modelo de sociedade que o Brasil deveria construir.

A questão da propriedade

A reforma agrária tornou-se um dos pontos mais sensíveis.

Para seus defensores, era uma maneira de ampliar o acesso à terra e modernizar as relações no campo.

Para seus críticos, havia o risco de ruptura da ordem econômica e da propriedade privada.

A questão não era apenas econômica.

Era política.

E tornou-se cada vez mais polarizada.

1964

Em 1964, o Brasil sofreu uma ruptura institucional.

João Goulart foi deposto e os militares assumiram o poder.

Começava um período de regime militar que duraria até 1985.

A partir daqui, a história econômica brasileira entrará em outra fase.

O Estado continuará tendo papel central.

Grandes obras serão realizadas.

A indústria continuará crescendo.

A infraestrutura energética será ampliada.

Mas a questão da liberdade política passará a ocupar o centro da história.

E, novamente, teremos diante de nós uma combinação complexa:

crescimento econômico + concentração de poder político + grandes projetos de infraestrutura + profundas transformações sociais.

É nesse período que surgirão novos personagens, novos projetos econômicos e novas disputas sobre energia, petróleo, indústria, agricultura e desenvolvimento.

E também surgirá uma figura que nos interessa especialmente para compreender a relação entre desenvolvimento, educação, soberania e democracia:

Leonel Brizola.

Mas, antes de chegar a ele, precisamos compreender o Brasil que emergiu de 1964.

Continua.

Parte V - Getúlio Vargas e a construção do Brasil industrial

 

Nas partes anteriores, acompanhamos uma transformação gradual.

O Brasil saiu de uma economia colonial baseada na grande propriedade, na escravidão e na exportação.

Durante o Império, o café ampliou a circulação de capital, as ferrovias começaram a conectar regiões e surgiram empresas, bancos e iniciativas industriais.

Com a República, o poder econômico continuou fortemente relacionado às elites agrárias, mas as cidades cresceram, o trabalho assalariado se expandiu e a indústria começou a ganhar espaço.

A crise de 1929 revelou os limites de uma economia excessivamente dependente das exportações agrícolas.

Em 1930, Getúlio Vargas chegou ao poder.

Mas sua importância histórica não está apenas na mudança de governo.

Está na transformação do papel do Estado na economia brasileira.

1930: uma mudança de direção

A Revolução de 1930 encerrou a Primeira República e colocou em crise o sistema político dominado pelas oligarquias estaduais.

Vargas assumiu o governo provisório e iniciou uma reorganização das instituições nacionais.

O objetivo não era simplesmente substituir uma elite por outra.

O Brasil estava passando por uma transformação econômica que exigia novas formas de organização.

A população urbana crescia.

A indústria se expandia.

O mercado interno ganhava importância.

O trabalho assalariado se tornava cada vez mais relevante.

O Estado precisava responder a uma sociedade diferente daquela do século XIX.

Do país agrícola ao país industrial

Durante décadas, o café havia sido a principal fonte de riqueza e exportação.

Isso não significava que a agricultura deixaria de ser importante.

O Brasil continuaria sendo uma grande potência agrícola.

A mudança estava em outra direção:

a agricultura deixava de ser suficiente para explicar toda a economia brasileira.

A indústria começava a ocupar um espaço estratégico.

Produzir internamente máquinas, equipamentos, aço, produtos químicos e bens de consumo significava reduzir determinadas dependências externas e ampliar a capacidade produtiva nacional.

O desenvolvimento começava a ser pensado como um projeto de transformação estrutural.

O Estado assume um novo papel

Aqui aparece uma diferença importante em relação ao período de Mauá.

No século XIX, empresários como Mauá tentaram construir infraestrutura e indústria utilizando principalmente capital privado, associado a concessões e relações com o Estado.

A partir de Vargas, o Estado passou a assumir diretamente determinadas funções econômicas estratégicas.

Não significava o desaparecimento da iniciativa privada.

Ao contrário.

Empresas privadas continuariam sendo fundamentais.

Mas o Estado passaria a atuar também como:

planejador + regulador + investidor + produtor + indutor do desenvolvimento.

Essa mudança teria consequências profundas.

A legislação trabalhista

Uma das marcas mais conhecidas da Era Vargas foi a reorganização das relações de trabalho.

O governo criou e consolidou mecanismos de regulamentação do trabalho urbano.

A jornada de trabalho, férias, salário mínimo, organização sindical e outros direitos passaram a ser tratados dentro de uma estrutura legal mais ampla.

Em 1943, foi criada a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

A legislação representou uma transformação importante na relação entre trabalhadores, empresas e Estado.

Mas também criou mecanismos de controle estatal sobre a organização sindical.

Portanto, a política trabalhista de Vargas tinha duas dimensões:

proteção social e controle político.

Essa ambiguidade é importante para compreender o período.

O trabalhador entra no centro da política

Durante a Primeira República, a questão social havia sido frequentemente tratada como problema de ordem pública.

Com Vargas, o trabalhador urbano passou a ser incorporado de maneira muito mais direta ao projeto político do Estado.

O trabalho passou a ser apresentado como elemento fundamental da construção nacional.

A indústria precisava de trabalhadores.

Os trabalhadores precisavam de direitos.

E o Estado passou a ocupar o espaço de mediador entre capital e trabalho.

A relação entre esses três elementos se tornou uma das bases do novo modelo.

A indústria de base

Mas havia um problema.

Não bastava produzir bens de consumo.

Para industrializar de maneira mais profunda, o país precisava desenvolver aquilo que poderíamos chamar de infraestrutura da própria indústria.

Era necessário produzir aço.

Gerar energia.

Construir máquinas.

Desenvolver transportes.

Ampliar mineração.

Criar capacidade tecnológica.

Sem esses setores, a indústria brasileira continuaria dependente de equipamentos e insumos importados.

Por isso, o Estado passou a considerar determinadas áreas estratégicas.

A Companhia Siderúrgica Nacional

Um dos grandes símbolos dessa política foi a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).

A implantação da usina de Volta Redonda representou um passo importante para a produção nacional de aço.

O aço era fundamental para ferrovias, máquinas, construção civil, veículos, equipamentos e infraestrutura.

A siderurgia não era apenas mais uma indústria.

Era uma base para muitas outras.

O Brasil começava a construir uma estrutura industrial mais integrada.

A Segunda Guerra Mundial

A Segunda Guerra Mundial acelerou algumas dessas transformações.

O conflito dificultou o comércio internacional e aumentou a importância da produção nacional de determinados bens.

Ao mesmo tempo, o Brasil passou a negociar apoio e cooperação com os Estados Unidos.

Nesse contexto, a construção da CSN tornou-se possível com financiamento norte-americano.

Esse episódio demonstra uma característica que acompanharia o desenvolvimento brasileiro:

o país buscava autonomia industrial utilizando também capital, tecnologia e financiamento estrangeiros.

Não era uma oposição simples entre nacional e estrangeiro.

Era uma relação de negociação e interesse.

Capital nacional e capital estrangeiro

A industrialização brasileira sempre envolveria essa questão.

Capital estrangeiro podia trazer:

  • financiamento;
  • tecnologia;
  • máquinas;
  • conhecimento administrativo;
  • acesso a mercados.

Mas a dependência excessiva poderia limitar a autonomia econômica.

Por outro lado, tentar desenvolver todos os setores exclusivamente com capital nacional poderia tornar o processo mais lento e caro.

O desafio estava em encontrar um equilíbrio.

Essa discussão voltaria várias vezes ao longo da história brasileira.

O petróleo entra no debate nacional

Outro recurso estratégico começou a ocupar espaço crescente no debate brasileiro:

o petróleo.

A exploração do petróleo estava relacionada não apenas à energia.

Envolvia transporte, indústria, defesa e soberania econômica.

A pergunta era simples, mas politicamente poderosa:

quem deveria controlar os recursos estratégicos do país?

Empresas privadas?

Capital estrangeiro?

O Estado?

A discussão se tornaria cada vez mais intensa nas décadas seguintes.

O nascimento da Petrobras

Em 1953, já em seu segundo governo, Vargas sancionou a lei que criou a Petrobras.

A empresa passou a ocupar posição central na política brasileira de petróleo.

A criação da Petrobras representou uma visão segundo a qual determinados recursos naturais deveriam estar associados a uma estratégia nacional de desenvolvimento.

O petróleo não era visto apenas como uma mercadoria.

Era também um instrumento de autonomia econômica.

Essa visão influenciaria profundamente a política brasileira nas décadas seguintes.

O nacional-desenvolvimentismo

Começava a tomar forma uma ideia que teria enorme influência no Brasil:

o desenvolvimento econômico poderia ser planejado e estimulado pelo Estado.

O país precisava crescer.

Mas não bastava exportar produtos agrícolas.

Era necessário construir indústria.

Criar infraestrutura.

Ampliar energia.

Formar trabalhadores.

Desenvolver tecnologia.

Criar empresas.

Expandir o mercado interno.

Essa visão ficou conhecida, em diferentes momentos, como nacional-desenvolvimentismo.

Ela não significava necessariamente rejeitar o capitalismo.

Ao contrário.

Tratava-se de utilizar instituições públicas para criar condições para a expansão da economia capitalista nacional.

Estado e mercado não eram necessariamente adversários

Essa é uma questão importante para a tese desta série.

O período Vargas demonstra que a relação entre Estado e mercado não precisa ser entendida como uma escolha absoluta.

O Estado podia criar infraestrutura.

Empresas privadas podiam produzir.

Bancos podiam financiar.

Trabalhadores podiam consumir.

A indústria podia ampliar a arrecadação.

O mercado interno podia crescer.

Cada elemento dependia dos outros.

O desenvolvimento passava a ser visto como uma estrutura econômica integrada.

A criação de um mercado interno

A industrialização também transformou o consumo.

Quanto mais pessoas trabalhavam nas cidades, maior era a demanda por:

  • alimentos;
  • roupas;
  • moradia;
  • transporte;
  • eletrodomésticos;
  • serviços;
  • educação;
  • entretenimento.

O mercado interno começou a adquirir uma importância que não possuía na economia colonial.

O Brasil não dependia mais apenas de vender produtos para o exterior.

Também começava a produzir e consumir dentro de suas próprias fronteiras.

Essa transformação seria decisiva para as décadas seguintes.

A urbanização

A indústria estimulou a concentração populacional nas cidades.

Milhões de brasileiros passaram a migrar do campo para os centros urbanos ao longo do século XX.

As cidades cresceram.

Novos bairros surgiram.

O transporte público se tornou essencial.

A demanda por energia, água, saneamento e habitação aumentou.

O desenvolvimento econômico criou novos problemas sociais.

O país precisava construir infraestrutura em uma velocidade cada vez maior.

A educação como instrumento econômico

A transformação industrial também mudou a importância da educação.

Uma economia baseada em agricultura extensiva podia utilizar determinados tipos de conhecimento.

Uma economia industrial precisava de técnicos, engenheiros, administradores, trabalhadores especializados e profissionais capazes de operar máquinas e sistemas complexos.

A educação começava a ser vista não apenas como formação cultural.

Passava também a ser compreendida como infraestrutura humana do desenvolvimento.

Esse ponto será fundamental mais adiante.

Vargas e a contradição política

Não podemos analisar Vargas apenas pela dimensão econômica.

Seu governo também foi marcado por autoritarismo.

Em 1937, Vargas instaurou o Estado Novo, fechou o Congresso e concentrou poderes.

Liberdades políticas foram restringidas.

Houve censura e repressão a opositores.

Ao mesmo tempo, o Estado ampliava direitos trabalhistas e promovia industrialização.

Essa combinação produz uma das contradições mais importantes do período:

modernização econômica e autoritarismo político coexistiram.

Isso demonstra que desenvolvimento econômico, por si só, não garante democracia.

São dimensões diferentes.

A queda de Vargas em 1945

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o Estado Novo entrou em crise.

A contradição entre combater regimes autoritários no exterior e manter um regime autoritário no Brasil tornou-se cada vez mais difícil de sustentar.

Em 1945, Vargas deixou o poder.

Mas seu projeto político e econômico não desapareceu.

As instituições criadas durante seu governo continuaram influenciando o país.

E ele retornaria à Presidência pelo voto em 1951.

O segundo governo Vargas

No segundo governo, Vargas retomou sua agenda nacional-desenvolvimentista.

A Petrobras tornou-se um dos maiores símbolos dessa fase.

A discussão sobre petróleo, industrialização e soberania ganhou enorme força.

O país estava cada vez mais dividido entre diferentes projetos econômicos.

De um lado, havia aqueles que defendiam maior participação do capital estrangeiro.

De outro, setores que defendiam maior controle nacional sobre recursos estratégicos.

Mas havia também posições intermediárias.

A questão não era simplesmente escolher entre “Brasil” e “estrangeiro”.

Era decidir como o capital estrangeiro participaria do desenvolvimento nacional e quais setores deveriam permanecer sob controle estratégico do país.

A morte de Vargas

Em agosto de 1954, Vargas morreu durante uma profunda crise política.

Sua morte provocou enorme comoção nacional.

Mas sua influência não desapareceu.

O trabalhismo, o nacional-desenvolvimentismo e a ideia de um Estado forte na promoção do desenvolvimento continuariam presentes na política brasileira.

Novos líderes assumiriam essas bandeiras de maneiras diferentes.

Um deles se tornaria particularmente importante para a nossa história:

João Goulart.

E, posteriormente, uma figura surgiria no Rio Grande do Sul defendendo educação, desenvolvimento, infraestrutura e soberania nacional:

Leonel Brizola.

Uma nova pergunta

A trajetória de Vargas modificou profundamente a pergunta inicial desta série.

No Brasil colonial, a questão central era:

quem controla a terra?

No Brasil do Império, acrescentamos:

quem controla o capital e a infraestrutura?

Com a industrialização, surge uma nova pergunta:

quem controla a indústria, a energia, o crédito e os recursos estratégicos?

O poder econômico havia se tornado muito mais complexo.

A terra continuava importante.

Mas agora existiam fábricas, bancos, empresas, petróleo, energia, infraestrutura e tecnologia.

O Brasil entrava definitivamente em outra etapa.

O legado de Vargas

Vargas deixou uma herança contraditória.

Foi responsável por avanços importantes na organização do trabalho e pela criação de instituições fundamentais para a industrialização brasileira.

Ao mesmo tempo, governou de forma autoritária em parte significativa de sua trajetória.

Seu legado não cabe em uma única interpretação.

Mas existe uma transformação que dificilmente pode ser ignorada:

durante a Era Vargas, o Estado brasileiro passou a participar diretamente da construção da estrutura industrial do país.

Essa mudança preparou o caminho para o próximo grande ciclo de desenvolvimento.

O Brasil teria agora uma indústria em expansão, um mercado interno maior, cidades crescendo e uma nova disputa sobre energia, infraestrutura, capital estrangeiro e desenvolvimento.

E, no horizonte, surgiria um projeto ainda mais ambicioso:

acelerar a industrialização e transformar o Brasil em poucas décadas.

Esse projeto teria um nome:

Juscelino Kubitschek.

Continua.

Parte IV - O fim do Império: Abolição, República e a transformação do poder

 

Na primeira parte desta série, vimos a formação do capitalismo e sua chegada ao Brasil.

Na segunda, acompanhamos a construção do Estado imperial, a expansão do café, a escravidão, as ferrovias e as primeiras transformações econômicas.

Na terceira, Barão de Mauá mostrou que o Brasil já começava a experimentar outra forma de riqueza: aquela baseada não apenas na terra, mas também na indústria, nos bancos, na infraestrutura e na circulação de capital.

Agora chegamos a um dos momentos mais decisivos da história brasileira:

o fim da escravidão e da monarquia.

Mas uma pergunta precisa ser feita:

o que realmente mudou quando a escravidão terminou?

Um país moderno e escravista ao mesmo tempo

Na segunda metade do século XIX, o Brasil apresentava uma contradição cada vez mais evidente.

O país construía ferrovias.

Expandia seus portos.

Criava empresas.

Aumentava o comércio.

Recebia imigrantes.

Desenvolvia atividades industriais.

Mas ainda mantinha a escravidão.

Era uma sociedade que incorporava elementos da modernidade capitalista enquanto preservava uma das formas mais antigas de exploração do trabalho.

Essa contradição não poderia permanecer indefinidamente.

A resistência dos escravizados

A Abolição não foi simplesmente uma decisão tomada de cima para baixo.

Durante séculos, pessoas escravizadas resistiram de diversas formas.

Fugas, quilombos, revoltas, recusas ao trabalho, redes de solidariedade e outras formas de resistência contribuíram para enfraquecer o sistema escravista.

Ao mesmo tempo, cresceu o movimento abolicionista.

Intelectuais, jornalistas, políticos, associações, estudantes, trabalhadores livres e diferentes setores da sociedade passaram a defender o fim da escravidão.

A pressão aumentava.

E a própria dinâmica econômica também estava mudando.

O trabalho livre avançava

A expansão da imigração europeia e o crescimento das atividades urbanas contribuíram para ampliar o trabalho livre.

Nas regiões cafeeiras, diferentes formas de contratação de trabalhadores imigrantes foram sendo utilizadas.

Nas cidades, comerciantes, artesãos, funcionários e trabalhadores assalariados formavam uma sociedade cada vez mais diversificada.

O trabalho livre estava se tornando indispensável para uma economia que se modernizava.

Mas isso não significava que o fim da escravidão resolveria automaticamente a desigualdade.

A questão era muito maior.

A Lei Áurea

Em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea aboliu a escravidão no Brasil.

Foi um acontecimento histórico extraordinário.

Milhões de pessoas deixaram de ser juridicamente escravizadas.

Mas a liberdade jurídica não veio acompanhada de uma ampla política de inclusão econômica.

Não houve uma distribuição geral de terras.

Não houve um programa nacional de acesso ao crédito.

Não houve uma política de educação capaz de incorporar imediatamente a população recém-liberta.

A escravidão terminou.

A desigualdade patrimonial, porém, permaneceu.

Essa diferença é fundamental para compreender o Brasil posterior.

Liberdade sem patrimônio

Uma pessoa pode ser juridicamente livre e, ao mesmo tempo, possuir pouquíssimos recursos para exercer sua liberdade econômica.

Sem terra.

Sem capital.

Sem educação.

Sem crédito.

Sem patrimônio.

Sem acesso a mercados.

A liberdade formal pode coexistir com uma enorme desigualdade de oportunidades.

Esse problema não era exclusivo do Brasil, mas assumiu aqui características particularmente profundas devido à longa duração da escravidão e à concentração da propriedade.

A Abolição mudou a condição jurídica das pessoas.

Mas não reorganizou completamente a estrutura econômica.

A crise da monarquia

A Abolição também alterou o equilíbrio político.

Parte dos grandes proprietários rurais que dependiam do trabalho escravizado rompeu com a monarquia.

Ao mesmo tempo, setores do Exército estavam insatisfeitos com o governo imperial.

O movimento republicano ganhava força.

A relação entre Igreja e Estado também havia produzido conflitos.

A monarquia enfrentava, portanto, múltiplas pressões.

O sistema político que havia sustentado o Império durante décadas começava a perder apoio entre grupos importantes.

O Exército ganha novo peso

A Guerra do Paraguai havia aumentado a importância das Forças Armadas na vida nacional.

Militares retornaram do conflito com maior consciência de seu papel político.

Novas ideias circulavam dentro do Exército.

Positivismo, republicanismo e debates sobre a organização do Estado ganharam espaço.

A questão militar tornou-se cada vez mais importante.

O Brasil estava entrando em uma fase na qual o poder político não seria mais definido apenas pela relação entre imperador, Parlamento e grandes proprietários.

Novos atores estavam surgindo.

A Proclamação da República

Em 15 de novembro de 1889, a monarquia foi derrubada e a República proclamada.

O marechal Deodoro da Fonseca assumiu a liderança do novo regime.

A mudança foi profunda no plano institucional.

Mas é importante evitar uma interpretação simplista.

A República não apagou a sociedade imperial.

As pessoas continuaram sendo as mesmas.

As propriedades continuaram existindo.

As grandes fortunas não desapareceram.

As relações econômicas não foram reconstruídas do zero.

O novo regime recebeu uma herança econômica e social construída ao longo de séculos.

Uma nova forma de poder

A mudança mais importante estava na forma como o poder político seria organizado.

O Brasil deixava de ser uma monarquia constitucional e tornava-se uma república federativa.

As antigas províncias transformaram-se em estados.

As elites regionais ganharam novos espaços de poder.

A política passou a ser organizada em torno de novas instituições republicanas.

Mas a concentração econômica continuava oferecendo recursos para exercer influência política.

A questão que havia aparecido na primeira parte da série permanecia:

como a propriedade econômica se transforma em poder político?

Agora, porém, em um regime republicano.

O poder dos estados

Na Primeira República, os estados adquiriram grande importância.

As oligarquias regionais controlavam estruturas políticas locais e exerciam influência sobre eleições, administração pública e distribuição de recursos.

O café, especialmente em São Paulo, possuía enorme importância econômica.

Minas Gerais também tinha grande peso político.

A chamada política dos governadores ajudou a organizar a relação entre o governo federal e as elites estaduais.

O Brasil republicano estava construindo um novo equilíbrio de poder.

O coronelismo

É nesse contexto que aparece o coronelismo.

E aqui é importante manter a precisão histórica:

coronelismo não era uma instituição da Colônia.

Foi um fenômeno associado principalmente à Primeira República.

Sua existência estava relacionada à estrutura política descentralizada, ao poder dos grandes proprietários locais e às relações de dependência existentes em muitas regiões rurais.

O chamado “coronel” podia exercer influência sobre eleitores, autoridades e decisões locais.

A propriedade da terra continuava sendo uma importante fonte de poder.

Mas agora essa influência era exercida dentro de uma estrutura republicana.

Do senhor de terras ao chefe político

Essa transformação é importante para a nossa tese.

No período colonial e imperial, a grande propriedade estava profundamente ligada à organização econômica e social.

Na República, o proprietário rural podia também transformar sua influência econômica em influência eleitoral e política.

A lógica havia mudado de forma.

Mas uma relação permanecia:

riqueza → influência local → poder político.

Não era uma relação automática nem igual em todas as regiões.

Mas foi suficientemente importante para marcar a política brasileira durante décadas.

O voto e seus limites

A República trouxe a ideia de soberania popular.

Mas o sistema eleitoral daquele período estava longe de representar uma democracia ampla como entendemos atualmente.

O voto era limitado por diversas condições.

As mulheres não votavam.

Analfabetos foram excluídos do voto durante grande parte da Primeira República.

Fraudes eleitorais e mecanismos de controle político também eram problemas importantes.

Assim, a República ampliava a linguagem da cidadania, mas a participação efetiva permanecia restrita.

Essa é outra continuidade importante:

a igualdade jurídica avançava mais rapidamente do que a igualdade de oportunidades.

A economia do café

A economia brasileira continuava fortemente dependente das exportações agrícolas.

O café era o principal produto.

São Paulo tornou-se um dos grandes centros econômicos do país.

As ferrovias continuaram se expandindo.

Portos foram modernizados.

Bancos ganharam importância.

A imigração aumentou.

Ao mesmo tempo, a industrialização começava a avançar.

O Brasil já não era apenas uma economia rural.

Mas ainda dependia fortemente do setor agrícola exportador.

O nascimento de uma sociedade urbana

As cidades começaram a crescer.

São Paulo, Rio de Janeiro e outros centros urbanos passaram a concentrar comércio, serviços e atividades industriais.

Uma nova classe trabalhadora urbana se formava.

Muitos imigrantes participaram desse processo.

Sindicatos e associações operárias começaram a surgir.

Ideias socialistas, anarquistas e trabalhistas passaram a circular.

A questão social ganhava uma nova dimensão.

O conflito econômico não estava mais apenas no campo.

Começava a aparecer também nas fábricas e nas cidades.

A indústria ganha espaço

A Primeira República foi marcada por crescimento industrial, especialmente em determinados períodos.

A Primeira Guerra Mundial, por exemplo, dificultou a importação de diversos produtos e estimulou a produção interna.

Empresários começaram a investir em fábricas.

A indústria têxtil, de alimentos e outros segmentos se expandiram.

O capital brasileiro começava a encontrar novas possibilidades de investimento.

Mais uma vez, o meio de produção estava mudando.

A terra continuava importante.

Mas a fábrica se tornava cada vez mais relevante.

O Brasil entra em uma nova etapa

Ao final da Primeira República, o país já era muito diferente daquele que havia deixado a Colônia.

Havia:

agricultura comercial + indústria + bancos + ferrovias + cidades + trabalho assalariado + comércio internacional.

O capitalismo brasileiro havia se tornado mais complexo.

Mas a concentração de riqueza permanecia.

A desigualdade regional permanecia.

A concentração fundiária permanecia.

E o poder político continuava profundamente relacionado à capacidade econômica.

A modernização não havia eliminado as antigas estruturas.

Havia acrescentado novas.

A crise de 1929

Em 1929, a crise econômica internacional atingiu fortemente o Brasil.

O preço do café caiu.

As exportações foram afetadas.

O modelo econômico baseado fortemente na agricultura exportadora mostrou suas fragilidades.

A crise não foi apenas econômica.

Ela também abalou o equilíbrio político da Primeira República.

O país começava a procurar outro caminho.

1930: uma ruptura

Em 1930, uma revolução política levou Getúlio Vargas ao poder.

Esse acontecimento marcaria uma transformação profunda na história econômica brasileira.

A partir dali, o Estado passaria a desempenhar um papel muito mais ativo na organização da economia.

A industrialização ganharia prioridade.

O trabalho urbano seria regulamentado.

A infraestrutura seria ampliada.

Novas empresas e instituições seriam criadas.

O Brasil começaria a construir uma economia industrial em escala muito maior.

Mas Vargas não surgiu de um vazio histórico.

Ele foi resultado de todas as transformações anteriores:

a economia colonial, o café, a escravidão, a Abolição, a República, o coronelismo, a industrialização inicial e a crise do modelo agroexportador.

Uma mudança de eixo

Podemos agora perceber uma grande transformação.

Durante séculos, o Brasil teve sua economia organizada principalmente em torno da terra e da produção agrícola destinada ao mercado externo.

No início do século XX, esse modelo ainda era poderoso.

Mas a indústria, as cidades, o trabalho assalariado e o mercado interno começavam a ganhar importância.

O centro da economia começava a se deslocar.

Não completamente.

Não de uma vez.

Mas de maneira decisiva.

E essa transformação abriria espaço para um novo personagem histórico.

Getúlio Vargas.

Com ele, a pergunta deixaria de ser apenas quem controla a terra.

Passaria a ser também:

quem controla a indústria, a energia, a infraestrutura e os instrumentos de desenvolvimento do Estado?

Essa será a questão da próxima parte.

Continua.

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